“Grande parte da população, nos primeiros tempos da doença, não acreditava que pudesse ser alcançada e reagia às medidas recomendadas.”

Com justa razão, pelo menos para um leigo em ciências médicas e sanitarismo tal qual me classifico, a atual situação da saúde pública mundo afora e no Brasil é preocupante, e, mesmo sem admitir exagero, é importante estar informado e orientado sobre os procedimentos a adotar.

Não há que desprezar, entretanto, a justa manifestação interior de fé e confiança que resge a tradição brasileira, afinal, a nossa formação cristã tem, nesta hora, a oportunidade singular de ser fortalecida posto que a solidariedade comum com todos os povos e a compreensão de que estamos no mesmo campo de influências, independente da região geográfica e status social e político, fica cada dia mais evidente.

Recuperando experiências anteriores vale referir que o tratamento adotado em Espanha começava pela dieta láctea e repouso absoluto, utilizando sudorífico para eliminar “pela pele, parte do veneno gripal”, e usar “espírito de Minderero” (10 mg) e javer de éter (25 mg) para tomar de uma só vez.

Uni quarto de hora depois aplicar xícara de “infusão de borraja”, muito quente. Na manhã seguinte tomar purgante salino com salsa, groselha e lechuga, em duas doses,com 15 minutos de intervalo.

Havendo questão bronco-pulmonar seria adicionada “infusão de hissopo” com “jarabo de eucaliptos globos” e “jarabo de yemas de aboto” (100 gr).

Para completar o tratamento, a cada dois dias, aplicar pinceladas de iodo no peito do enfermo ou ventosas secas, e para questões cardíacas, além da pincelada de iodo na região precordial usar tintura de digital com “jarabo de las cinco raízes” (300 gr.), e, conforme o caso,”cafeína”, “benzoato de soda”, e nas formas nervosas, a “quinina”.

Para manter “as forças do enfermo”,usar vinho de “extrato blando de quina (10 mg.), “tintura de nuez de cola”(50 mg.), “jarabe de genciana” (100 mg.), “vinho de Colombo”(500 cent.8), e cinco ou seis colheres diárias, acrescentando ferruginosos indicados para anemia.

Tudo parou na cidade de Manaus. O respeitável reverendo Eurico Nelson e Hastimphilo Serejo foram aos jornais informar que haviam suspendido todos os cultos da Igreja Batista do Amazonas, inclusive as prédicas ao ar livre, “até que a situação melhore e tenha cessado a ameaça que, pelo contágio, pesa sobre a cidade”.

O câmbio e a borracha padeceram, principalmente porque as bolsas fecharam.

Os soldados da força policial foram acometidos da doença em grande quantidade sendo socorridos na Santa Casa, mas a imprensa reclamava que fossem deslocados para área distante do centro da cidade e postos em isolamento.

Grande parte da população, nos primeiros tempos da doença, não acreditava que pudesse ser alcançada e reagia às medidas recomendadas.

Os jornais diziam, por orientação do médico J. Miranda Leão: contra a influenza, são o nariz, a boca e a garganta os focos principais de contágio,e, por isso, nada de beijos, abraços e apertos de mão; distância de quem espirra e tosse; não tocar em nada fora de casa e conduzir seu próprio copo por onde for; suspender as

reuniões de sociedades, clubes, teatros, cinemas e botequins; não levar as mãos à boca, nariz e ouvido; evitar o uso de rapés e de cigarro, irritantes das mucosas; evitar destiladores, ventiladores e outras causas de resfriamentos; evitar visitações em casas de família; evitar insolação e relento à noite.

Além disso, tanto quanto agora, a principal recomendação era de isolamento e de cuidar do asseio corporal, especialmente das mãos, de limpar fortemente os dentes com antissépticos e de cheirar a essência de alfazema mentolada em caso de coriza.

Passados cem anos estamos novamente enfrentando os mesmos problemas e preocupações, agora com noticiário em tempo real de todas as partes do mundo e ainda há quem resista a entender a necessidade de seguir iguais orientações.

Até quando?

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Roberio Braga
*Amazonense de Manaus. Historiador. Bacharel em Direito, especializado em Direito Agrário, pós-graduado em Administração de Política Cultural e Mestre em Direito Ambiental. Professor da Escola Superior da Magistratura do Amazonas e da Universidade do Estado do Amazonas. Ex-presidente da Academia Amazonense de Letras e do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas. Ex-Secretário de Estado de Cultura, desde 1997 até 2017 e atual Presidente da Academia Amazonense de Letras.

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