Na Amazônia até meados do século XIX a língua portuguesa não era hegemônica. Quase todo mundo falava um idioma de sua etnia materna e o nheengatu, a boa língua. Em muitas câmaras de vereadores o trabalho de secretariar as sessões e redigir as atas era confiado aos índios alfabetizados nas missões religiosas, já que os senhores vereadores eram analfabetos.

O poeta Gonçalves Dia, enviado ao norte, em 1853, pelo Império do Brasil, como membro da Comissão Científica de Exploração, visitou diversas escolas e incluiu em seu relatório de viagem um capítulo sobre a educação na província do Amazonas. Ali ele registrou a pouca frequência às aulas e o fenômeno da rejeição da língua portuguesa por uma população de fala nheengatu usada em casa e nas ruas e em toda a parte. No entanto, naquele mesmo ano de 1853 nasceu em Óbidos o romancista Inglês de Souza, e em 1857, na mesma cidade, José Veríssimo, crítico e escritor. O romancista refletiu através de uma aguda visão crítica a sua vivência de menino ribeirinho, mas a sua literatura estava sintonizada com o que havia de mais avançado em seu tempo, o naturalismo, mas um naturalismo com certo mormaço, uma certa sensualidade equatorial, um sarcasmo discreto com o curare, enfim, um naturalismo liberto da frieza cientificista de seu congênere europeu. Inglês de Souza prenunciou o realismo crítico nordestino, que daria ao Brasil autores como Jorge Amado, Graciliano Ramos, José Uns do Rego e Raquel de Queiroz. Não é por nada que seu DNA estava no corpo de Oswald de Andrade. José Veríssimo, que foi uma das maiores culturas de sua época, produziu uma obra vasta repleta de observações nada impressionistas, absolutamente despidas de nacionalismos, abordando problemas que se tornariam agudos após a sua morte. Seriam esses autores regionalistas típicos, meros representantes do atraso?

Como enquadrar Haroldo Maranhão nesta camisa de força? E a poesia de Max Martins?

A oposição regional e universal não estaria sendo vista do avesso? A experiência da modernidade já foi feita na região. Mas os jornalistas, os tecnocratas e o governo central foram incapazes de favorecer a aceitação de experiências locais no processo de integração econômica. Isso aparece claramente tanto nas páginas da revista VEJA ao tentar enjaular Milton Hatoum, como nos projetos de pecuária com incentivos fiscais: a chegada do boi só foi uma tal catástrofe para a Amazônia porque o modelo agropecuário foi imposto a um estado, o Acre, onde não havia tradição de criação de gado, e que por causa disso perdeu sua cobertura florestal tradicional. Por que não usaram em vez disso as zonas tradicionais de pasto, como as existentes no baixo Amazonas, na região de Óbidos, Alenquer e Oriximiná, ou em Roraima, cuja superfície é superior à de todos os pastos europeus reunidos? Esse é exatamente um caso em que a integrarão econômica foi feita em detrimento da história e da tradição locais.

E, no entanto, a arrogância não ficou apenas com os tecnocratas do governo militar, um contingente imenso de salvadores da Amazônia estabeleceu suas agendas baseadas em conclusões apressadas. Mas salvar a Amazônia não significa reconhecer a existência de uma massa intelectual crítica aqui. Como vimos, a Amazônia é uma invenção do Brasil. Os moradores da Amazônia sempre se espantam ao ver que, talvez para melhor vendê-la e explorá-la, ainda apresentam sua região como habitada essencialmente por sociedades primitivas, enquanto existem há muito tempo cidades, uma verdadeira vida urbana, e uma população erudita que teceu laços estreitos com o mundo desde o século XIX. Aliás, nisso residem as maiores possibilidades de resistência e de sobrevivência da nossa Amazônia, ao se expressar nas eleições e exercendo pressão sobre a cena política brasileira.

Se isso é ser primitivo…

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Márcio Souza
Dramaturgo e historiador nascido em Manaus. Ex-presidente da FUNARTE. Professor Adjunto da Universidade da Califórnia, em Berkeley (USA). Membro da Academia Amazonense de Letras. Presidente do Conselho de Cultura da Prefeitura de Manaus.

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