Voltei a viver em Manaus, depois de duas décadas morando no Rio de Janeiro. Já estou aqui há mais dez anos. Gosto da minha cidade, sei das dificuldades para viver aqui, sei das limitações, e das vantagens.

Na verdade, nestes últimos anos em que estive fora, nunca me desliguei de Manaus. Mas nada se compara em viver o cotidiano, em enfrentar o dia a dia, os serviços, a rotina e as obrigações. O que posso dizer? Em 20 anos, a cidade de Manaus se proletarizou. Antes, núcleo de classe média, de economia modesta, hoje o perfil social mudou completamente. A cidade sofreu um dos impactos populacionais mais intensos, diria mesmo sem precedentes na América do Sul. Em 1966, ano em que Manaus completou 300 anos, a cidade contava com cerca de 110 mil habitantes; cinco anos depois, já contava com cerca de 600 mil habitantes. Nos tempos modernos apenas a cidade de Nova lorque sofreu explosão demográfica semelhante. E lá, como aqui, as condições de vida pagaram o preço. As cidades amazônicas, mesmo as capitais, são em geral verdadeiros lazaretos de migrantes, aglutinadoras de miséria e presa de administrações medíocres e corruptas.

Uma pesquisa honesta mostraria fácil o nosso atraso. Tenho repetido que Manaus havia se proletarizado. Por favor, não entendam isto como uma crítica elitista. Ao contrário, estou na verdade reconhecendo que há um processo histórico mais amplo acontecendo no Brasil, que de alguma forma esta se refletindo em nossa cidade.

O problema é que processos históricos, ao contrário do senso comum, nem sempre é a coisa mais bem distribuída do mundo. Vejamos o caso de Manaus. A cidade, como sabemos, cresceu em proporções geométricas, enquanto os serviços não avançaram um centímetro. Temos hoje, proporcionalmente, os mesmos índices de serviços. E quase nada funciona a contento. Os órgãos federais tratam os usuários como se estes fossem degredados na Ilha do Diabo. As agências bancárias, Deus do céu, são pavorosas e nunca se conseguem fazer nada sem se gastar pelos menos três horas de espera em filas quilo métricas. Qual será o pior atendimento? O Itaú? O Bradesco? O Banco do Brasil? A Caixa Econômica’ Federal? Cartas para á redação! Outro dia fiquei imaginando qual seria a reação do poeta Baudelaire, se por acaso voltasse do além e viesse para Manaus. Pensei em Charles

Baudelaire (1821-1867) por vários motivos. Primeiro porque em Manaus tem muito poeta. Acho que há mais poetas aqui por metro quadrado, que contistas mineiros nas Alterosas. Pensei que talvez ele se sentisse em casa com tantas mentes a invocar as musas nestas latitudes tropicais. Mas a verdadeira razão é que Baudelaire foi o inventor do conceito de modernidade, ou melhor, da impossibilidade de conceituar a modernidade, tornando-se o primeiro poeta a nos fazer entender que mudara a maneira de se ver a Civilização, que ser civilizado, a partir de então, era saber como viver e sobreviver num centro urbano. Ou seja, o poeta Baudelaire era Q arauto de nossa sociedade contemporânea, que se enunciava em seu tempo, e agora se instaura plenamente, com seu consumismo materialista, sua cultura de massas sem remorsos e a sua adoração pelo dinheiro.

Uma sociedade, no entanto, que se abria para ampliar a expectativa de vida, o respeito pelos direitos humanos, ao pluralismo cultural e a separação da religião do estado. Pois’ bem, o poeta Baudelaire adorava passear pelas ruas de Paris, de percorrer as amplas calçadas. Falei em amplas calçadas? Amplas calçadas? Eis o primeiro problema do poeta francês em Manaus, outrora a Paris dos trópicos. Esta cidade não tem calçadas. A cidade de Manaus cresceu sob a lógica das invasões, sem planejamento, empurrada pelo voluntarismo dos miseráveis e pelo populismo desenfreado. Pobre Baudelaire, acabaria atropelado por um carrinho de mão cheio de frutas e hortaliças.

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Márcio Souza
Dramaturgo e historiador nascido em Manaus. Ex-presidente da FUNARTE. Professor Adjunto da Universidade da Califórnia, em Berkeley (USA). Membro da Academia Amazonense de Letras. Presidente do Conselho de Cultura da Prefeitura de Manaus.

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