Reinaldo José Lopes
*Reinaldo José Lopes 

Cientistas brasileiros mostram como se deu processo de diversificação de pássaros no bioma.

Nossa cabeça não foi feita para entender intuitivamente o tempo profundo da Terra. Criaturas de um dia que somos, temos mais ou menos a mesma dificuldade para imaginar a passagem de 10 mil anos ou de 10 milhões de anos. Por sorte, o método científico consegue dar um olé nas nossas limitações cognitivas, inclusive para explicar um dos maiores espetáculos da Terra, em cartaz há milhões de anos: a diversidade de espécies da Amazônia.

Nessa nova versão do livro do Gênesis, em vez do casal primordial e da serpente do Éden, as estrelas são as aves amazônicas, um elenco vasto – 1.300 espécies identificadas até agora. Analisando dados genéticos de parte dessa lista fenomenal de atores emplumados, cientistas brasileiros conseguiram identificar os mecanismos que parecem estar por trás das origens de tanta variedade.

É claro que a equipe coordenada por Alexandre Aleixo, do Museu Paraense Emílio Goeldi e do Museu Finlandês de História Natural, não é a primeira a mexer nesse vespeiro. Há décadas os biólogos debatem o papel de diferentes fatores para explicar a gênese dos habitantes da maior floresta tropical do mundo.

Simplificando bastante uma discussão cabeluda, pode-se dizer que o debate tem sido dominado por refúgios e rios. “Refúgios”, vale dizer, seriam áreas que, durante a Era do Gelo, continuaram correspondendo a trechos estáveis de mata fechada, manchas de floresta densa cercadas por áreas mais abertas, similares ao cerrado atual.

Populações de aves típicas da floresta teriam ficado isoladas nesses refúgios por milhares de anos. Com a volta do clima quente e úmido, a mata fechada teria voltado a ganhar uma feição contínua, mas o período de isolamento teria dado características genéticas únicas às populações de cada refúgio, originando, desse modo, novas espécies.

Quanto aos rios, a situação é mais fácil de explicar. Ao se formarem, os caudalosos afluentes do Amazonas teriam separado populações de aves, um processo que também conduziria à formação de novas espécies, a exemplo do que você leu no caso dos refúgios.

Aleixo e companhia usaram dados genéticos, climáticos e de distribuição geográfica de mais de mil aves, pertencentes a 23 espécies, para tentar entender o que realmente aconteceu. E o cenário que descortinaram é bem mais complicado e interessante do que o duelo “refúgios versus rios”.

Como explicam os pesquisadores em artigo na revista especializada Science Advances, tudo indica que não havia uma série de refúgios espalhados feito bolhas pela Amazônia, mas um “degradé” de condições ambientais ao longo de toda a região: matas mais fechadas, úmidas e estáveis do lado norte e oeste, que iam ficando relativamente mais abertas e vulneráveis a variações climáticas na porção sul e leste da bacia.

Isso significa que as linhagens mais antigas de aves (com seus 5 milhões de anos, digamos), do lado norte e oeste, iam dando origem a linhagens-filhas que se espalhavam e diversificavam pelo lado leste e sul, nos últimos 2 milhões de anos ou menos, tentando se virar para sobreviver às flutuações do clima.

E é aqui que o bicho pega. Essas espécies mais jovens, que já estão num ambiente naturalmente mais vulnerável, também são as mais ameaçadas pelo desmatamento – que predomina naquela região da Amazônia – e pela mudança climática, que está ressecando com mais intensidade o sudeste amazônico.

Seria uma lástima se a ação humana transformasse o Gênesis em Apocalipse.

*Jornalista e escritor. Artigo na Folha de São Paulo inserida no Caderno Ciência, de 14/07/2019.
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