“As balas penetravam pela porta e janelas da frente, perfurando todas as paredes divisórias indo cair de encontro o muro do quintal (…). 

Essa história de jogarbomba em jornais ou invadir suas oficinas gráficas e fazer pilhagem ou empastelamento generalizado não foi primazia de um só veículo de comunicação, no tempo antigo de nossa cidade. E nem aquele que foi incendiado e as labaredas eram apagadas com querosene pode ser comparado com o ataque sofrido pelo jornal “O Liberal”, que rodava em Manaus.

O fato foi grave. Circulando na capital amazonense, era a voz retumbante da oposição aogoverno de Jonathas Pedrosa(1913-17), sendo editadosob a responsabilidade do coronel Antônio Guerreiro Antony, que também era o vice-governador do Estado, portanto, substituto de Jonathas.

A sede da empresa jornalística era na Rua Henrique Antony, em cujo prédio também residia o próprio Guerreiro Antony, com toda a família.

Não era prédio de grandes paços, mas oferecia certo conforto para o trabalho e para a residência, segundo os cronistas da época, e ainda servia de hospedaria, vez em quando, para amigos e lideranças políticas vinculadas ao “chefe do partido”, como se chamava naquela época.

Tanto assim que por lá estiveram hospedados, de passagem, Manoel Francisco Machado que foi político, senador e o último presidente da província do Amazonas, e Joaquim Gondim, escritor e jornalista e que, vez em quando, dava o ar da sua graça com artigos de fundo no jornal.

Para sua segurança e de sua família, e porque não era de levar desaforo para casa, o velho e destemido Guerreiro Antony costumava ter em sua companhia alguns capangas especialmente vindos do Nordeste para guarnecerem o prédio e, se necessário, aplicarem umas “duras” nos seus desafetos políticos, que eram muitos.

Se o jornal era contundente e forte na linguagem, combativo era seu proprietário e diretor, daqueles que, naqueles anosjá havia comandado pelo menos três rebeliões acontecidas em Manaus, sempre com otivação política, em muitas das quais ele se metia em camisa de onze varas.

A campanha contra o governo era desabrida. Fogo cruzado. Nenhum ato do governo passava despercebido, e, logo em seguida, o pau cantava nos costados do velho Pedrosa que, iludido, aceitara Antony como seu parceiro de governo na qualidade de vice-governador.

Depois de uma intensa campanha, aberta e frontal contra o governador Jonathas Pedrosa e confiando que o novo governo lhe seria favorável, Antony foi surpreendido no dia 1º de janeiro de 1916 com forte bombardeio de sua casa, promovido por canhões e soldados da Polícia Militar.

“As balas penetravam pela porta e janelas da frente, perfurando todas as paredes divisórias indocair de encontro o muro do quintal. Meia hora mais tarde, retiravam do prédio danificado, seis cadáveres que, emparelhados, ficaram na rua, tendo destino ignorado”, contava anos mais tarde o filho do Bituca, para descrever a cena que assistira no raiar daquele ano.

Antony assumiu publicamente a responsabilidade pelos episódios políticos que redundaram no bombardeio e o fez por meio de um Manifesto à Nação, mas foi obrigado a requererhabeas corpus ao Supremo Tribunal Federal, tendo Ruy Barbosa e Barbosa Lima Sobrinho como seus advogados, memorável processo judicial, para conseguir abandonar o asilo em que se enfiara quando do ataque militar, conseguindo sair da Capitania dos Portos.

Este é só mais um caso dentre tantos da história política do Amazonas que precisam ser contados nos seus mínimos detalhes.
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Roberio Braga
*Amazonense de Manaus. Historiador. Bacharel em Direito, especializado em Direito Agrário, pós-graduado em Administração de Política Cultural e Mestre em Direito Ambiental. Professor da Escola Superior da Magistratura do Amazonas e da Universidade do Estado do Amazonas. Ex-presidente da Academia Amazonense de Letras e do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas. Ex-Secretário de Estado de Cultura, desde 1997 até 2017 e atual Presidente da Academia Amazonense de Letras.

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