Ricardo Bonalume Neto* Ricardo Bonalume Neto

Cientistas usam cidades como laboratórios para entender como animais se adaptam à perda de seu habitat natural.

As cidades estão sendo reconhecidas pelos cientistas como verdadeiros laboratórios para estudar a evolução e uma “nova ecologia” de animais silvestres. O fenômeno é mundial: cada vez mais gente vive em cidades, e mais animais tomam a mesma decisão.

A ONU estima que em 2015 a população mundial chegou a 7,3 bilhões, dos quais 54% vivem em centros urbanos. Essa expansão das cidades e o encolhimento dos ambientes naturais têm forçado animais selvagens e humanos a um convívio crescente. Alguns, por exemplo, estão tendo mais sucesso em áreas urbanas do que seus colegas vivendo em condições naturais.

Os biólogos chamam essa adaptação de animais em ambientes criados pelo homem de sinantropia –o termo não vale para animais domésticos, como cães e gatos.

Cidades proveem abrigo, comida e água fácil para os animais. Comparados com os que permaneceram de fora, os animais sinantrópicos vivem em maior densidade populacional associada à redução do território individual e têm redução do comportamento migratório, prolongamento da estação reprodutiva e aumento da longevidade.

Muitos animais, especialmente os de maior porte, vivem nos subúrbios, perto do que restou das matas nativas. Mas cada vez mais são atraídos pela região central, com sua ilha de calor e maior acúmulo de restos de comida.

Uma estimativa do Centro de Controle de Zoonoses sugeriu que em São Paulo haveria 160 milhões desses roedores –algo como quinze ratos por pessoa. Em Nova York, são sete por habitante.

Mas os animais “invadem” as cidades em grande parte porque seu habitat natural foi invadido pelo ser humano. Se de um lado a maior tendência de animais e humanos conviverem em ambientes urbanos permite enriquecer a fauna das cidades, isso não deve ser entendido como algo necessariamente positivo.

“Cidades podem ser um refúgio e área de conservação para algumas espécies”, diz o polonês Maciej Luniak, pesquisador especialista em sinantropia. Mas esse aumento da convivência “não muda o fato de que uma crise ecológica global está afetando a fauna urbana”, diz Luniak.

Tartarugas marinhas, ao nascerem nas praias, costumam se dirigir para o mar, mais claro que a terra em torno. Mas se há luzes de rodovias ou cidades, as tartarugas podem ir na direção errada –assim como aves noturnas migratórias, também fatalmente atraídas pela iluminação.

Essa convivência pode ser perigosa também para o ser humano. É o caso dos ataques causados pelo crocodilo de água salgada (Crocodylus porosus). Os mais bem documentados ocorreram na Austrália. Desde 1971, mais de cem ataques foram obras destes crocodilos, a maior parte letal. O recorde foi em 2014, na região dos Northern Territories: quatro mortos.

*Jornalista da Folha de São Paulo. Matéria no Caderno Ciência+Saúde B6, de 20/02/2016.
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