Em 1963, quando publicou os contos de “Alameda”, Astrid Cabral foi saudada pela crítica brasileira como uma grande promessa literária. Nascida em Manaus, em 1936, foi fundadora do Clube da Madrugada, formando-se em letras neolatinas pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Em 1962 vai lecionar na recém criada Universidade de Brasília, de onde foi demitida pela Ditadura Militar.

Funcionária de carreira do Ministério das Relações Exteriores exerceu funções em Beirute e Chicago. Astrid Cabral ficou em silêncio por 16 anos.

Em 1979 publicou “Ponto de Cruz” com grande recepção crítica. A partir de então, vem construindo uma sólida obra poética, onde uma lírica precisa e versos cuidadosamente dosados investigam ora a interioridade, ora as imprevisibilidades do mundo, ora os pequenos sustos de existir. A inexorabilidade da morte e a celeridade da vida também estão presentes.

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“Pesado é o coração do escombro de teus sonhos e dos mortos que em teus ombros repousam imortais.

O amor de ontem

É cinza feita chumbo.

Cicatrizes e rugas

Lavram a tua carência

De aflições temperada

E a vazante das veias

Irriga-se

De subterrâneas lágrimas antigas”.

A obra de Astrid, sem ser feminina ou feminista, carrega uma consciência de mulher, uma dolorosa certeza feminina, uma ironia capaz de enxergar através do denso nevoeiro das tragédias menores, dos gestos que se repetem no cotidiano. “Dentro de mim há cachorros que uivam em horas de raiva contra as jaulas da cortesia”.

No panorama da moderna poesia brasileira, Astrid ocupa um nicho especial e raro, aquele da antiga tradição da poesia meditativa, filosófica, sem invencionices, enquanto cultiva valores contemporâneos, livre do velho e senil regionalismo que parece querer sempre agrilhoar os artistas da Amazônia.

Agora, Astrid lança mais uma obra, “Infância em Franjas”, uma recriação poética poderosa de sua infância em Manaus vista com os olhos de uma mulher madura que experimentou a vida com intensidade, e que com intensidade revisita o seu passado vivido numa cidade que não existe mais, levada pelo “progresso”, engolida nos desvãos da errância histórica. Nesta obra encantadora, ao mesmo tempo forte e crítica, Astrid apresenta uma obra prima, o poema “Meu Pai em Mim”.

“(Os mortos disfarçam-se no meio das folhagens. Invisíveis mas passíveis de serem descobertos)”

Onde estaria a figura Evaporada do pai? O livro tem uma edição de apenas 300 exemplares, nasce raro até no tesouro que é.

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Márcio Souza
Dramaturgo e historiador nascido em Manaus. Ex-presidente da FUNARTE. Professor Adjunto da Universidade da Califórnia, em Berkeley (USA). Membro da Academia Amazonense de Letras. Presidente do Conselho de Cultura da Prefeitura de Manaus.

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