fernanda torres
*Fernanda Torres

No país do jeitinho, galgamos uma nova ordem de grandeza com um presidente avesso às regras, às leis e às instituições.

A CPI da Covid veio agravar o quadro de ansiedade do leitor das quintas. Nesse dia, encerram-se os depoimentos da semana, verdadeiro cortejo temático de horrores, dividido, até aqui, entre a insistência no tratamento preventivo com cloroquina, a negligência na compra de vacina e o “um manda e o outro obedece” do Pazuello.

O ex-ministro da Saúde surpreendeu, respondendo de forma assertiva a todas as perguntas da comissão de inquérito. Mas a pressão de ter sustentado, por dois dias consecutivos, o roteiro fictício do media training acabou lhe causando um piripaque passageiro na noite de quarta e um ataque de sincericídio na gloriosa quinta.

O que Bolsonaro já disse sobre a CPI da Covid

“Tem que fazer do limão uma limonada. […] Acho que você já fez alguma coisa. Tem que peticionar o Supremo para botar em pauta o impeachment também de [ministros do STF]”, disse Bolsonaro em conversa por telefone divulgada pelo senador Jorge Kajuru Pedro Ladeira/Folhapress

“Não dá para ouvir tudo [da CPI], né? Primeiro que é uma xaropada, raramente tem um senador ali… Raramente não, têm senadores bem intencionados, que fazem um grande trabalho. Agora tem uns quatro ali que pelo amor de Deus. Sabem tudo” Pedro Ladeira/Pedro Ladeira/Folhapress

“Sabemos como é o nosso presidente da República”, desabafou Pazuello. “Ele fala de improviso, ele fala de pronto, como vem à cabeça, como ele pensa. Essa é a verdade.

Esse é o presidente da República que foi eleito. Não podemos esconder o sol com a peneira.”

O general jura que a incontinência verbal e o comportamento errático do chefe maior não se traduziram em ações concretas do governo.

Messias jamais pressionou, assinou, exigiu, mandou, pediu ou interferiu na pasta da Saúde. Os dois, ao que parece, pouco se viam, e o presidente preferiu manter distância da maior crise sanitária da história recente.

Com a missão cumprida de colocar o Brasil na dianteira das mortes por Covid no planeta, o militar protegeu o superior com a desculpa de que é tudo da boca para fora porque esse é o jeitão do Jair.

Eu, que acreditava viver no país do jeitinho, compreendi, ali, que havíamos galgado uma nova ordem de grandeza.

O lado sombrio do homem cordial, avesso às regras, às leis e às instituições age, agora, segundo o jeitão brasileiro.

O jeitão é uma imposição do caráter, é a vontade inarredável do ser, é a individualidade pairando acima de qualquer imposição moral ou legal.

O jeitão é uma distorção preocupante do que se convencionou chamar de liberdade de expressão e de ação.

É do jeitão da tropa de choque governista da CPI, por exemplo, tecer loas à cloroquina e elogiar médicos que, lá, do jeitão deles, prescrevem qualquer porcaria sem comprovação científica.

E é do jeitão dessa mesma frente acusar de histeria a bancada feminina. É, também, do jeitão da política brasileira excluir as senadoras das 18 vagas de titulares e suplentes da comissão parlamentar.

E é do jeitão do capitão aglomerar sem máscara e andar de motocicleta sem capacete no Maranhão -estado onde foi confirmada a contaminação de um marinheiro estrangeiro pela cepa indiana do coronavírus. E é do jeitão do Messias repetir o feito no Rio de Janeiro, dessa vez, com capacete e com Pazuello.

E é do jeitão do Salles, o antiministro do Meio Ambiente, botar abaixo a floresta amazônica e aproveitar a pandemia para passar a boiada dos grileiros, dos madeireiros ilegais e dos garimpeiros que pesteiam de mercúrio os rios e invadem as terras indígenas.

E é do jeitão do general Heleno mudar de ideia em relação ao fisiologismo do centrão, porque este, agora, lhe serve.

E é do jeitão da base ideológica do Planalto ofender a China, mesmo que nos custe o PIB e os insumos para produzir vacinas.

E é do jeitão do Mario Frias, o secretário de Cultura da zona oeste, não saber quem foi Lina Bo Bardi, mas querer ir à Bienal de Veneza de Arquitetura que a homenageia. Sairia mais barato dar um pulo em São Paulo, mas ele não conhece Veneza, e o Masp não é muito do jeitão dele.

Veja trajetória de Mario Frias

Mario Frias estreou como personagem fixo de ‘Malhação’ como Escova, em 1998 Divulgação/Divulgação

Mario Frias como o deputado Thomas Jefferson, de ‘Senhora do Destino’, de 2004 João Miguel Júnior/Globo

E é do jeitão do homofóbico encher de porrada as minorias LGBT; é do jeitão do marido machão dar umas bolachas na companheira; é do jeitão do racista calcular o peso de um quilombola em arrobas; é do jeitão da política do “mirar na cabecinha” entrar na favela atirando… é do nosso jeitão.

Não tem jeito.

Só mesmo a cobertura da CPI da Covid na voz do Galvão Bueno do Adnet para dar conta desse churrascão de domingo do tiozão armado do pavê que virou o país.

Adnet, Millôr Fernandes teria orgulho de você.

Continue assim, garoto, do jeitinho que você é.

Só mesmo a cobertura da CPI da Covid na voz do Galvão Bueno do Adnet para dar conta desse churrascão de domingo do tiozão armado do pavê que virou o país.

Adnet, Millôr Fernandes teria orgulho de você.

Continue assim, garoto, do jeitinho que você é.

*Atriz. Escritora. Colunista da Folha de São Paulo. Artigo no Caderno Opinião, de 26/05/2021.
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