Fabiano Maisonnave
*Fabiano Maisonnave

Mahnaz Alizadeh, 35, tentava chegar ao Canadá e foi acusada de integrar quadrilha de tráfico de pessoas.

Por mais de 15 anos, a ativista e cinegrafista iraniana Mahnaz Alizadeh militou em favor dos direitos da mulher. Nesse período, esteve presa, sofreu ameaças e, recentemente, viu a sua mentora, a advogada Nasrin Sotoudeh, ser condenada a 38 anos de prisão e 148 chicotadas. Traumatizada, decidiu emigrar para o Canadá, mas acabou em uma cela superlotada e controlada pela facção criminosa PCC, em Rio Branco, no Acre. ​

O futuro de Alizadeh, 35, tem mobilizado o mundo do cinema. O diretor norte-americano Jeff Kaufmann, que acaba de lançar um elogiado documentário sobre Sotoudeh, revelou que Alizadeh foi uma dos cinegrafistas que se arriscaram a filmar a advogada sem autorização do governo. Ele a incluiu nos créditos “para que a Justiça brasileira entenda que ela pode ser presa, torturada (e possivelmente morta) caso seja deportada ao país de origem”.

Ex-membro do júri do Festival de Cannes, a produtora iraniana Katayoon Shahabi é uma das testemunhas de defesa de Alizadeh no processo na 3ª Vara Federal da Seção Judiciária do Acre. Disse que as duas atuaram juntas em documentários sobre direitos humanos. Outros dois diretores iranianos enviaram cartas de apoio à cinegrafista, mas seus nomes não podem ser revelados devido à perseguição política no Irã.

Em 29 de agosto, Alizadeh e outros quatro iranianos foram presos em flagrante em Assis Brasil (AC), na fronteira com o Peru, ao tentarem entrar no país com passaportes falsos. Uma investigação da PF, baseada principalmente no conteúdo dos celulares apreendidos, apontou a cinegrafista e o iraniano-canadense Reza Sahami como membros de uma quadrilha internacional de tráfico de pessoas.

Sem falar português e com um inglês precário, Alizadeh passou cerca de 50 dias presa em Assis Brasil e depois em Rio Branco. Dividiu um colchão em uma cela quente e superlotada, sofreu com a água racionada e aprendeu a conviver com as disputas entre o PCC e o Comando Vermelho.

Para a cinegrafista, foi o pior momento desde que decidiu emigrar, em 2018, uma jornada que incluiu meses trancafiada em quartos no Equador e no Peru, durante a pandemia.

“Sentia que estava no fim do mundo, sem ninguém saber quem eu era”, conta Alizadeh à Folha, em conversa em inglês mediada por uma amiga iraniana, que viajou a Rio Branco para ajudá-la. Há algumas semanas, as duas moram em uma casa enquanto aguardam o desfecho do processo judicial.

No início de 2016, Sotoudeh me propôs ajudar na produção de um documentário de sua vida. Em meio a esse projeto, os agentes de segurança começaram a ameaçar Sotoudeh e a mim. Continuamos por um tempo, mas quando as ameaças contra mim se tornaram ainda mais sérias no fim de 2017, ela me aconselhou parar meu trabalho com ela para eu não arriscar ser presa. Quando Sotoudeh foi presa em junho de 2018, decidi deixar o país já que senti que não teria a força psicológica e emocional para enfrentar outra detenção e encarceramento no Irã. Também estava numa relação lésbica à época, o que é banido por lei, punido com açoitamento e pode levar à pena de morte. 

A militância de Alizadeh se mistura com a história recente iraniana. Em 2005, ela participou da campanha feminista Um Milhão de Assinaturas, iniciativa de mulheres iranianas para pressionar o regime teocrático pelo fim de leis discriminatórias.

Foi nessa campanha que a estudante de cinema e arte conheceu Nasrin Sotoudeh. Nos anos seguintes, a advogada se tornaria o maior expoente da luta pelos direitos humanos no Irã -e um dos principais alvos do regime.

Em 2009, Alizadeh participou das manifestações da Revolução Verde, contra contra suposta fraude na reeleição do então presidente Mahmoud Ahmadinejad. A cor verde foi usada durante a campanha do candidato moderado Mir Hussein Mousavi, que prometia mais abertura para mulheres.

Por causa da sua participação, passou 21 dias em uma cadeia para presos políticos. “Eu esperava ser presa na rua, durante os protestos. Em vez disso, às 2h, homens invadiram a casa onde eu morava com os meus pais. Tinha 24 anos e estava no último ano da faculdade.”

Alizadeh foi condenada a dois anos por conspiração contra a segurança nacional, mas a sentença foi suspensa mediante o pagamento de uma multa. Após isso, conta, as oportunidades de emprego no setor público se fecharam, e ela passou a fazer principalmente trabalhos temporários.

No início de 2016, Sotoudeh, que já havia ficado presa durante três anos, pediu que a cinegrafista participasse da gravação de um documentário sobre a sua vida. Ela, no entanto, não sabia que o material seria editado pelo diretor norte-americano Jeff Kaufmann.

“A filmagem do seu trabalho tinha dois propósitos: iria para um diretor fora do Irã, cujos detalhes ela preferia que eu não soubesse, e eu mesma faria um filme sobre a sua vida. No meio desse projeto, agentes de segurança começaram a ameaçar Sotoudeh e eu.”

No final de 2017, essas ameaças levaram à paralisação das filmagens. Meses mais tarde, em junho de 2018, Sotoudeh foi presa. À época, Alizadeh vivia uma relação com outra mulher, o que no Irã é considerado um ato passível de pena de morte.

“Decidi então deixar o país. Senti que não tinha força emocional e psicológica para enfrentar outra prisão”, diz.

Decidi deixar o Irã já que as ameaças dos agentes de Estado e a pressão de uma relação de amor secreta criaram um estresse insuportável. Devo acrescentar aqui que, depois da minha prisão em 2009, eu sofri de ansiedade e depressão por muitos anos. Finalmente decidi ir atrás de tratamento e comecei a ir a um psiquiatra em 2014. Continuei meu tratamento com remédio e terapia até minha decisão de sair do Irã. Tive que parar com tudo quando deixei o país. 

A cinegrafista escolheu o Canadá. Em outubro de 2018, conheceu o iraniano-canadense Reza Sahami, 56, apresentado como sócio de uma agência de viagens.

Após uma tentativa frustrada de conseguir um visto de turista no consulado do Canadá na Turquia —o país não tem representação diplomática no Irã-, Sahami ofereceu uma nova rota, via Equador, país que não exige visto para iranianos.

O plano era simples e levaria no máximo dois meses: a cinegrafista conseguiria o visto de turista e dali seguiria para o Canadá, onde pediria refúgio na chegada. Pagaria US$ 5.000 (R$ 27 mil) de entrada e US$ 7.000 (R$ 38 mil) ao final da viagem.

Alizadeh chegou a Quito em 8 de janeiro, quando teve a primeira surpresa desagradável. Sahami passou a exigir o depósito de US$ 12 mil de uma vez. Para pagar, a cinegrafista teve de recorrer a familiares e amigos.

Outra mudança nos planos foi a forma de entrada no Canadá, sempre de acordo com a cineasta. Em vez de um visto de turista, Sahami lhe deu um passaporte falso canadense. Assustada, ela se negou a embarcar. Alguns dos iranianos do grupo se arriscaram: uns foram presos, outros passaram.

Após semanas de impasse, Sahami levou o grupo de forma clandestina para o Peru, de onde o embarque seria mais fácil do que no Equador. Era 22 de março, o início da epidemia da Covid-19. Os voos internacionais foram suspensos e só seriam retomados em outubro. O país entrou em lockdown.

Alizadeh havia começado uma tumultuada relação com Sahami. Conversas de celular mostram que, enquanto trocava mensagens amorosas com o coiote, a cinegrafista o chamava de “traficante” e o criticava para seus amigos.

Foi realmente uma tortura emocional, me sentia como uma escrava sexual para ele em vez de estar em uma relação. Entretanto, como não queria aceitar isso, e a dor que resultava, continuei me convencendo que eu realmente tinha me apaixonado por ele. Sempre disse a ele que ele era na verdade meu carcereiro, por quem acabei me apaixonando por alguma razão. Vivenciei um estupro quando eu tinha 16 anos e outros tantos abusos sexuais porque eu tinha que manter meu estupro um segredo devido a nossa cultura e a visão da minha família sobre isso. Ser estuprada de novo se tornou uma fobia para mim desde então. Quando ele tentava me convencer a transar com ele, eu não tinha certeza como iria acabar se eu o rejeitasse. 

Essas mensagens seriam usadas mais tarde pela PF como indícios de que Alizadeh trabalhava com Sahami, e não era apenas sua cliente. O Ministério Público Federal (MPF) acabou acusando os dois pelo crime de tráfico de pessoas. Procurada, a polícia disse que não se pronunciaria sobre o caso.

Em agosto, Sahami convenceu o grupo de iranianos a cruzar ao Brasil por terra, chegar a Rio Branco, embarcar para São Paulo e dali para o Canadá. Foi quando houve a prisão, após a PF receber uma denúncia anônima sobre a tentativa.

Atualmente, só Alizadeh está no Brasil —ela ganhou a liberdade após pagamento de R$ 2.000 de fiança. Sahami também foi solto e, no final de dezembro, embarcou para Teerã. A defesa da iraniana está a cargo da Defensoria Pública da União.

O processo da cinegrafista iraniana que teme ser deportada do Brasil

Perícia da PF do passaporte canadense falso da cinegrafista e ativista iraniana Mahnaz Alizadeh Reprodução Justiça Federal

Mensagens de WhatsApp em que Alizadeh pede ajuda enquanto parada em Lima, em lockdown por causa da Covid-19, em tradução feita pela Polícia Federal com ajuda do Google Tradutor Reprodução Justiça Federal

Mensagens entre Alizadeh e o pastor americano John Lennon, que ela conheceu em Quito, no Equador, com tradução feita pela Polícia Federal. Reprodução Justiça Federal

Foto do coiote Reza Sahami, fornecida pelo Departamento de Segurança Interna dos EUA Reprodução

Cartão da empresa de Reza Sahami, com ‘immigration’ (imigração) grafado errado Reprodução Justiça Federal

Foto 3×4 de Alizadeh apreendida pela PF Reprodução Justiça Federal

Carimbos de datas encontradas pela PF em mala de Alizadeh que, segundo ela, estava sendo usada por Sahami Justiça Federal

Conversa entre Alizadeh e Sahami sobre a possibilidade de ir ao Brasil Reprodução Justiça Federal

Em Rio Branco, ela tem contado principalmente com uma rede de solidariedade de mulheres criada por Solene Oliveira da Costa, ouvidora da Defensoria Pública do Acre, que a conheceu na prisão, quando Alizadeh enfrentava uma crise depressiva. A cinegrafista a chama de “anjo”.

“Ver aquela mulher algemada, sem falar português e chorando copiosamente me fez chorar também”, lembra Costa. “Eu não entendia nada do que ela falava, mas eu sentia o corpo dela tentando entender o que estava acontecendo.”

*Jornalista. Matéria na Folha de São Paulo, Caderno Ilustrada, de 19/02/2021.
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