A ideia não é nada má. Constatando que 1.100 presos se amontoam num espaço em que só caberiam 300, o responsável pelo monitoramento do sistema carcerário do Amazonas sugere que, depois da Copa do Mundo, o amplo estádio agora em construção em Manaus sirva como novo centro de triagem de detentos.

A proposta, encaminhada ao governo do Amazonas, não esconde o ferrão condenatório da ironia.

Segundo os cálculos mais recentes, a praça esportiva custará R$ 600 milhões. Apenas quatro jogos serão realizados na arena, que tem capacidade para 43 mil torcedores –enquanto as finais do campeonato estadual não chegam a atrair dez mil.

Mesmo prevendo uma intensificação do interesse pelo futebol depois da Copa, haveria certamente espaço no local para que, em condições de segurança a serem detalhadas, presos à espera de transferência para locais definitivos de detenção possam ser acolhidos em condições outras que não a realidade abjeta das prisões brasileiras.

Corrigir-se-ia, ao menos do ponto de vista simbólico, a deformação política e administrativa que permite a construção de verdadeiros elefantes brancos num país que frequenta com regularidade listas internacionais de violação de direitos humanos pelo modo com que trata os condenados pela Justiça.

Cumpre retirar o criminoso do convívio social para que, na medida do possível, passe por um processo de reabilitação que envolve trabalho e aprendizado, além de justa punição. Exposto assim, o princípio de todo sistema que não se confunda com o das masmorras medievais parece quase ridículo em sua ingenuidade.

Retribua-se, então, o sarcasmo. Utilizem-se para melhor destino as verbas, as energias, os tambores da publicidade e do populismo que se mobilizam tão facilmente para o futebol e o samba –pois há um sambódromo em Manaus, que também se cogita empregar para abrigo de presos.

Sobraria ainda espaço. Por que não dividir a arena com mais racionalidade? São muitas as carências. Salas de aula, postos de saúde, departamentos burocráticos, bibliotecas ou centros de lazer para a terceira idade poderiam ocupar o anel em torno do gramado.

Quanto a este, poderia ser deixado intacto, como recordação dos jogos da Copa, sem dúvida, ou como lembrança permanente da irresponsabilidade festiva e do desperdício impune que regem as opções do poder público brasileiro.

Editorial do Jornal folha de São Paulo de 26/09/2013.

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