fernanda torres
*Fernanda Torres

Ala negacionista do governo pode ter beneficiado fabricantes de remédios para piolho e verme.

Quando, na CPI da Covid, o policial dublê de intermediador de insumos farmacêuticos, Luiz Paulo Dominguetti -que estaria ali para entregar um esquema de compra superfaturada de vacinas liderado por funcionários do Ministério da Saúde-, sacou a gravação de outra suposta negociação escusa, essa evolvendo o deputado Luis Miranda, confesso que me perdi.

Chapéu de burro é marreta na terra de Omar Aziz e uma pancada na testa talvez me ilumine. Tem a ala negacionista, da gripezinha da imunidade de rebanho do Osmar Terra, que pode ter beneficiado fabricantes de remédios para piolho e verme, seja por fé na hidroxicloroquina, seja por interesse financeiro, o que será investigado; e tem a ala do baixo clero de um Ministério da Saúde com mais de 500 mil mortos no currículo, que pretendia surrupiar US$ 1 por dose de vacinas ainda em fase de teste, o que também precisa ser comprovado.

E Messias? O presidente virou as costas para Pfizer, Janssen, China, OMS e o raio que o parta por medo, de fato, de virar jacaré de fala fina; ou barganhou a imunização do país em troca do apoio do centrão, deixando as tratativas nas mãos dos ratos do porão?

Cartazes marcam manifestações contra Bolsonaro

Manifestantes se concentraram no centro do Rio de Janeiro com placas e cartazes contra o presidente Jair Bolsonaro Júlia Barbon – 03.jul.21/Folhapress

Manifestantes em São Paulo espalham réplicas de notas de US$1 estampadas com o rosto de Jair Bolsonaro e manchadas de vermelho cor de sangue Flavio Ferreira/Folhapress

Protestos na região da avenida Paulista,contra o presidente Bolsonaro Mathilde Missioneiro/Mathilde Missioneiro – 03.jul.21/Folhapress

Cego, ignorante, negligente, interesseiro ou corrupto? Até Carla Zambelli há de concordar que não é bom para o capitão.

Messias lembra Lucius Aurelius Commodus Antoninus, filho do imperador romano Marco Aurélio, que herdou o trono, mas não a sapiência do pai.

Sem talento para a administração, o relapso Commodus entregou a governança a terceiros. Seu reinado marca o início do declínio do Império Romano.

A irmã mais velha, Lucilla, bem que tentou assassiná-lo, mas acabou morta. O atentado atiçou a paranoia do imperador e o fez, à maneira de Jair, reduzir seu círculo de confiança aos mais chegados. Na falta de filhos, Zero I, II, III e IV, Commodus deu poderes a dois escravos libertos, amigos de longa data, Saoterus e Cleander.

Aconselhado por eles, apostou no pão e no circo para agradar às massas, custeando os jogos com a taxação dos senadores.

Roma é Roma e não tardou para que Cleander desse cabo de Saoterus Bebianno. Livre do concorrente, o Onyx de ocasião vendeu cadeiras no Senado para aliados do gentio e tramou um plano de poder digno da logística de Pazuello.

Roma mal controlara a peste, iniciada em 165 d. C., quando Commodus ascendeu ao poder, em 180 d. C. Especula-se que a praga, assim como a Covid, tenha se originado na China e infectados as Legiões durante o cerco da cidade de Selêucia, nas margens do rio Tigre.

A extraordinária rede de estradas do império teve o mesmo papel dos aviões na atual pandemia. Rapidamente, o sarampo ou a catapora, não se sabe ao certo, empesteou os domínios da antiga potência.

A peste matou uma média de 2.000 romanos por dia, levando a óbito mais de 5 milhões de pessoas.

A praga estava quase sanada, quando o ambicioso Cleander cortou o abastecimento de grãos da cidade, vindos do Egito e de outras colônias, numa estratégia mal calculada de provocar a escassez de comida para, depois, bancar o herói ao liberar os estoques.

A fome reavivou a peste e provocou a insurreição popular. Antes de conseguir posar de salvador da pátria, o odiado Cleander foi eliminado pelo próprio imperador e seu corpo decapitado sofreu linchamento póstumo em praça pública.

Não bastasse a doença, a privação e a convulsão social, um raio divino incendiou Roma, devastando uma área comparável à atingida pelas queimadas do Salles.

Commodus, mais uma vez, recorreu ao circo para acalmar a plebe, instituindo 14 dias seguidos de jogos estrelados por ele mesmo, o primeiro e único imperador a se aventurar na arena do Coliseu.

Ele poderia ter escolhido uma parada militar, ter organizado uma motociata ou aglomeração com criança de colo sem máscara, mas preferiu travestir-se de Hércules, com direito à clava e pele de leão da Nemeia. Muitos gladiadores morreram sob a sua espada, armados com fios cegos.

Alçado à condição de mito, Commodus ergueu estátuas de ouro em sua homenagem, rebatizou Roma com a alcunha de Colonia Commodiana e pôs a cabeça de seus desafetos a prêmio, numa lista que incluía o Senado, o Supremo, o Renan, o Randolfe, o Vieira, o Humberto, a Tebet e a Eliziane, os irmãos Miranda, o PT, a TV Globo, a Folha, a Magalu e o Felipe Neto.

Estrangulado por Narcisus, quiçá da Silva, o gladiador que o treinou para os jogos, Commodus deixou de legado uma guerra civil.

Ave César. Que os deuses nos poupem em 2022.

*Atriz. Escritora. Colunista da Folha de São Paulo. Artigo no Caderno Ilustrada, de 07/07/2021.
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