*Claudia Costin

Estudo do Insper mostra impactos na educação, e queda do veto de Bolsonaro mantém chance de estudantes e professores de baixa renda terem conectividade.

Dois fatos, aparentemente sem conexão, marcaram a cena educacional desta semana. O primeiro foi a divulgação de um estudo do Insper, analisando o impacto que a pandemia teve no aprendizado dos alunos em 2020. O segundo foi a derrubada do veto do presidente em um projeto de lei que assegurava, a estudantes de baixa renda e a professores, a necessária conectividade para aprender no contexto em que vivemos.

Aulas à distância durante a pandemia expõem desigualdades na educação

Sem lápis, canetas ou caderno para desenhar, Raphaela dos Santos, 4, contou que a brincadeira de que mais gosta são os jogos no celular Marlene Bergamo/Folhapress

Débora Cibele dos Santos, 13, tentou por dias acessar o aplicativo com as aulas a distância da Secretaria Estadual de Educação, mas teve problemas de conexão e com a senha Marlene Bergamo/Folhapress

O estudo do Insper, de certa maneira, evidencia o que muitos já intuíam: por mais que um esforço grande tenha sido feito por muitos estados para assegurar alguma aprendizagem em casa pelos jovens, as perdas são gigantescas e afetarão suas chances de construir um futuro que lhes faça sentido. A perda para o conjunto de estudantes do ensino fundamental e médio já supera R$ 700 bilhões, podendo chegar a 1,5 trilhão caso não ocorra um retorno rápido ao ensino híbrido em 2021, de acordo com o estudo.

Escolas estaduais de SP recebem alunos para merenda e acolhimento

Chão marcado para os alunos manterem o distanciamento social Rivaldo Gomes/Folhapress

Alunos distantes durante a merenda na escola Livio Xavier, na zona leste de SP Rivaldo Gomes/Folhapress

Evidentemente, as aulas em casa não foram só impactadas pela falta da presencialidade, do contato direto com o professor e pela inexperiência das equipes escolares com ensino remoto. A falta de conectividade de parte importante dos alunos levou à adoção de estratégias assíncronas, com a utilização de programas de televisão e rádio, combinados com guias de estudo a serem preenchidos. Mas isso trouxe, para os estudantes envolvidos, maior dificuldade em compreender conceitos novos, dada a impossibilidade de tirar dúvidas com seus professores.

EFEITOS DA COVID-19 NA EDUCAÇÃO

Adriano Sousa

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Priscila Cruz

Ministério da Educação só propôs ações minúsculas na crise da Covid-19

Rossieli Soares

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Alexandre Schneider

Coronavírus terá efeito colateral de ampliar desigualdade na educação

Neste sentido, a garantia de conectividade a todos os alunos deveria ser fundamental. Infelizmente, não foi assim que o governo federal, aliás durante boa parte do tempo da pandemia completamente ausente na construção de uma resposta educacional à Covid, havia percebido a questão.

O veto presidencial ao PL 3477 refletiu esta incompreensão da urgência envolvida e foi alvissareira a sua derrubada por ampla maioria, nas duas casas. Mesmo sabendo que as aulas presenciais de algumas redes já tenham sido retomadas, elas vêm, por questões de segurança sanitária, acontecendo em regime de revezamento, com a aprendizagem em casa ainda mantida.

Escolas redescobrem a teleaula

Delia Huamani, 10, assiste a aula remota pela TV em sua casa em Pedregal, no Peru Marco Garro – 13.ago.20/The New York Times

Delia Huamani, 10, em seu quarto após assistir às aulas pela TV, em Pedregal, no Peru Marco Garro – 13.ago.20/The New York Times

Assim, o uso de plataformas digitais deve continuar ocorrendo seja como principal forma de aprendizagem síncrona seja como elemento de apoio educacional, num processo de ensino híbrido” . É a melhor forma de aprender mais? Certamente que não, nada substitui o contato presencial com o professor e os colegas; mas, a partir de agora, a conectividade pode ser uma forte aliada para garantir aprendizado de qualidade, especialmente se tivermos um bom uso pedagógico das tecnologias digitais.

*Professora. Artigo na Folha de São Paulo, Caderno Opinião, de 03/06/2021.
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