“Temas atuais, palpitantes, memórias, fatos circunstanciais, coisas do passado e do arco da velha, enfim, crônicas dominicais para boa leitura …” 

Menino ainda, na Rua de. Marcílio Dias, costumava ver do janelão do sobrado de minha casa, um jovem alto, elegante, quase sempre de paletó e gravata e que costumava sair com a beca sobre o braço. Era o filho de dona Cecilia e seu Andorinha, pessoas conhecidas e queridas por todos que morávamos nas imediações do seu Messias e da família Tadros. Tempos depois tomei conhecimento de tratar-se de um advogado e jornalista. Ao mesmo tempo tornou-se comum para nós – minha irmã Ana Maria e eu – acompanharmos os transeuntes, apostarmos em que andar o elevador do Hotel Amazonas haveria de parar, pularmos por cima das pelas de borracha cortadas no meio da rua, e, ouvidos atentos, descobrirmos se estava havendo movimento de embarcação no porto flutuante, pelo apito dos navios, bem como acompanharmos as badaladas dos sinos da matriz.

Passados os anos, quase abandonando as calças curtas tão comuns para os meninos até se tornarem rapazolas, fui conhecendo melhor a figura imponente de José Bernardo Cabral, e passei a acompanhar, primeiro à distância, e, com o passar dos anos, bem mais de perto, o caminhar firme e resoluto com o qual se postava na administração pública, na advocacia, e, ainda mais tarde, na política partidária.

Quando ele despontou com proeminência no Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil, vi o Amazonas e a classe reconhecida e representada com austeridade e serenidade; quando o encontrei em Palácio Rio Negro, no secretariado do governo Gilberto Mestrinho, preparando-as novas trilhas para a Câmara Federal vislumbrava que teríamos um representante à altura das nossas tradições, mas Bernardo avançou sobre todas as expectativas e tornou-se Relator Geral da Comissão de Sistematização da Constituição da República, posto no qual, além de bem servir ao país, consagrou o nosso modelo de desenvolvimento como imposição constitucional, perenizando a zona franca.

A convivência no Instituto Histórico e na Academia de Letras, embora não seja frequente pelas atribuições que ele se impôs, na sua maioria distante de Manaus, foi sempre fraterna, gentil e solidária.

Em meio a todo esse emaranhado de atribuições ele manteve, por longos anos, fiel aos primeiros passos de “A Crítica”, sua coluna nas páginas criadas por Umberto Calderaro e nas quais despontou por volta de 1950.

Temas atuais, palpitantes, memórias, fatos circunstanciais, coisas do passado e do arco da velha, enfim, crônicas dominicais para boa leitura acompanhada de um saboroso café com tucumã e pupunha, bem ao gosto amazonense. Nos meus arquivos constam algumas dezenas delas, organizadas na forma como aprendi a colecionar ao modo do que o padre Nonato Pinheiro costumava fazer com as crônicas de André Jobim, artigos de Mário Ypiranga, André Araújo, Lúcio Cavalcanti e outros tantos.

Quando minha mãe e mestra, Sebastiana Braga, foi homenageada na Semana da Pátria juntamente com Phelippe Daou no coreto da Praça de Heliodoro Balbi, do alto de sua modéstia e belo texto, falou da sua admiração por Bernardo e de como acompanhou, à distância, a trajetória desses dois importantes homens públicos que o Amazonas sempre festejou. Quando recebi os originais de seu discurso, letra bem desenhada em papel ai maço pautado, caligrafia elegante, linguagem escorreita, procurando vencer a emoção daquela hora singular transcrevi para o computador, palavra por palavra, como ela descrevera aquele cenário da Rua de Marcílio Dias nos anos 1950.

Ao ler a crônica de domingo passado com a qual José Bernardo Cabral apresentou suas despedidas desse mister semanal, deixando de deleitar os leitores para atender imperiosa necessidade familiar e estar mais próximo de sua Zuleide, companheira de muitas luas e todos os sóis que os iluminaram, naquele momento todo esse filme perpassou minha retina como se fosse Contação de mistérios milenares.

Diante disso, saindo de cena do mesmo modo como um brilhante tenor se despede na última ópera mesmo ainda tendo muito a oferecer a seu público, Bernardo recebe os aplausos de todos os amazonenses, com os nossos corações agradecidos.

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Roberio Braga
*Amazonense de Manaus. Historiador. Bacharel em Direito, especializado em Direito Agrário, pós-graduado em Administração de Política Cultural e Mestre em Direito Ambiental. Professor da Escola Superior da Magistratura do Amazonas e da Universidade do Estado do Amazonas. Ex-presidente da Academia Amazonense de Letras e do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas. Ex-Secretário de Estado de Cultura, desde 1997 até 2017 e atual Presidente da Academia Amazonense de Letras.

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