Sempre achei que os muros e as filas contam a história viva da Cidade

Outro dia, passando na Constantino Nery, li no muro: “O perigo da pandemia são as pessoas com a umanidade baixa”. Fiquei pensando qual seria a do pichador. Estaria querendo dizer “humanidade baixa” ou “imunidade baixa”? Imaginei as duas possibilidades e percebi sentido em ambas, conforme a palavra que fosse utilizada, humanidade ou imunidade. Tanto a humanidade quanto a imunidade, quando em níveis baixos, representam deficiências do ser humano que favorecem a proliferação de vírus de qualquer natureza.

No Brasil, é fato público e notório que a humanidade baixa, expresso no negacionismo do Planalto, comprometeu a adequada condução do enfrentamento da pandemia, segundo os especialistas.

Em onze meses, já contabilizamos mais de 200 mil baixas, na guerra contra o vírus. A frieza da cifra numérica representa a soma das populações de Manacapuru e Itacoatiara. Imaginemos o desaparecimento dessas cidades, de uma hora para outra. Me arrepiei

O ex-ministro Mandetta advertiu, no início da pandemia, que chegaria uma hora em que o Brasil estaria contabilizando seus mortos, como se contasse as vítimas da queda de dois Boeing-747, diariamente. Hoje, vimos que a estimativa ministerial estava furada. São mais de 1.000 mortos, em 24 horas, por complicações do covid-19, segundo os dados do Brasil Oficial. Representam lotação de três Boeing. E não estão nessa contagem os mortos do Brasil Real, aqueles que não lograramo devido atendimento, faleceram em casa e ficaram de fora da estatística do corona.

Por outro lado, também é fato público e notório que imunidade baixa contribuiu para a disseminação da peste. É uma variante desconhecida. A maioria escapa – ainda bem – e precisa de cuidados especializados para debelar sequelas. Não há medicamentos, apenas medidas preventivas. A prevenção correta é a imunização, iniciada recentemente, com a disponibilidade das primeiras vacinas. Estamos esperançosos. Mas é preciso ter calma e consciência para não relaxar diante das ameaças do inimigo invisível que pode estar em qualquer lugar. A vacina está chegando e ninguém quer morrer na praia.

Falando agora em filas – outro expositor da história da cidade – a mídia escancarou para o Mundo a multidão enfileirada na frente da White Martins, em Manaus, para aquisição de balas de oxigênio.

A falta de oxigênio nos hospitais é mais um caso de humanidade baixa. A fila do oxigênio expõe a falta de seriedade no planejamento governamental para encarar a crise. E não se espere que sejam responsabilizados. A impunidade estrutural que atrasa o Estado Brasileiro é patologia derivada de baixa humanidade.

Entretanto, a humanidade baixa não é privilégio de círculos do poder. Há também humanidade baixa nas esferas da vida privada. Nesse patamar temos a falta de consciência de organizadores de festas clandestinas, permitindo aglomerações; a atitude do patrão que não oferece aos empregados os itens de prevenção necessários; o interesse inconfessável de grupos midiáticos que patrocinam protestos com o intuito de desmoralizar as autoridades sanitárias; o comportamento do povão, quando segue o negacionista em vez de acreditar na ciência. Em todos esses casos qualquer pessoa mediana percebe evidências de baixíssima humanidade.

Me deu vontade de pichar: “Vacina até com 1% de eficácia é melhor que nada.”

Compartilhar
Alírio Marques
*Amazonense de Itacoatiara. Advogado. Compositor premiado inúmeras vezes no FECANI e no CONPOFAI. Escritor plantonista.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário
Por favor informe seu nome aqui