fernanda torres
*Fernanda Torres

Dormi tarde. Não sonhei.

Eu estava ali, na paz do lar, tinha acabado de pôr um ponto final no texto que entregaria na quinta-feira (31), para ser publicado hoje, neste espaço. Os filhos de banho tomado, jantados, o marido na cama e a TV ligada no Jornal Nacional.

Na selva de leões e hienas famintos, de segundas instâncias nos tribunais, de Queirozes e grampos mútuos do PSL; de esposas de militares gritando “Bolsonaro traidor” na Câmara e discursos de ameaça do 03 no plenário, eu tentava manter a calma e não pensar na porra da mancha de óleo bruto que, depois de empestear o Nordeste, segue seu curso sinistro em direção a Copacabana.

Esquece o prefeito ungido do Rio de Janeiro, eu pensava, que não satisfeito com a própria incompetência, decidiu incrementar a campanha de reeleição com imagens de tratores demolindo o pedágio da Linha Amarela. Esquece.

Eu fingia tranquilidade e concluía um texto que começava assim: “A repórter me pergunta se, hoje, para o artista, é mais nobre sofrer na alma pedradas e flechadas do destino feroz ou pegar em armas contra o mar de angústias e, combatendo-o, dar fim a ele. E eu penso em morrer; dormir; só isso. E com o sono – dizem – extinguir dores do coração e as mil mazelas naturais a que a carne é sujeita; eis uma consumação ardentemente desejável. Morrer, dormir, dormir! Talvez sonhar”.

Era assim que eu iniciava o texto, citando Hamlet para mudar de assunto, para lembrar que a beleza existe, e a arte, e a poesia, e essas comunistices que me são caras. E digitei o ponto final, me preparando para dormir, dormir, talvez sonhar, quando o William Bonner deu a notícia.

O porteiro do Vivendas da Barra, onde residem Jair, Carlos Bolsonaro e Ronnie Lessa, suspeito do assassinato de Marielle Franco, abriu os portões do condomínio para o suposto comparsa do atirador, Élcio Queiroz, na noite do atentado que vitimou a vereadora, depois de confirmar o destino do visitante, a casa 58, pertencente a Messias.

Não deu nem tempo de respirar. Mal encerrado o noticiário, o presidente entrou ao vivo, pelo Twitter, da Arábia Saudita. Sem ação, me pus a assistir aquele homem enfurecido, botando e tirando os óculos, virado, às quatro da matina, vindo de uma sequência de viagens e recepções exóticas, ainda mal curado de uma cirurgia, sendo tomado pela indignação.

O autocontrole inicial terminou numa espiral de ódio contra o governador Wilson Witzel, acusado de ter vazado a notícia, e a Rede Globo, onde eu trabalho e teria que estar no dia seguinte. Haveria piquete na portaria?

E a casa, e os filhos, e o marido, e o texto, e o país, e o futuro, e qualquer normalidade possível foram pelos ares. Era como estar aprisionada num episódio de “Years and Years”, gritando pela sala, na frente das crianças, enquanto alguém detona uma ogiva nuclear em alguma vizinhança do planeta. Foi assim.

Pensei no porteiro e no Bonner. E também no Jamal Khashoggi, jornalista morto, segundo a ONU, por funcionários do governo saudita do consulado em Istambul, em retaliação às críticas feitas ao príncipe Mohammed Bin Salman.

Estaria Jair se consultando com o príncipe? Bonner recorreria à cirurgia plástica, antes de cair na clandestinidade de uma vida anônima em São José de Lugar Nenhum?

Jair berrando que, em 2022, o Grupo Globo só renovaria a concessão pública de televisão por cima de seu cadáver.

“E se sobrar só a Record?”, pensei. E se o Rio se transformar no primeiro Estado 100% Jesus da União, com Crivella cobrando o dízimo no pedágio refeito da Linha Amarela e as novelas bíblicas dominando o horário nobre, antecedidas da leitura dos salmos, em vez das notícias do dia?

Passei em revista os personagens bíblicos cabíveis a uma atriz de meia-idade: Betsabá, Salomé, Raquel… – jovens demais pra mim. Sarah na segunda fase ou, talvez, a mulher do faraó Potifar, se ainda estiver inteira em 2022.

Dormi tarde. Não sonhei.

Pela manhã, Rodrigo Maia, em entrevista na GloboNews, agia como se o ontem não tivesse existido, com tiques de pescoço que denunciavam a apreensão. À noite, o Ministério Público garantiu que o porteiro havia mentido. E a mancha de óleo submersa seguindo viagem em direção ao sudeste.

Quem suportaria o açoite e os insultos do mundo, a afronta do opressor, o desdém do orgulhoso, as pontadas do amor humilhado, as delongas da lei, a prepotência do mando, e o achincalhe? Podendo, ele próprio, encontrar seu repouso…

… Em 20 gotas de Rivotril.

*Atriz. Escritora. Colunista da Folha de São Paulo. Artigo no Caderno Ilustrada, de 03/11/2019.
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