A Associação Comercial do Amazonas teve participação efetiva nessa retomada momentânea da economia. Sob a batuta de Cosme Ferreira, um cearense que veio para o Amazonas com 2 anos de idade, e aqui ficou até morrer e, através da ACA, teve uma atuação que deixou grandes e positivas marcas no Amazonas. Uma delas foi apresentar ao Congresso Nacional um projeto que criava a Estação Experimental do Guaraná, em Maués.

Os 150 anos da Associação Comercial do Amazonas merecem aplausos e reflexões de primeira grandeza pois se trata da primeira entidade do setor produtivo de nossa História. E a mais combativa. São empreendedores que cumpriram o script da obstinação num contexto de dificuldades e avanços na conquista da cidadania empresarial. A conquista de um lugar ao sol para nossa economia se deve muito à luz pioneira da Associação Comercial do Amazonas. Uma epopeia formada por remanescentes do período colonial e início do Império onde enfrentamos um eterno conflito entre o Grão-Pará e Rio Negro, o nome da Amazônia na geografia política de então, e o Brasil latifundiário e rigorosamente submisso a sua matriz colonial, a despeito da Independência do país em 1822. Na região vivíamos o clima liberal da Revolução Francesa, enquanto no Rio de Janeiro, a Coroa dos Alcântara insistia em gerir o país como uma gigantesca fazenda. Por isso, a convivência não poderia jamais ser harmoniosa. Até depois da Guerra da Cabanagem, onde o latifúndio do império brasileiro submeteu ao genocídio 60 mil amazônidas, a maioria absoluta do sexo masculino. Até hoje as mulheres permanecem em maioria na região, a Amazônia sem rosto e o Brasil sem projeto para sua porção maior.

Em 1850, ainda sob o signo do conflito sanguinolento, Amazonas e Pará separaram as farinhas. É declarada a Instalação da Província em Manaus e o Amazonas, então com 17 mil habitantes, passa a ser “independente”. Duas décadas, 1881, depois, já com o aporte de recursos externos, quase todo de origem inglesa, já está em vigor o Ciclo da Borracha propriamente dito, simultaneamente à implantação da Associação Comercial do Amazonas, “para defesa do interesse mercantil”, como rezam seus estatutos. Os primeiros gestores da ACA eram também políticos ou militares e cumpriam múltiplas tarefas na construção de nossa História. Até o advento da FIEAM, nos anos 60, a ACA, entidade mãe das demais, funcionava em multifunção. Promoção do desenvolvimento, gestão do comércio e agricultura, fomento, entre outras tantas intervenções, entre as quais a de pacificadora na guerra entre seringueiros brasileiros e peruanos no início do Século XX.

A antiga sede da Associação Comercial do Amazonas

Em sua jornada, a entidade participou do apogeu e declínio da economia da borracha, padeceu os movimentos de insurgência nos três momentos dos mandatos do governador negro e maranhense, Eduardo Gonçalves Ribeiro, a partir do qual, de 1892 a 1896, o Amazonas viveu os melhores momentos de fausto gemífero comparativamente aos seus antecessores e sucessores. Constantino e Silvério Nery, integrantes da elite local, tentaram retirá-lo a toque de canhão e baioneta, em vão, mais de uma vez. Oficial do exército, tinha em Floriano Peixoto, um artífice da República, seu padrinho e admirador. Os gestores da ACA ficaram a seu lado dele nestes momentos de perturbação da ordem. Depois disso, já no Século XX, com a quebra do Ciclo da Borracha, seguiram-se duas grandes guerras de extensão mundial. Penúria e muita obscuridade no horizonte de 4 décadas. Mesmo assim, o Amazonas cumpriu com afinco seu papel na construção da siderurgia no Brasil.

Amazônia teve, a propósito, sua vantagem com o segundo conflito, pois o acesso aos seringais da Malásia e adjacências, a partir de 1941, fechado pelas forças japonesas, aliançadas com o nazifascismo de Hitler e Mussolini, impedia a compra de borracha para os veículos de guerra, sobretudos os trens de pouso dos aviões. O acordo de Washington, mantido em segredo por muitos anos, trocou a indústria siderúrgica brasileira por preços vis de nossa borracha para cuja produção vinham ondas sucessivas de nordestinos. Mais uma vez Amazônia diz presente nos momentos difíceis da memória nacional. À época, a Associação mantinha representação em 29 cidades do interior amazônico, para dar ideia de seu papel preponderante em nossa história econômica. A Casa mantinha um serviço de assistência à agricultura. O governo americano exigiu do Brasil a revitalização dos seringais e 500 mil nordestinos, notadamente os cearenses, foram recrutados para a guerra do II Ciclo da Borracha. Finda a guerra, fim dos investimentos e o Amazonas volta à estagnação econômica.

A Associação Comercial do Amazonas teve participação efetiva nessa retomada momentânea da economia. Sob a batuta de Cosme Ferreira, um cearense que veio para o Amazonas com 2 anos de idade, e aqui ficou até morrer e, através da ACA, teve uma atuação que deixou grandes e positivas marcas no Amazonas. Uma delas foi apresentar ao Congresso Nacional um projeto que criava a Estação Experimental do Guaraná, em Maués. Cosme Ferreira, também, foi tutor na arte de empreender dos pioneiros Petronio Augusto Pinheiro e Antônio Andrade Simões, que foram estagiários na ACA e Companhia Nacional de Borracha. Pelo Decreto 12.312, de 27 de abril de 1943, o Governo da República concedeu a prerrogativa de órgão consultor da União para a ACA que, mesmo sendo do setor privado, passou a ajudar o governo a se recompor com a saída dos americanos.

O bonde elétrico em Manaus, em 1899.

Em 1948, foi realizada a Segunda Conferência Nacional da Borracha, por iniciativa de Cosme Ferreira, gestor da ACA. Mais tarde, na formação de seus gestores, vamos encontrar Mário Guerreiro, fundador do CIEAM, Isaac Benayon Sabbá e Moysés Israel, que também foram artífices de grandes empreendimentos regionais, a Brasil Juta, a Refinaria de Manaus e a Cia. de Eletricidade de Manaus, que encerram um longo período de escuridão. Com dez anos de atraso, JK, Presidente da República, concordou com a implantação definitiva do Plano de Valorização da Amazônia, inspirada por Getúlio Vargas. Assim era criada a SUDAM e, a partir de 1967, a Zona Franca de Manaus, sempre com a presença combativa da ACA. Vida longa, venerável senhora, gratidão perene. Sua luta é também nossa luta e todo dia recomeça em favor do Amazonas.

(Artigo em parceria com Belmiro Vianez e Wilson Perico)

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Alfredo Lopes
*Escritor amazonense, com 11 títulos sobre a Amazônia, e mais de 2 mil ensaios. Formado em Filosofia com pós-graduação em Administração e Psicologia da Educação. Consultor eventual do BID, Grupo Simões, do CIEAM e diretor da FIEAM.

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