Reinaldo José Lopes
*Reinaldo José Lopes

Americana que analisou textos do Novo Testamento e outros livros diz que cristianismo não surgiu como religião à parte por muitas décadas.

É comum atribuir uma data mais ou menos precisa ao nascimento do cristianismo: a Páscoa judaica do ano 30 d.C., quando Jesus de Nazaré foi crucificado em Jerusalém (talvez no dia 7 de abril do nosso calendário). Para a historiadora americana Paula Fredriksen, a data está correta, mas não a ideia de que ela deu origem a uma nova religião. Por várias décadas, todos os seguidores de Jesus teriam continuado a ser integrantes fiéis do judaísmo.

Esse é o argumento central do livro mais recente da pesquisadora, “When Christians Were Jews: The First Generation” (“Quando Cristãos Eram Judeus: A Primeira Geração”), ainda inédito no Brasil.

Analisando os textos do Novo Testamento que versam sobre os anos que se seguiram à morte de Jesus, bem como livros escritos pelo historiador judeu Flávio Josefo (37 d.C.-100 d.C.), a professora emérita da Universidade de Boston chega à conclusão de que, na verdade, apóstolos como Pedro e Paulo tinham como objetivo levar a religião judaica a seu ponto culminante, previsto pelos grandes profetas do Antigo Testamento e pelo próprio Cristo.

As origens do cristianismo como seita judaica

As diretrizes por Jesus – Em vida, Cristo parece ter se dirigido somente a compatriotas judeus em suas pregações, orientando seus discípulos a fazer o mesmo / reprodução

Convivência em Jerusalém – Por três décadas após a morte de Jesus, comunidade de seguidores do Nazareno continua vivendo ao lado de demais judeus em Jerusalém, o que só termina quando a cidade é destruída pelos romanos no ano 70 d.C. /Reprodução

Não se trata, vale frisar, de um ponto de vista 100% inovador. Nas últimas décadas, a chamada terceira onda de estudos acadêmicos sobre a figura histórica de Jesus se dedicou justamente a recolocar o Nazareno em seu contexto cultural e religioso judaico, com títulos como “Um Judeu Marginal” (do padre americano John Meier) e “Jesus, o Judeu” (do britânico de origem húngara Géza Vermes, que morreu em 2013).

A importância do Templo - Depois da morte de Jesus, os apóstolos e seus demais seguidores próximos centralizam suas atividades em torno do Templo de Jerusalém, local mais sagrado da fé judaica/Wikimedia commons
A importância do Templo – Depois da morte de Jesus, os apóstolos e seus demais seguidores próximos centralizam suas atividades em torno do Templo de Jerusalém, local mais sagrado da fé judaica/Wikimedia commons

Tais autores destacam o fato de que Jesus dedicara sua pregação exclusivamente aos conterrâneos da Galileia e da Judeia, chegando mesmo a proibir que seus principais discípulos, os Doze, atuassem como missionários entre grupos não judeus.

Apesar do considerável êxito desses trabalhos, porém, ainda é comum que se enxergue uma ruptura entre os primeiros anos após a morte (e, para os discípulos, ressurreição) de Jesus, nos quais o avanço da fé em Cristo continua restrito a comunidades judaicas, e o sucesso missionário subsequente do judeu de fala grega Paulo, conhecido como “apóstolo dos gentios” (isto é, de grupos pagãos ou não judeus espalhados por boa parte do Império Romano).

Apesar de suas atividades missionárias junto aos pagãos (não judeus), Paulo continuou a ver Jerusalém e a história de Israel como centrais para a fé em Jesus; na imagem, o apóstolo Paulo pregando / Reprodução
Apesar de suas atividades missionárias junto aos pagãos (não judeus), Paulo continuou a ver Jerusalém e a história de Israel como centrais para a fé em Jesus; na imagem, o apóstolo Paulo pregando / Reprodução

Os mais exagerados e simplistas chegam a enxergar Paulo como o verdadeiro fundador do cristianismo, ao deixar de lado as exigências rituais que ainda caracterizam o judaísmo – circuncisão dos fiéis do sexo masculino, repouso obrigatório no sábado, leis alimentares que impedem o consumo de carne de porco etc. – e abrir a fé no Deus único judaico, por meio da crença em Jesus Cristo, a boa parte da população dominada por Roma.

Paulo, de fato, registra em suas cartas, presentes no Novo Testamento bíblico, as tensões entre ele próprio e outros seguidores de Jesus acerca da necessidade de circuncidar os pagãos convertidos e da convivência deles com os fiéis de origem judaica. Isso cria atritos até com os apóstolos originais de Cristo, como Pedro (Paulo só entrou para o grupo após a morte de Jesus, depois de perseguir por algum tempo o movimento).

Tais debates de fato ocorreram, concorda Paula Fredriksen, mas é incorreto usá-los como “prova” de que o judaísmo foi deixado de lado por Paulo e pelos demais apóstolos.

Para começo de conversa, Jerusalém se tornou o grande centro do movimento de Jesus. Os Atos dos Apóstolos, livro da Bíblia escrito pelo mesmo autor do Evangelho de Lucas, retratam os discípulos atuando sempre dentro e em torno do Templo judaico, e o próprio Paulo organiza uma coleta de donativos, entre seus fiéis de origem pagã, para a comunidade “mãe” em Jerusalém.

Cerca de 30 anos depois da morte de Jesus, o líder religioso chamado Tiago, conhecido como “o irmão do Senhor” (talvez um irmão biológico do Nazareno), ainda estava ativo na Cidade Santa, segundo Flávio Josefo, e acabou sendo executado por ordem do sumo sacerdote Ananus em 62 d.C.

Como, então, o movimento passou a abrigar pagãos ao lado de judeus? Para a historiadora, foi uma consequência natural de dois fatores. O primeiro era a presença dos chamados “tementes a Deus” —pagãos interessados na religião judaica – nas sinagogas espalhadas pelo Império Romano. Essas pessoas teriam ouvido as primeiras pregações dos seguidores de Jesus dentro das sinagogas e aderido à nova seita junto com judeus propriamente ditos.

O segundo fator teria vindo das próprias Escrituras judaicas. Profetas como Isaías e Jeremias tinham predito que, no fim dos tempos, os povos pagãos também se juntariam aos judeus na adoração ao Deus único de Israel. Para os seguidores de Jesus, a ressurreição dele tinha inaugurado esse tempo da manifestação definitiva de Deus no mundo. Portanto, nada mais natural que os não judeus também aderissem de modo definitivo à fé que viam como verdadeira, confirmando ainda mais as profecias.

Com efeito, Fredriksen destaca que a chamada “primeira geração cristã” esperava ser também a última geração de seres humanos antes do Juízo Final. Para eles, Jesus voltaria em breve. “Sabeis em que tempo vivemos: já chegou a hora de acordar, pois nossa salvação está mais próxima agora do que quando abraçamos a fé. A noite avançou e o dia se aproxima”, escreve Paulo no capítulo 13 de sua Epístola aos Romanos.

Não foi o que aconteceu. A destruição de Jerusalém e de seu Templo no ano 70 d.C., após uma grande revolta judaica contra os romanos, provavelmente pôs fim à comunidade de judeus-cristãos na cidade e acelerou o processo gradual que, nos séculos seguintes, transformaria o cristianismo numa religião à parte.

CRONOLOGIA

  • Entre os anos 6 a.C. e 4 a.C. – provável data do nascimento de Jesus
  • 4 a.C. – Morte do rei Herodes, o Grande
  • 28 d.C. – Jesus começa sua missão pregando na Galileia
  • 30 d.C. – Governador romano Pôncio Pilatos ordena execução de Jesus na cruz
  • 34 d.C. – Depois de perseguir judeus seguidores de Jesus, Paulo adere ao movimento
  • Anos 50 d.C. – Paulo escreve a maioria de suas cartas, preservadas no Novo Testamento
  • 62 d.C. – Tiago, o chamado “irmão de Jesus”, é executado em Jerusalém por ordem do sumo sacerdote do Templo
  • 66 d.C. – Judeus se revoltam contra Roma
  • 70 d.C. – Exércitos romanos destroem Jerusalém e seu Templo; fim da comunidade de seguidores de Jesus na cidade
*Jornalista e escritor. Artigo na Folha de São Paulo inserida no Caderno Ciência, de 19/04/2019.

 

 

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