Há controvérsia sobre o primeiro criador de bovinos na Ilha do Careiro, corruptela de Carero, a antiga Uaquiri. Tudo leva a crer, entretanto, tratar-se de Romão José Negrão que, em 1841, requerera ao Governo da Província área medindo um quarto de légua, contada águas abaixo, a partir da Boca do Lago do Arroz, que fica fronteira à Boca do Paraná do Cambixe; ou de Alexandrino Taveira de Pau Brasil a quem o governo da Província concedera a carta datada de 7 de junho de 1847, para obtenção da qual justificara seu petitório dizendo necessitar “de meia légua de terras no paraná-miry denominado “Careiro”, fronteiro à fazenda de gado que o mesmo já ali tem…”

Ao que parece a fazenda, a qual Pau Brasil se referia no requerimento, situava-se no Catalão, conforme me informou, pessoalmente, o professor Mário Ypiranga Monteiro dizendo, inclusive que o cidadão citado era um seu ancestral.

Esclareço que a informação me foi passada, na oportunidade em que o mestre Mário Ypiranga, meu professor, confrade na Academia Amazonense de Letras, no IGHA e na Imprensa, além de amigo dileto, de saudosa memória, me sugeriu escrevesse livro sobre os “capineiros”, como realmente aconteceu, no ano 2000, com a publicação de “O Capineiro” que, muito justamente lh’o dediquei.

Mas, dos empreendimentos de Romão José Negrão e de Pau Brasil, ao que se saiba nada restou, salvo, talvez, notícias passadas aos colonizadores nordestinos agrupados na “Colônia 13 de Maio”, no Cambixe.

O certo é que a idéia da formação da bacia leiteira, para suprir as necessidades da população de Manaus vicejou e floresceu, transformando-se na realidade de hoje, contra todas as dificuldades decorrentes de ser a ilha área alagadiça subordinada ao regime das enchentes anuais.

Muito antes que os criadores de gado bovino da várzea do Careiro descobrissem a importância dos retiros na terra firme, para a salvação dos rebanhos durante as enchentes, predominavam em todo aquele núcleo pecuário varzeano, quando vinham as cheias, as utilíssimas e famosas marombas. Eram construções rústicas sobre palafitas, normalmente cobertas com folhas de zinco, vezes com palhas brancas de palmeira nativa, o piso de paxiúba, piranheira, itaúba ou louro-chumbo. De ambos os lados e por fora das caiçaras – cercaduras em ripões com espaço para dar passagem às cabeças dos animais famintos – e em toda a extensão do abrigo vacum provisório, duas imensas cocheiras estendiam-se amplas, prontas para receber a ração diária de forragem verde, colhida nos canaranais às margens dos lagos distantes, e conduzida pelos capineiros em canoas especiais.

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AS PRIMEIRAS MAROMBAS

Além desse tipo de maromba, mais comum e mais tradicional, edificada desde o início do século XX, na ilha do Careiro e adjacências, pelos primeiros colonizadores e introdutores de bovinos na várzea cairense, outros dois tipos eram usados conforme as condições econômicas daqueles sacrificados criadores.

Uma era flutuante, erguida sobre toras de açacu, madeira com alto poder de flutuação, soalhada com tábuas de copiúva, andiroba ou louro-gamela, tendo por cobertura palha ou lona, ou seja, uma tapera de bubuia, rústica, mas resistente a duas ou mais enchentes. Era o modelo possível à disponibilidade financeira dos pequenos criadores, donos de poucas cabeças de gado.

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MAROMBA FLUTUANTE 

A outra, construída a partir de alicerces de pedras em bloco ou dormentes de piranheira, tinha o caixão preenchido com barro, areia e cascalho, sendo que o aterro, não raro, era revestido de solo-cimento e as cocheiras trabalhadas em alvenaria de tijolos. Era o abrigo preferido dos criadores mais fortes, proprietários de médias manadas.

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MAROMBA EM NÍVEL ARTIFICIAL

Seja como for, pequenas ou grandes, flutuantes ou plantadas na terra antes da alagação, todas elas só eram utilizadas nos meses de pico das cheias, dois ou três no máximo. Mas o corte da capim aquático – a canarana – prolongava-se por quatro a seis meses, independente de o gado ter sido ou não levado às marombas.

Estabulado por assim dizer o gado, ficavam os proprietários dele na contingência de alimentá-lo com forragem verde à qual adicionavam farelo de trigo, cevadinha e sal grosso (isto mais recentemente).

Diariamente, uma ou duas vezes, conforme a disponibilidade de alimento, os cochos recebiam a ração, pena de o gado enfraquecer e ao descer do abrigo para os campos ainda encharcados ou transformados em lama, tornar-se presa fácil das doenças próprias da ocasião, registradas sempre na descida das águas. Tributo à fraqueza dos animais e a ausência de cuidados com os mesmos.

A rudeza do trabalho estressante do corte de capim aquático, a dificuldade da colheita da canarana, nos lagos do centro da ilha do Careiro, inclusive no lago do Rei, antigo Pesqueiro Real, devido às queimadas indiscriminadas e criminosas da gramínea seca feito um colchão estendido, ao longo das terras baixas ressequidas em consequência do sol e da vazante, foram a pouco e pouco diminuindo as reservas imensas do capim flutuante, o que obrigou os criadores a irem-na buscar nos beiradões do Catalão, lago do Janauari e ilhas da Marchantaria, Muratu, Baixio, Jacurutu, Maria Antônia e Paciência, no rio Solimões.

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CANOAS COLETORAS DE CANARANA

Quando os canaranais demonstraram exaustão, quer nos lagos como nas ilhas, os criadores, em face da escassez do produto nativo, indispensável aos seus animais, chegaram à conclusão de que teriam de encontrar um sucedâneo para a gramínea e uma nova forma para abrigar os rebanhos durante as enchentes, porque sem o recurso da canarana o gado morreria à fome, nas marombas. E encontraram-no nas faixas de terra firme próximas ao Careiro–Araçá, BR-319, Janauacá, Puraquequara e rio Preto da Eva.

Nas citadas localidades adquiriram áreas propícias à finalidade. E em espaço reduzido de tempo, os antigos roçados de mandioca e cana, cará (branco e roxo) e feijão, batata e milho, foram transformados em campos de pastagem, pasto artificial adaptado, campos que, na atualidade recebem o gado egresso da várzea alagadiça, quando a enchente vem.

O transporte do gado da várzea alagada para a terra firme é penoso e traumatizante, não raro resultando em baixas lamentáveis quando do embarque e desembarque das reses em balsas e batelões adaptados para tal fim.

Consequência dessa drástica mudança de hábito foi o desaparecimento paulatino das antigas e inúmeras marombas que, num passado recente, se haviam constituído no único meio conhecido de proteção do gado leiteiro, da bacia do Careiro, durante a ocorrência cíclica das enchentes.

Das antigas e românticas marombas – símbolo criativo dos colonos da ilha – restam umas poucas de pé como a compor na memória das novas gerações, a História de um período de sacrifícios vencido, felizmente, pela determinação de homens que ali chegaram corridos das secas do nordeste brasileiro.

GLOSSÁRIO DO AUTOR

PARA MELHOR ENTENDIMENTO DO TEXTO

AÇACU – Madeira de várzea, de extraordinária espessura e alto poder de flutuação, tanto que suporta casa sobre ela para abrigar gados nas enchentes.

ANDIROBA – Árvore varzeana, muito usada nas serrarias para tábuas. De suas sementes é extraído óleo medicinal de grande poder cicatrizante.

BUBUIA – Que flutua. Diz-se das árvores que flutuam nos rios e lagos. Também das gramíneas aquáticas que proliferam nas aguadas amazônicas.

CANARANA – Gramínea com a qual o gado estabulado nas marombas se alimenta durante as enchentes. Os trabalhadores que lidam com ela, são os capineiros.

CAIÇARA – Proteção lateral das marombas, feito cercas. Por extensão, acréscimo das carrocerias dos caminhões que transportam bovinos, equinos, ovinos…

CARÁ – Tubérculo usado na alimentação humana. Peixes, também chamados carás são, na verdade, os acarás.

CUPIÚBA – Madeira usada nas serrarias para o fabrico de tábuas.

CAPINEIRO – Trabalhador varzeano empregado no corte da canarana (gramínea aquática) para a alimentação do gado nas marombas.

ITAUBA – madeira nobilíssima usada na construção naval cascos de embarcações de qualquer calado.

LOURO CHUMBO – Madeira nobre, usada nos cascos de embarcações e pontes. Super-resistentes às intempéries.

LOURO GAMELA – Madeira usada na construção de cascos inteiriços, sem necessidade de tábuas para completá-los. E para gamelas para receber mandioca ralada.

MAROMBA – Cobertura sobre palafitas ou toras de açacu para abrigo de gados durante as grandes enchentes amazônicas. Casa flutuante ou sobre espeques.

PIRANHEIRA – Madeira resistente às águas, que lhe são conservantes. Mergulhada nos lagos, dura décadas e décadas, sem ser desgastada.

PAXIÚBA – Tábua feita do caule da palmeira paxiubeira, de um negro reluzente como se envernizada fosse (com verniz negro).

PARANÁ – Nome que se dá a um braço de rio, quando este encontra uma ilha, dividindo-se. Paraná-miry (mirim) ou Paraná-açú (quando de maior largura).

PARARANÁ MIRY – É o braço estreito de rio, correndo na lateral de uma ilha.

PESQUEIRO REAL – Nome dado ao Lago do Rei, situado ao centro da ilha do Careiro, possuindo uns 68 tributários (lagos menores, que o alimentam), sendo riquíssimo em peixes.

RETIROS – Áreas situadas, na várzea ou terra-firme para abrigar o gado vacum não usado na ordenha. Ou a este, também, nas enchentes.

TERRA FIRME – Terra alta, continuada, não sujeita às enchentes periódicas. Anuais.

VÁRZEA – Terra alagadiça que, durante as enchentes, fica mergulhada, por meses. Quando a enchente recua, presta-se ao cultivo geral, sem precisar de adubo.

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Almir Diniz
Poeta e contista amazonense. Membro da Academia Amazonense de Letras e do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas.

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