*Ana Cristina Rosa 

Chamar de racismo o racismo é questão de direito, de sentimento, de dignidade e, sobretudo, de humanidade com quem sempre foi usurpado pelo simples fato de ser negro. 

O Estatuto da Igualdade Racial completou dez anos há pouco mais de um mês. Passada uma década da promulgação da lei (12.288/2010) que reconheceu o racismo como um “fenômeno estrutural da sociedade brasileira”, seu objetivo segue sendo mais uma promessa do que uma realidade.

Sem dúvida a legislação representa um avanço. Mas infelizmente a sociedade está longe de “garantir à população negra a efetivação da igualdade de oportunidades, a defesa dos direitos étnicos individuais, coletivos e difusos e o combate à discriminação e às demais formas de intolerância étnica”. O dia a dia está aí para atestar. É passada a hora de enfrentar, de fato, o racismo.

Chega de ser criminalizado e abordado por ir ao shopping trocar o relógio comprado -com dinheiro do suado subemprego- para presentear o pai. Basta de ser insultado e xingado por levar a filha para tomar lanche em estabelecimento instalado em área nobre da capital federal.

Boicotes no esporte em protesto contra o racismo 

O Orlando Magic aderiu ao protesto, assim como as outras equipes que estão nos playoffs da NBA e decidiram não entrar em quadra na quarta (26); depois do movimento, a liga oficialmente declarou as partidas adiadas Kevin C. Cox – 26.ago.20/USA TODAY Sports

No mesmo dia, o movimento reverberou em outras ligas dos Estados Unidos e adiou jogos, por exemplo, da Major League Baseball Lachlan Cunningham – 26.ago.20/AFP

Chega de ser arrastada de dentro do próprio bar -localizado na periferia da maior cidade do país- e pisoteada no pescoço pela polícia por se atrever a questionar a abordagem agressiva por parte de quem deveria proteger. Chega de estar dentro de casa, acuado, e ainda assim ser alvejado e ter a vida ceifada em plena infância. Basta de andar nas ruas com medo de ser agredido ou morto por ser negro.

Chega de ser tratado como cidadão de segunda classe, descartável, definido e julgado “em razão de sua raça”. Chega de ouvir que é tudo mimimi. Não dá mais para tolerar essa sequência secular de ações torpes. Chega de compactuar com a vilania daqueles que ferem -física e emocionalmente- com a certeza de que irão se safar com uma desculpa esfarrapada.

Basta de impunidade. Chega de eufemismos. É tempo de atribuir nome ao crime. Chamar de racismo o racismo é questão de direito, de sentimento, de dignidade e, sobretudo, de humanidade com quem sempre foi usurpado pelo simples fato de ser… Negro.

Estátuas paulistas exaltam heróis e escondem racismo

Monumento às bandeiras, no Parque do Ibirapuera, tornou-se cartão postal de São Paulo. Esculpido por Victor Brecheret,foi inaugurado em 1953 e traz o ideal de progresso que tem o negro e o índio como trabalhadores braçais, atrás do homem branco, condutor Zanone Fraissat/Folhapress

Estátua do bandeirante Borba Gato, no bairro de Santo Amaro, em São Paulo Zanone Fraissat/Folhapress

*Jornalista especializada em comunicação pública. Artigo na Folha de São Paulo, de 27/08/2020.
Compartilhar

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário
Por favor informe seu nome aqui