Em 1950, aos dez anos de idade, ainda criança, comecei a observar as mudanças das estações, em Manaus, no meio da Amazônia, diziam que aqui só existiam duas os nove meses de chuvas e os três meses de pouca chuva, entre agosto e outubro. Morávamos à rua 10 de Julho, em uma casa antiga, com um quintal, bem perto do Teatro Amazonas, e a cidade ainda pequena, não ultrapassara os 100.000 habitantes

Hoje, passados 20 anos, lembrei-me de que algumas vezes, pela manhã cedo, ou víamos o grasnar das centenas de patos, paturis ou marrequinhas, nos céus de Manaus, e os víamos voando em formação, em média altura, rumo às suas zonas de nidificação, ao longo do rio Amazonas e dos seus afluentes, em suas praias, até que o verão voltasse, nas suas regiões de origem, no Hemisfério Norte.

E nessa época a sua quantidade já estava bem menor do que na década de 1850, quando os meus bisavós João Facundo de Menezes e Liberalina Adolly de Menezes chegaram ao rio Javari, totalmente despovoado, mas com as praias pululando de aves e ovos de todas as espécies.

Outras aves migratórias, também vindas do Norte, as denominadas tesourinhas, aqui chegavam, todos os anos, cada vez em menores quantidades, uma espécie de andorinha de cauda dupla

Até o ano passado ainda vi algumas delas, na praça Heliodoro Balbi.

Acho que esses patos migratórios, marrecos e paturis foram dizimados, pelos caçadores da América e da Amazônia, e de outros pontos, onde eles descansavam, neste trajeto anual, de ida e volta, de mais de 20.000 km da

Amazônia aos Estados Unidose dos Estados Unidos à Amazônia, através do Mar das Antilhas, ou da América Central.

O pato selvagem, o paturi e o marreco devem ter outro tratamento quanto à caça, pois eles recebem a ação deletéria do homem, nos dois pontos extremos e nos pontos intermediários de suas migrações, sendo extremamente vulneráveis Esta situação sui generis deveria ser mais detalhada e estudada

Também na minha última viagem que fiz a Parintins, ouvi um grande grasnar deles, em um lago além da margem do rio. Eles ainda estão por aqui…

Senhores caçadores de patos, vamos moderar…

Senhores legisladores das rotas aéreas animais, vamos abrir os olhos..

Não deixem esses últimos patos migratórios acabar.

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Antonio Loureiro
Historiador amazonense. Membro das academias Amazonense de Medicina e Amazonense de Letras. Ex-presidente do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas.

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