*Contardo Calligaris

Aprovação ou desaprovação morais, que são de foro íntimo, tornaram-se questões de praça pública.

Por solicitação de mais de um leitor, assisti a um vídeo que circula pelas redes sociais, geralmente acompanhado de comentários indignados. Veja, por exemplo: goo.gl/6BCrVU.

O vídeo nos diz (mas ele poderia ser até uma provocação encenada) que ele representa o aniversário de um menino de 12 anos, o qual celebra, na frente do bolo, junto com seu namorado, de 14. Os dois se beijam (de leve) na boca, e os convidados, em vez de “é pique”, cantam “é pica”. No fundo, o tema da festa é Pabllo Vittar, cantor e drag queen.

Mostrei o vídeo a amigos e conhecidos, de ambos os gêneros. Alguns ficaram boquiabertos, não diante do vídeo, mas das reações: nem sequer conseguiam entender o que podia motivar o “escândalo”. Pela idade dos dois? No Brasil, 14 é a idade do consenso sexual, em que qualquer um escolhe com quem transar. Todo mundo parece convir que, aos 12, trocou beijos (e, às vezes, mais) com colegas e primos. Então? Será que é por causa da homossexualidade?

Do outro lado do espectro, há os que se sentiram ultrajados e acharam que o vídeo seria razão suficiente para retirar essas “crianças” da suposta “guarda” de seus pais e confiá-las aos cuidados do Estado.

No meio, há uma maioria que é vagamente perturbada pelo vídeo, sem entender por quê.

A mesma cena, caso se tratasse de uma menina e um menino, todos achariam “uma gracinha”. A ideia de que haja desejo sexual numa criança de 12 anos é difícil: nossa idealização da infância nos proíbe de pensar nisso. E, se vejo um casal de pré-adolescentes héteros namoricando, não penso em sexo, só constato que eles nos imitam –”que fofos”. Se forem dois meninos, é sexo mesmo –e é isso que não aguento.

Ou seja, a homossexualidade se torna intolerável não tanto em si, por ser reprimida na própria pessoa que se indigna, mas, no caso, por escancarar a existência da sexualidade dita infantil. Também me incomodei com o vídeo e seus comentários. Não sabia direito por que, até receber o e-mail de um leitor, Thiago Meira Braga, que agradeço.

Com a ajuda de Thiago, explico então meu incômodo. A modernidade é a era em que nossa existência social depende do olhar dos outros: somos quem conseguimos fazer que os outros acreditem que somos. O berço não nos define, o apreço ou o desprezo dos outros, sim.

Paradoxalmente (e talvez em compensação), na modernidade, também inventamos uma intimidade protegida, um espaço de vida privada, só nosso, onde possamos pensar por nossa conta, sem o olhar dos outros. Uma bonita história da conquista moderna de um espaço para a vida privada (uma espécie de intimidade concreta) está em “A História dos Quartos”, de Michelle Perrot (Paz e Terra, 2011).

É quase trivial recear que a intimidade que conquistamos possa se perder hoje com o novo espaço de socialização que são as redes sociais.

Não sou catastrofista e, até aqui, tendia a pensar que as redes sociais são uma extensão da subjetividade moderna. Sem elas ou com elas, de qualquer forma, a imagem do indivíduo moderno é a que aparece na retina dos outros, apreciada (ou não) pelos “likes” da vida.

Só que, descubro agora essa banalidade, as redes sociais estão invadindo o último e crucial baluarte da esfera da vida privada, que é o foro íntimo, o lugar interior no qual julgamos questões morais com a nossa cabeça, embora nossa imagem seja sempre pública.

Como acontece com meu leitor, o mal-estar que o vídeo produz em mim não está no fato de um garoto de 12 anos beijar um de 14. O escândalo é que se trate de um vídeo que viralizou: a aprovação ou desaprovação morais, que são questões delicadas de foro íntimo, tornaram-se assim questões de praça pública. Retrocedemos: do foro íntimo moderno ao fórum dos romanos.

Thiago me escreve: “Uma questão moral que deveria ser tratada em privado (pelos garotos com seus pais e, no máximo, seus psicólogos) tornou-se uma questão de mexerico e apedrejamento universal”.

O foro íntimo é o lugar em que cada indivíduo moderno deve fazer suas escolhas na privacidade do seu quarto: a dificuldade dessa solidão é, aliás, a condição absoluta da moralidade. Sem escolha solitária, não há moralidade –assim como não há moralidade sem vida interior.

Esse extraordinário critério moral inventado na modernidade está sendo substituído por linchamentos ou aclamações em praça pública –na praça das redes sociais.

*Escritor e psicanalista. Artigo na Folha de São Paulo, Caderno Ilustrada C10, de 07/12/2017.
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