*Régis Bonvicino

É o relevo das luzes de uma torre no dia seguinte

é o mendigo que, mão aberta, não pede esmola

 

é um MSF -menino sem futuro-amarrado no obelisco

depois de roubar um mendigo

 

é um faquir com fobia de pregos

 

é a antena da mosca furando um pneu

de um Simca Chambord, vermelho,

num velho anúncio realista

 

é uma poltrona bubble chair sobre a faixa amarela

da estrada

 

é um cartaz vintage da atriz Hedy Lammarr em Êxtase

 

é um fantoche da Guerra Fria com um tumbleweed alojado na cabeça

é um soldado da ajuda humanitária

muçulmanas más sem nicabes

 

é um imigrante boliviano demolindo

a marretadas

as vigas de um edifício

 

é também um sociólogo de binóculo, num navio,

disfarçando a cegueira

 

é um relógio sobre uma lápide

 

um escravo

orelha roxa, passos lentos

foge da fazenda Bom Retiro

 

é o conflito econômico progressista

um foie gras de pato selvagem

 

é um colchão com lençol largado na calçada

 

é um menino negro que passa, apressado,

pela calçada da porta da igreja do Pari,

camiseta regata do Spurs,

de repente se lembra faz o sinal da cruz

 

é um enfestador fuzilado por um garoto

num ponto de ônibus à tarde

 

é um rolo de fio elétrico amarrado ao pé de um poste

 

um casal se pega, de dia, sob o luminoso Star India

desligado

 

é um camelo pronunciando palavras assassinas

 

é um cara algemado, disparando contra a própria cabeça

 

é um artista se entregando à polícia

 

*Poeta e  escritor. Poema inserido no caderno Ilustríssima 8, da Folha de São Paulo de 19/10/2014.
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