*L. Ruas

(Na solenidade de lançamento do livro na tarde do dia 9 de agosto de 1963, em dependências do SESC/SENAC, em Manaus).

Mais uma vez estamos reunidos em torno de um livro e, muito significativamente, em torno de um livro de poesia. Isto vem demonstrar, com transparente clareza que todos os que aqui se encontram continuam acreditando naquilo que constitui a mais sublime e mais nobre realidade humana: a gratuidade do poético.

Estamos recebendo um livro de poesia. E este é um dom que reúne em si mesmo e, ao mesmo tempo, dois ângulos quase paradoxais. A poesia é sempre um jogo e uma responsabilidade. É um jogo porque é capaz de nos libertar daquilo que constitui a nossa maneira mecânica de viver. Aliás, esta é, digamos sem rebuços, uma das características mais essenciais da vida: o seu mecanismo. Se acreditamos nos psicólogos e se prestarmos atenção às suas lições oriundas de diuturnas meditações e de minuciosas análises sobre aquilo que constitui o nosso eu veremos que, na verdade, estamos sujeitos a leis e mecanismos pré-fixados e que nos mantém encadeados aos nossos próprios limites individuais.

Mesmo se não levarmos em conta ensinamentos transmitidos por aqueles que, guiados por uma filosofia que confere uma primazia exacerbada à matéria, chegaram à conclusão de que o homem é apenas uma associação de fatos e de fenômenos necessitantes, tão necessitantes quanto as leis que regem o mundo dos seres inorgânicos, dos seres puramente físicos ou mais ainda dos seres intrinsecamente mecânicos; mesmo se não aceitarmos uma visão mecanicista do universo e, em particular, do homem, visão que reduz a natureza humana a uma simples soma de elementos bioquímicos apenas chegados a um grau mais elevado e mais complexo de evolução e de combinações e que inclui nesta simplicidade fisiológica os mais elevados e mais específicos momentos do homem que o colocam acima de tudo quanto se insere nas leis dos fenômenos cósmicos; mesmo que não aceitemos tais conclusões, ainda assim não podemos deixar de aceitar a constrangedora verdade de que o homem, por sua natureza, é um ser inclinado a permanecer constantemente chamado para um aprimoramento dentro de seu finito e limitado universo.

E, ainda, se aceitarmos, ao contrário, que é possível distinguir no homem alguma realidade que escapa aos horizontes do puramente físico ou fisiológico e que o coloca em uma esfera distinta das de todos os outros seres, se admitimos um comportamento que se distancia quase infinitamente do comportamento de todos os outros seres, se admitimos no homem um comportamento especificamente psicológico, no sentido mais restrito do termo, ainda neste caso, não nos é possível evitar aquela verdade de que falávamos há pouco e que se coloca no centro e como centro da angústia humana. Para não nos demorarmos em longas citações e, de maneira alguma, negando os méritos de outros tantos que trouxeram contribuições altamente valiosas para o estudo e compreensão do homem, pedimos permissão para referir algumas ideias de Alfred Adler a respeito do caráter que para ele se apresenta como a base de toda a nossa vida psíquica, ideias essas expostas por Jaime Bernstein na introdução à obra do grande psicólogo vienense, intitulada O Caráter Neurótico: A essencial unidade do objetivo vital imprime uma forte unicidade ao caráter. Em todos os aspectos da existência se persegue sempre um mesmo objetivo; todas as manifestações do psiquismo são expressões de um mesmo centro pessoal. Os traços de caráter contraditórios são somente aparentes: traduzem uma diversidade de técnicas, experiências ou hesitações a serviço de um mesmo e só objetivo subjacente. E mais adiante, falando a respeito da Identidade do Caráter: O caráter se mantém fiel a si mesmo desde os primeiros anos até o fim da vida do indivíduo. Os traços essenciais do caráter se conservam. Só se alteram suas expressões fenomênicas de acordo com as mudanças de maturação e com as mudanças de cenário que a vida vai encontrando.

Esta permanência do homem em si mesmo, este isolamento do homem dentro do seu próprio universo, este aprisionamento do homem à sua individualidade é, sem dúvida alguma, a mais terrível ameaça contra a sua integridade humana. Se o homem se deixa enclausurar definitivamente, consciente ou inconscientemente – e mais grave se torna o problema se isto sucede da segunda forma, – está, para sempre, condenado. A partir de então ele perde aquilo que constitui a sua qualidade mais específica, a liberdade, e se transforma tragicamente na negação do humano, se transforma em máquina, em fantoche preso e movimentado apenas pelos cordéis da sua loucura.

Sejam quais forem as explicações dadas à loucura uma coisa, porém, permanece brilhando sob os clarões da evidência: o louco é aquele que se escravizou a si mesmo. É aquele que persiste dentro de si mesmo. É aquele que não é capaz de se libertar das suas próprias cadeias. No romance de Lúcio Cardoso, Crônica da Casa Assassinada, temos um magnífico exemplo da loucura em Timóteo que me parece é um personagem que encarna o símbolo de todo o universo humano do romance, universo misterioso e denso, desumano e cruel, universo em hecatombe onde a loucura se confina em todos os pontos, em todas as fronteiras. A este respeito são significativas as palavras de Betty se referindo a Timóteo: Ah, que aquele estranho ser sem sexo era bem um Meneses – e quem sabe, um dia, como ele anunciava, eu não veria em sua forma rústica e profunda cintilar o próprio espírito da família, esse eterno vento que deveria ter soprado também, sobre o destino de Maria Sinhá? É, porém, nas próprias palavras de Timóteo que encontramos uma definição precisa da loucura, causa da destruição daquela família.

O Sr. Timóteo levantou-se e, com este movimento, o vestido desenlaçou-se em majestosas pregas.

– Houve tempo – disse ele quase de costas para mim – houve tempo em que achei que devia seguir o caminho de todo o mundo. Era criminoso, era insensato seguir uma lei própria. A lei era domínio comum a que não podíamos nos subtrair. Apertava-me em gravatas, exercitava-me em conversas banais, imaginava-me igual aos outros. Até o dia em que senti que não me era possível continuar: por que seguir leis comuns se eu não era comum, por que fingir-me igual aos outros, se era totalmente diferente? Ah, Betty, não veja em mim, nas minhas roupas, senão uma alegoria: quero erguer para os outros uma imagem da coragem que não tive. Passeio-me tal como quero, ataviado e livre, mas ai de mim, é dentro de uma jaula que o faço. É esta a única liberdade que possuímos integral: a de sermos monstros para nós mesmos.

A jaula é o termo a que chega o homem que escolhe o seu caminho diferentemente do de todo o mundo, jaula que não é outra coisa senão a sua loucura. O homem que se isola, o homem que se aparta, o homem que não comunga das coisas comuns, o homem que se fecha dentro de si mesmo e é incapaz de escapar às suas próprias cadeias, às cadeias da sua individualidade é o homem condenado à loucura que pode se mostrar sob diversas faces.

Mas por que dizer apenas o homem? A sociedade também pode ficar enjaulada em suas próprias leis, em sua mecânica, em seu ritmo unívoco e se perder na loucura. Não é outra coisa o que a literatura contemporânea procura exprimir em sua mais autêntica produção. Bastaria que nos referíssemos a todas as análises dispersas nos romances, nas novelas, nos contos, no teatro dados à luz nos últimos cinquenta anos para verificarmos, com facilidade, o diagnóstico unânime dado ao nosso mundo: a loucura como efeito da grande solidão humana que constitui o estofo da nossa maneira de viver neste século e nestas sociedades baseadas, alicerçadas e construídas sobre os esteios trágicos de um egoísmo descomedido. O mundo é absurdo e a existência é náusea.

É nas grandes cidades, é nos grandes centros urbanos, é nos imensos e monstruosos labirintos de cimento armado que mais se sente esta verdade dolorosa. O homem perdeu o sentido dos outros e do universo. Esmagado por um ritmo de vida escorchante no qual cada um deve passar por cima do cadáver do outro para alcançar um lugar ao sol e dizer isto significa conseguir realizar a sua própria pessoa, realizar aquele objetivo individual de que falava Adler; circunscrito às fronteiras de uma luta humilhante pela própria subsistência, aniquilado nos seus valores pessoais, o homem do mundo moderno é um ser que vê apenas no seu próximo um inimigo do qual precisa fugir, do qual precisa se isolar para que o outro não termine por absorver pelos tentáculos do seu egoísmo as derradeiras esperanças de ser alguém e de valer alguma coisa. E quantos conseguem isto? Quantos conseguem se sobrepor à imensa e desmesurada massa de ambições e de interesses e se salvar do aniquilamento pessoal pelo suicídio ou pela loucura ou do aniquilamento social pelo qual o homem se entrega, desvalorizado e desumanizado a todas as formas de messianismos sociais que terminam por fazer dele apenas uma peça anônima do imenso maquinismo social?

Diante de tal situação, resta-nos perguntar: Haverá possibilidade de o homem escapar à loucura? Quais serão os meios utilizáveis? Que portas existem para que o homem possa fugir da jaula?

Não acreditamos nas soluções pessimistas que apenas oferecem ao homem o desespero e a náusea como únicas saídas. Não acreditamos, também, de maneira exclusiva, nas soluções econômicas. Não acreditamos, igualmente, nas soluções neopagãs tal como a que nos apresenta Albert Camus em sua obra L´homme revolté, de uma entrega passiva ao absurdo da concepção circular do universo e da história.

Acreditamos em outras soluções e entre elas acreditamos que a poesia, ou melhor, o poético é um desses caminhos reais pelos quais o homem se torna capaz de encontrar sua própria transcendência e escapar ao destino da jaula.

A poesia é acima de tudo diálogo e dizer que a poesia é diálogo é dizer que ela é abertura, expansão, libertação. O poeta é, por essência, aquele que é chamado para a comunhão intensa e viva com as coisas e com os homens. Por mais que as aparências digam o contrário, o poeta é aquele que não tem fronteiras, é aquele que não tem limites, é aquele que está continuamente atento a todos os apelos que partem, a todos os momentos, de todas as coisas que o rodeiam, que o cercam, que o tocam, que se refletem em sua alma disponível, aquele que fraterniza com a disponibilidade permanente da superfície tranquila dos espelhos. O poeta é aquele que é todo receptividade e doação ao mesmo tempo, porque nele todos os seres encontram guarida. E todo poeta pode dizer exatamente como Rabindranath Tagore: Fui convidado para a festa deste mundo e assim minha vida foi bendita. Meus olhos viram e meus ouvidos ouviram.

Acredito que neste encontro marcado com a poesia, o homem encontrará, sempre, o caminho para a libertação e por isso dizia eu no início que o livro do Elson Farias, sendo um livro de poesia é um jogo, é uma oportunidade que nos é oferecida para que saibamos e posamos nos libertar e, ao mesmo tempo, é uma responsabilidade porque podemos aceitá-lo ou recusá-lo e neste último caso, estaremos atirando fora mais uma chance de salvação daquilo que é em nós uma das cintilações do divino plantado em nossa tenebrosa pequenez.

Se é verdade que o homem por natureza está inclinado permanentemente a se fechar dentro de si mesmo, então a loucura não tem confins e mesmo em sociedades que ainda não atingiram aquele extremo de solidão de que falávamos há pouco é possível que ela aconteça porque então a loucura não é uma questão de paisagem mas vem a ser uma contingência congênita à nossa natureza. E é de fato. É tão real, é tão constante esta exigência de permanecermos fiéis a nós mesmos que facilmente somos capazes de esquecer tudo aquilo que nos cerca, tudo que se coloca à nossa frente e nos tornarmos incapazes de perceber que o mundo é uma colorida festa de solicitações e de caminhos na expressão de Tagore. Pouco a pouco vamos nos tornando cegos e surdos. As coisas perdem, para nós, o seu significado e até mesmo os outros homens, os nossos semelhantes se tornam invisíveis à nossa percepção. Pouco a pouco vamos, como o personagem de Lúcio Cardoso, chegando à conclusão de que não devemos seguir mais aleis comuns e então todas as coisas puras e simples, belas desta beleza que não encontramos nas lantejoulas falsas com que ornamos as vestes com as quais cobrimos a nossa alma enjaulada em si mesma, singular e excepcional, ainda como Timóteo da Crônica da Casa Assassinada, não conseguem mais fazer vibrar a nossa sensibilidade. Tornamo-nos insensíveis como pedras. Por isso a vida dos poetas é bendita. Por isso benditos são os poetas. Porque eles são os que tem ouvidos de ouvir e olhos de ver e mais do que isso possuem a riqueza e o condão de fazer ressuscitar em nós a vibratilidade que nos torna sensíveis à beleza e de refazer o mundo que havíamos perdido para sempre.

(Continua na próxima semana).

*Luiz Augusto de Lima Ruas (1931-2000). Sacerdote católico, jornalista e escritor amazonense.
Compartilhar
Autor Externo
As publicações são fontes externas de outros veículos de comunicação.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário
Por favor informe seu nome aqui