Há um ano, em Manaus, a historiadora e ex-senadora Marina Silva, explicava seu posicionamento sobre a recuperação da Rodovia Manaus-Porto Velho, a BBR 319, cobrando estudos de viabilidade ambiental, social e econômica dessa empreitada. Faltou à senadora explicitar a estória sem agá, obscura e constrangedora de sua proibição, revelada nos capítulos da reportagem da Rede Amazônica, BR 319, o caminho da esperança, ou do modo avesso com que são tratados os gargalos de infraestrutura do modelo Zona Franca de Manaus, seus imbróglios logístico/burocráticos e a perda da competitividade da produção local. Curioso e emblemático o silêncio acariciado a respeito da hipocrisia do discurso político eleitoreiro dos últimos anos, e a prosopopeia da cantilena ambiental. Nunca houve qualquer entrave de monta para a recuperação da estrada, além das bombas espocadas em seu leito, pois o traçado já existia, a pavimentação foi feita, os recursos foram confiscados dos cofres da ZFM, e a estrada o descaso comeu.

Abandonada e bombardeada, mas já funcionou sem qualquer dano irreparável por quase 15 anos. E é uma via extremamente necessária para a economia da região, para a agricultura familiar ou de médios produtores, nos padrões sustentáveis de agrossilvicultura, desenvolvidas pela Embrapa. Por que não produzir mamão, banana, laranja, açaí, madeira manejada, para domesticar parcelas inteligentes de seu traçado para adensar e diversificar a floresta, aumentando sua capacidade de fixar carbono e mitigar a demanda de trabalho e de alimentos para a economia local e regional?  O que se deu foi o descaso, tanto de sua manutenção e conservação. Um descaso que acontece com outros segmentos e aspectos da infraestrutura local, alvo preferencial do abandono oportunista, em alguns casos, imoral e até delituoso, posto que incluiu a destruição objetiva do patrimônio público, promovido por agentes obscuros da logística sinistra, que insistem em permanecer ditando as regras de interesses segmentados para prejuízo do bem comum, e o que é mais grave: com a anuência do poder público. Que o Ministério Público Federal, espera-se, e Polícia Federal, tenham assistido às reportagens e ouvido o depoimento das pessoas e visto as imagens da destruição criminosa com uso de explosivos de trechos da rodovia para comprometer seu tráfego e assim resguardar o que, quem, como e por que? Deixar essa denúncia sem apuração, sem dar qualquer importância para suas implicações, prejuízos e complicações que se estendem e se mantém até os dias atuais, é compactuar com uma estória absurda, que o bom senso e a justiça, urgentemente, recomendam elucidar.

A compulsão federal por recursos confiscou mais de R$ 50 bilhões líquidos do Modelo ZFM nos últimos 10 anos mas não recuperou a Rodovia,  não balizou o Rio Madeira, não construiu porto público, não instalou a rede de distribuição de energia para utilizar a energia de Tucurui, não incluiu o Amazonas no Programa Nacional de Banda Larga e por aí vai, ou não foi a contrapartida decente e coerente deste modelo de acertos. Numa palavra, a propósito das expectativas de transporte para o modelo, com ou sem a estrada, são claras a racionalidade, a sustentabilidade e a economicidade do modal da  cabotagem, pois foi assim que prosperou o Ciclo da Borracha e assim se mantém e se amplia, sobretudo se sua articulação inteligente e eficiente se der  com outros modais, rodo ou ferroviário. Até este modal foi deixado de lado. É inadiável, pois, dragar e balizar o rio Madeira, entre outras providências. Cabe lembrar que não conquistamos, em meio século do modelo ZFM, assegurar uma estrutura de manutenção das vias do distrito industrial, a despeito da relação próxima, quase íntima, dos governos estaduais e federais nas últimas décadas.

As entidades do setor produtivo, que recolhem quase dois bilhões/ano, para pesquisa, desenvolvimento, educação e interiorização e diversificação da economia, há anos, pontuam a questão logística como fator predatório da competitividade do modelo ZFM. E tem ouvido clássicas ou ridículas bazófias na perspectiva de seu equacionamento. É óbvio que a BR 319 sozinha não resolveria o gargalo logístico do polo industrial, que depende de diversidade e complementariedade dos modais disponíveis em qualquer planta industrial e seus mercados. O que resolve é a mobilização dos atores sociais, para esvaziar a demagogia e construir soluções e esperanças para o interior, mas sobretudo para preparar as vias da silvicultura e negócios da agroindústria, para as novas matrizes de uma economia inteligente e sustentável, com transparência, brasilidade e de verdade…

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Alfredo Lopes
*Escritor amazonense, com 11 títulos sobre a Amazônia, e mais de 2 mil ensaios. Formado em Filosofia com pós-graduação em Administração e Psicologia da Educação. Consultor eventual do BID, Grupo Simões, do CIEAM e diretor da FIEAM.

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