“Pecado dos maiores, julgo sem medo de errar, é o desconhecimento e o desprezo pela história de Manaus que não vem sendo estudada nas escolas, que, quando muito, não passa de temas isolados apreciados em determinadas dissertações e teses na vida universitária (…).

Venho acompanhando as notícias sobre festas e fastos que deverão comemorar os 350 anos da fundação de Manaus, considerada a presença europeia e o marco simbólico do forte de São José da Barra do Rio Negro de 1669. Ainda sem qualquer empolgação maior, alguns setores da sociedade e do governo estadual e municipal vêm prevendo a efetivação de atividades que registrem esse importante acontecimento nos anais da história manauense.

Não há o que reclamar. Temos a cidade que construímos com nossas experiências e modos de ser, viver e conviver. Somos nós, manauense de nascimento ou por adoção, que fazemos a construção ou a destruição da cidade, sob os mais variados aspectos. Por isso, fico a pensar e a conversar baixinho com os meus botões como diz minha querida tia Maria Wanderley, a minha Dinda, porque algumas pessoas ficam a reclamar e a maldizer certas e determinadas condições ou falta de condições de Manaus.

Ao queme parece pagamos o preço dos nossas atitudes, muitas vezes da pouco educação para a vida urbana, dos tratos e maltratos que praticamos diariamente em coisas simples e na vida prática, e, em grau mais expansivo, quando escolhemos nossos representantes para a gestão pública, quando descumprimos as leis, quando preferimos priorizar nossas urgentes necessidades diante da observância da conduta social e comum mais recomendada … o que, mesmo sem nos apercebermos, muitas vezes contribuem para o acumulo de lixo, a depredação de ambientes públicos, a má conservação de edifícios, a desarborização de ambientes comuns a todos os cidadãos, e por aí vai uma sequência de pequenos e nem tão pequenos gestos individuais que resultam em desamor à cidade.

Pecado dos maiores, julgo sem medo de errar, é o desconhecimento e o desprezo pela história de Manaus que não vem sendo estudada nas escolas, que, quando muito, não passa de temas isolados apreciados em determinadas dissertações e teses na vida universitária, que nos leva adesprezar instituições tradicionais, personalidades e pensadores e profissionais de várias áreas do conhecimento humano que, verdadeiramente, deram e dão efetiva contribuição ao bem comum muitas vezes em favor de falsos heróis ou sabichões de orelha de livro, ou até em favor de oportunistas de plantão.

Ao mesmo tempo em que devemos cultivar Manaus à moda europeia como nos foi legada e nos cumpre entregar ao futuro, devemos cultuar os ancestrais e legítimos titulares dessas terras, simbolizados no povo manaó que nos emprestam o nome título do lugar da Barra desde os primeiros momentos, e sobre os quais pouco ou quase nada sabemos nem nos preocupamos, via de regra, em desvendar. Os massacrados, sob todos os pontos de vista massacrados.

Atravessando mais um século estamos a assistir, incrédulos, às estapafúrdias opiniões e decisões sobre a floresta que nos circunda e na qual estamos mergulhados entre o verde de frondosas espécies e muitas águas de várias cores, tal como sucedeu quando diziam haver descoberto a região. Até quando permitiremos que isso se repita sem que tenhamos voz altiva sobre nosso acervo patrimonial natural? Serão necessários mais 350 anos? Ou vamos aguardar uma revolução provocada pela própria natureza rebelada contra a presença destruidora do homem em seu seio?

Seria bom aproveitarmos as festas que se anunciam para uma reflexão sem partidarismos políticos, científica, acadêmica e ouvindo ais de perto a sabedoria dos povos tradicionais sobre isso.

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Roberio Braga
*Amazonense de Manaus. Historiador. Bacharel em Direito, especializado em Direito Agrário, pós-graduado em Administração de Política Cultural e Mestre em Direito Ambiental. Professor da Escola Superior da Magistratura do Amazonas e da Universidade do Estado do Amazonas. Ex-presidente da Academia Amazonense de Letras e do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas. Ex-Secretário de Estado de Cultura, desde 1997 até 2017 e atual Presidente da Academia Amazonense de Letras.

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