Aquarela do Brasil
fernanda torres
*Fernanda Torres

Ao som de Ary Barroso, tento dizer para meu filho que aqui é bom, mas não consigo.

Você desce a avenida das Américas com o seu filho de dez anos no carona. A lua cheia desponta na pedra da Gávea, o sol laranja no retrovisor. Você ignora os prédios feios, o horizonte de favelas, passa a mão no cabelo dele e diz: “Bonito, né?”

E a rádio toca “Aquarela do Brasil”, justo ali, naquela hora, o moleque entoa os versos que aprendeu na escola, “Brasil… meu Brasil brasileiro”, e o peito aperta de horror das coisas.

Seus amigos deixaram a cidade, se mandaram para o exterior. Você cogita fazer o mesmo, mas sua pátria é sua língua. E você pensa nos tiroteios, no Cabral, no Crivella e no Garotinho —e tem ganas de fechar as malas e correr para o aeroporto.

E você aguarda a próxima pesquisa e escuta a ladainha do dois pra lá, dois pra cá das margens de incerteza. E você estuda as curvas e acompanha análises, com um misto de angústia, raiva e desespero.

E você lê que o general tacanho xingou os africanos e os sul-americanos de mulambada, depois de comparar o Brasil com um cavalo saltador. E se dá conta de que já ouviu a analogia equestre na adolescência, na voz de outro milico truculento, o do prendo e arrebento, que preferia o cheiro de égua ao da população.

E você constata que a autoestima do Messias deu ao monstro um senso de humor que ele não tinha. Um senso de humor que o tornou palatável, apesar da incitação ao ódio, da menina com a mãozinha em riste, imitando um três-oitão, e da adoração confessa pelo torturador que levou duas crianças para ver a mãe ensanguentada levar choque nos porões do Dops.

E você assiste à facada quase ao vivo, e se controla para não desejar a morte do pobre do ser humano. E você vê o sujeito morfinado recontar, na UTI, o milagre que fez de um misógino homofóbico racista do baixo clero um mito da classe média escolarizada que tem pânico da Venezuela. E você pensa que se danou, porque, depois do atentado, vai ser difícil roubar-lhe a aura de Lázaro ressuscitado.

E você lê Adorno e descobre que a razão esclarecida é a mãe de Juliette, a assassina ninfomaníaca do Marquês. Você lê isso e pensa que a soberba fria do liquida tudo do Paulo Guedes tem mesmo algo de sádico, e se arrepia com a crença cega que o economista ostenta no mega-ultraliberalismo.

E você conclui que o Brasil SA se associou ao Brasil SS; e que na impossibilidade de demitir os miseráveis, melhor fuzilar em massa, com 30 tiros no peito, como sugeriu o candidato.

E você, enquanto ouve “Aquarela do Brasil” na porra do carro blindado que já te livrou de levar um tiro à queima-roupa, você olha para o seu filho e lamenta o fracasso da terceira via. E pensa que, se é para ser Haddad, ele é o que de melhor Lula tem a oferecer de poste.

E você lê a The Economist, o Guardian e o Le Monde e reza para que o mercado entenda que o triunvirato do ungido da pena de morte com o posto Ipiranga do day trade e o general maçom de cabelo graúna é um fim de linha que não tem tamanho.

E você ama Ary Barroso, e canta com seu filho o “Brasil do meu amor, terra de nosso Senhor”, e tenta dizer que aqui é bom, mas não consegue. E você olha a lua cheia, iluminando os barracos da Rocinha, e tem vontade de gritar.

*Atriz. Escritora. Colunista da Folha de São Paulo. Artigo no Caderno Ilustrada C5, de 28/09/2018.
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