Aos militantes da Geografia

Os geógrafos compartilham com os demais profissionais das preocupações do momento em que vivem e, como os demais profissionais, acreditam ser fundamental a contribuição individual na construção dessa utopia coletiva que é uma sociedade onde as riquezas produzidas possam satisfazer as necessidades de todas as pessoas e não apenas de uma minoria de privilegiados.

Também como os demais profissionais os geógrafos recusam aceitar que a orientação neoliberal seja a única possível para ser implementada em nosso país e no mundo e que o desenvolvimento e o bem-estar conseguido por essas medidas para uns poucos privilegiados seja pago pela miséria, desemprego e desesperança da grande maioria das pessoas que compõem a humanidade.

Na verdade, a mídia nos passa a falsa ideia de que a globalização é inevitável, inexorável, igualitária e que traz benefícios recíprocos para todos os países. Como diria Rui Moreira, é preciso desmascarar essa impostura e, afirmar que os países que detêm as tecnologias, que monopolizam os meios financeiros e dominam os organismos que regulam as relações internacionais, são os únicos que se beneficiam e se apropriam das vantagens comparativas dos outros países.

Não podemos aceitar a globalização como um fato consumado e submetermo-nos à sua lógica. Podemos e devemos participar na construção do nosso território.

Na verdade, globalização é um conceito criado pelos ideólogos comprometidos com o sistema, para dar sustentação ideológica a essa fase neoliberal do capitalismo, que quer transformar o mundo, num imenso mercado sem fronteiras geográficas para o capital, mas negando essa mobilidade para as pessoas.

De fato, as comunicações uniram os mercados e a economia. Entretanto, esse boom da produção capitalista, longe de apontar esperança de dias melhores, só na América Latina exclui 180 milhões de pessoas que vivem na pobreza e 80 milhões que sobrevivem em extrema miséria.

As leis de mercado, que poderiam servir para aumentar e melhorar a oferta de produtos e reduzir seus preços são absolutizadas e passam a governar até as relações entre as pessoas. Nessa linha de raciocínio neoliberal, o crescimento econômico e não a pessoa humana passa a ser a razão de ser da economia. O Estado se exime das responsabilidades sociais que todos os cidadãos merecem, pelo simples fato de serem pessoas.

Os programas sociais são substituídos por incentivos fiscais aos poderosos grupos econômicos, em detrimento do apoio às pequenas e médias empresas locais.

As empresas constituídas com recursos públicos são privatizadas por preços irrisórios, com a simplória desculpa de que o Estado é mal administrador.

Ao invés de incentivar as pequenas e médias empresas locais, criadoras de emprego e de reinvestimentos locais, abre-se o país para as multinacionais exploradoras de nossos recursos e que remetem seus lucros para suas sedes.

A política econômica privilegia o ajuste fiscal, a redução da inflação e o equilíbrio da balança comercial como se esses fatores, por si sós, pudessem trazer bem-estar para todos, sem provocar novos e graves problemas.

Com o objetivo de incentivar os investimentos privados altera-se a legislação trabalhista, suprimindo as conquistas sociais dos trabalhadores e suprime-se as leis de proteção ambiental.

As perversas consequências de toda essa política nós é que sofremos: desemprego, subemprego, aviltamento dos salários, falência das pequenas e médias empresas, concentração urbana de espoliados, expansão do narcotráfico, aumento da criminalidade, ausência de segurança pública, desajuste das comunidades locais, enfim, a degradação da pessoa humana, através das múltiplas formas de corrupção.

Consequência de tudo isso é a indignação popular, apelo ao terrorismo, aprofundamento das desigualdades sociais e a concentração, cada vez maior, das riquezas produzidas nas mãos de uma minoria.

Na verdade, o neoliberalismo reduz a pessoa humana à sua dimensão econômica, à sua capacidade de produzir bens materiais. Exalta o individualismo, o carreirismo, o sucesso individual, o consumismo desenfreado de coisas supérfluas, mas que através da mídia tornam-se indispensáveis, levando as pessoas a fazerem qualquer coisa para possuí-las. Daí a corrupção, a degradação dos valores, a concorrência sem ética, enfim, a prostituição moral em todos os níveis e sentidos em todos os segmentos sociais.

Entretanto, o que causa maior indignação é a cumplicidade de nossas elites dirigentes com esses esquemas da globalização, assistidos pelos meios de comunicação; principalmente pela televisão que tem um poder enorme de seduzir, induzir e conduzir a pessoa a adotar esses novos comportamentos, renunciando, e até mesmo menosprezando, os seus próprios valores, criando essas sociedades regionais completamente alienadas. E isso é mais grave ainda, quando a juventude, a força renovadora de todas as sociedades, adere e assimila esses valores sem opor qualquer resistência.

Mas, podemos construir uma sociedade alternativa em que todas as pessoas possam usufruir dos bens e serviços proporcionados pelo desenvolvimento tecnológico. Uma sociedade justa onde ninguém seja excluído do trabalho remunerado, da saúde, da moradia digna, da educação e onde se possa gozar das belezas da natureza sem depredá-las.

Podemos construir uma sociedade onde as pessoas não tenham vergonha de suas tradições e de sua descendência. Uma sociedade eficiente, mas também sensível e preocupada com seus deficientes, com os idosos e com as crianças. Uma sociedade que acolha com generosidade todos aqueles que buscam melhoria de vida em seu território e que se oponha, radicalmente, à qualquer política de limpeza étnica e de culto à raça.

Podemos construir uma sociedade, onde a atividade política deixe de ser fonte permanente de corrupção, balcão de favores pessoais e seja privilégio dos que realmente se preocupam com o bem comum.

Na verdade, temos que ter consciência que esta opção tem um preço muito alto e que exige coerência de vida, atitudes e valores radicalmente contrários aos da burguesia. Além do que, requer competência técnica, disciplina no trabalho, organização e eficiência, sem o que, nunca construiremos a sociedade que tanto desejamos.

É necessário, portanto, pesquisar profundamente os fundamentos do neoliberalismo para propormos alternativas viáveis de resistência e consentâneas com as possibilidades do nosso povo; solidarizar-se com todos os excluídos, apoiar as suas lutas; fortalecer as tradições culturais que não deixem o povo perder sua identidade.

Por fim, é básico e fundamental lutar pela gratuidade dos serviços públicos, principalmente, pela saúde, pela segurança e pela educação.

Acredito, firmemente, que a forma mais eficiente para conter os impactos malignos, dessa globalização capitalista perversa, seja o comprometimento dos futuros geógrafos, e, de todos os profissionais, em atuar profissionalmente, na construção de um território de uma sociedade justa, alegre e solidária.

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Roberto Monteiro de Oliveira
Natural de Manaus, AM. Licenciado em História pela FSFCLL/SP. Mestre em Geografia pela UNESP. Doutor em Geografia pela USP. Analista de C&T do INPA.

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