José tem doze anos e mora com a mãe e o padrasto no bairro Jesus Me Deu. Um dos menores IDH de Manaus, quiçá do Brasil.

A moradia se restringe a um único cômodo. Em época de pandemia e quarentena, a convivência do casal com o menino tornou-se muito difícil. Antes da pandemia José se refugiava na escola. Matriculado no turno matutino, pediu à diretora que o deixasse ficar na escola pela tarde. A convivência com o padrasto sempre foi complicada. Permeada de incompreensão e violência.

José passa agora os dias na rua. Involuntariamente. Gostaria de estar na escola. Mas a escola fechou. Perambulando pelo centro e com fome, viu uma banca de frutas. Havia lindas maçãs vermelhas procedentes da Argentina.

José nunca comeu uma maçã. Conhecia mangueira e jambeiro. Onde teria um pé de “maçanzeira’? Perguntou ao vendedor.

– É macieira. Não tem aqui em Manaus. Uma é cinco, três por dez reais.

No livro do Gênesis, Eva desobedece a ordem de não comer a maçã. Mas foi grande a tentação. Não só experimentou como ofereceu-a para Adão.  Assim, aquele fruto da frondosa árvore do paraíso tornou-se símbolo de pecado e tentação.

José tinha dois reais e cinquenta centavos no bolso, fruto de seu trabalho como guardador de carro. A tentação foi tão grande quanto a de Eva. José, além da fome, tinha curiosidade em saber o gosto daquela fruta vermelha e apetitosa. Pegou uma e correu. Um guarda interceptou-o e levou José para a Delegacia.

Interrogado disse que seu nome era José. Morava no Jesus Me Deu. Na rua principal. Não sabia o número. Achava que não tinha numeração. O padrasto tinha celular. Mas também não sabia dizer o número. Tinha sido expulso de casa.   Mas podia voltar para dormir. Não era ladrão. Pegou a maçã por curiosidade. Nunca tinha comido uma. Chorava e pedia pela mãe. Queria ir para casa.

Na delegacia José era mais um menino de rua, pivete, curumim, garoto, menino em situação de risco, guri, curumim cheira-cola, flanelinha, pequeno, párvulo, pirralho, miúdo, menor, de menor, menor abandonado. Não falta qualificações para José.

Todas equivocadas. José é apenas uma criança.

12 de outubro. Dia das crianças. Há muitos josés pelas ruas de Manaus. Não são meninos de rua. Estão nas ruas. Mas são crianças. Apenas crianças.

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Pedro Lucas Lindoso
*Bacharel em Direito e licenciado em Letras pela Universidade de Brasília. Membro efetivo do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas. Pertence a Associação dos Escritores do Amazonas e a Academia de Letras Ciências e Artes do Amazonas. Membro fundador da Academia de Ciências e Letras jurídicas do Amazonas.

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