Arenga de gigantes

“O embate ocupou as páginas de jornais de Manaus, como era comum naqueles anos quando havia desentendimentos entre personalidades de vida pública”. 

Dias desses, sem querer, descobri entre papeis antigos que venho guardando nos meus arquivos, anotação que me deu conta de arenga havida entre dois monstros sagrados das letras e da literatura no Amazonas, daqueles vultos que reverenciamos, ainda agora, com o maior respeito e acatamento, e que sempre serão reverenciados por quantos se dediquem ao estudo da nossa história: Adriano Jorge e João Leda.

Foi uma daquelas coisas imprevistas e cercada de mal-entendido que feriu a amizade de muitos anos que reunia os brilhantes literatos e professores, e que só foi resolvida a contento graças à intervenção de muitos membros da Academia de Letras e a boa disposição de Adriano.

O embate ocupou as páginas de jornais de Manaus, como era comum naqueles anos quando havia desentendimentos entre personalidades de vida pública.

É que Leda, sábio nos estudos da Língua Portuguesa, estudioso de primeira linha, rigoroso e sério, chegado a Manaus depois de desencantos políticos de sua família pelas bandas do Maranhão e do Pará, homem simples, concorreu à cátedra de história do Ginásio Amazonense D. Pedro 11, em cuja banca examinadora estava aboletado por todos os méritos, o nosso Adriano Jorge.

Na defesa oral apresentada por Leda, submetido a impacto nervoso que não se consegue aquilatar, o mestre do idioma titubeou em uma resposta, silenciando sobre tema em relação ao qual Adriano tinha convicção de que ele estava preparado para responder.

Visando incentivar o examinando a sair da enrascada, Adriano tascou, bem a seu modo, expressão um pouco ríspida que não foi entendida por Leda naquele momento grave de sua vida.

Depois disso os dois foram ao bate-boca pelos jornais.

Leda com o seu “círculo de carvão” e Adriano em resposta, com o seu “velacho bambo”, frontais e visceralmente opostos e aguerridos.

Adriano era o presidente da Academia e João Leda integrava a sua diretoria.

Por isso, Leda afastou-se do silogeu durante bom tempo, recolhido aos livros que eram muitos e bons.

Foi então que a turma do deixa disso resolveu entrar em ação e, aproveitando a boa vontade de Adriano, todos os demais acadêmicos organizaram uma visita pacificadora à casa de João e dona Augusta Leda, em comitiva.

Palavras à parte, teria sido firmado um pacto de renovação da amizade, sem ressalvas, por abraço forte entre eles, e tudo ficou no passado, constituindo história para a centenária Academia Amazonense de Letras, cujo importante evento agora festejamos.

O embate com Adriano não sê comparou ao que Leda enfrentou com Cândido de Figueiredo em relação ao vocabulário de Ruy Barbosa, o qual ganhou fama e notoriedade nacional, quando ele foi chamado de “mediocridade de Manaus”, injustamente, mas não se apequenou e soltou lenha contra Cândido; nem em relação ao que manteve com Aldo Moraes, na década de 1940 e no qual se envolveu Sebastião Norões, por denúncia de plágio; nem com o fustigante travado com Mário Ypiranga Monteiro, pouco tempo depois .

Outra versão, aquele que padre Raimundo Nonato Pinheiro contava, era de que Leda não teria se reconciliado com Adriano e só teria retornado à Academia depois da morte do mestre das Alagoas.

Tenho cá minhas reservas quanto a isso, porque os registros de imprensa mostram diferente.

O fato é que, Adriano Jorge e João Leda eram dois gigantes que tratavam com zelo e paixão a língua portuguesa, sabiam firmar posição com rigor e tais embates eram comuns pelos jornais.

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Roberio Braga
*Amazonense de Manaus. Historiador. Bacharel em Direito, especializado em Direito Agrário, pós-graduado em Administração de Política Cultural e Mestre em Direito Ambiental. Professor da Escola Superior da Magistratura do Amazonas e da Universidade do Estado do Amazonas. Ex-presidente da Academia Amazonense de Letras e do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas. Secretário de Estado de Cultura, desde 1997 até esta data.

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