“Não há mais os cartões “chies” da Casa Havaneza, do Restaurante Francês e da Sapataria Elegante, e muito menos se pode ler os “prognósticos” anunciados pela Pitonisa do Plano Inclinado que ocupavam a primeira página de jornal deixando o leitor curioso (…).

Se bem me lembra, diz o adágio popular, sempre bem propalado desde há muito tempo – Ano Novo, vida nova -, como uma espécie de livramento das coisas tristes e pesadas acontecidas no ano que finda. Essa expressão, tão em voga a cada dezembro, parece resumir o sentimento de quantos sentem alívio por razões que a cada um pertencem e, ao mesmo tempo, demonstra boas expectativas em relação aos dias futuros.

Há cem anos, nessa mesma Manaus dos trópicos, esmagada pela guerra mundial e experimentando a decadência econômica que seria longa e sofrida, ainda havia quem se desse à pachorra de aproveitar os festejos sofisticados preparados pelo Ideal Club, atentos à recomendação dos jornais que sugeriram às moças casadoiras que apostassem a sorte nas loterias que ofereciam prêmio de mil contos de reis, aproveitando os ares do ano novo.

Ao Ideal compareceu o mundo sofisticado e oficial da cidade, desde pouco mais das 22 horas, em soirée-dançante, ocasião em que “os vastos e feéricos salões … regurgitavam do que de mais fino e distinto possuímos em nosso meio”, todos atentos e solícitos ao maestro João Donizetti e sua orquestra de baile. Lá fora, um forte temporal desabava sobre a cidade.

Os comerciantes mais qualificados, como Cesare Varonesi, agradeciam a cortesia dos clientes em cartões postados na imprensa diária; outros acorriam ao festival desportivo realizado no Campo da Floresta pelo Nacional Foot-ball Club, evento que conseguia reunir a elite do desporto manauense. Em outra parte da cidade alguns poucos se empenhavam em conseguir donativos para a Sociedade São Vicente de Paulo e a propiciar momentos de alegria aos pobres que se achavam sob os cuidados da instituição ou do Asilo de Mendicidade.

Cartões de Boas Festas circulavam entre as famílias, comerciantes, políticos e a imprensa augurando melhores dias, alegrias, fartura e felicidades tal como ainda agora, cem anos depois, se mantém o hábito de cumprimentos efusivos e alvissareiros entre nós, afinal, nada de maior agrado do que os votos de esperanças de um ano de mais sucessos, saúde, paz e harmonia entre os homens.

Apenas as “folhinhas” e os “cromos”, tão comuns na passagem para 1920, desapareceram de nosso cotidiano, cedendo lugar aos zaps e mensagens enigmáticas que chegam na palma da mão por meio dos telefones portáteis.

Não há mais os cartões “chies” da Casa Havaneza, do Restaurante Francês e da Sapataria Elegante, e muito menos se pôde ler os “prognósticos” anunciados pela Pitonisa do Plano Inclinado que ocupavam a primeira página de jornal deixando o leitor curioso por descobrir quem seria o autor dos vaticínios políticos, quase sempre por demais audaciosas e irrealizáveis.

Anunciando a nova fase da vida, bem ao modo da linguagem da época, dizia o editorial de um dos nossos jornais: “… e a terra girou mais uma vez em torno do sol assinalando mil novecentos e vinte anos depois do nascimento de Jesus Cristo o evangelizador e o matir,” para que a humanidade iniciasse um “novo ciclo para o exercício multissecular de suas vitórias e de suas derrotas”.

O pessimismo que parecia ser lugar comum naquele fim de 1919 pode explicar que não fosse esperado um ano bom para 1920, “no mundo infelicitado dos nossos dias, mundo que anda acorrentado a solenes compromissos de sangue e de ódio”, resquício da guerra que parecia não ter acabado.

Passados cem anos, ainda bem que podemos augurar vida nova no ano novo sem o pessimismo atroz que ruminava a vida dos nossos antepassados, recheando de esperanças, caridade, saúde, paz e amor o tempo que vai chegar, carregando as emoções e as alegrias para uma nova outra aurora.

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Roberio Braga
*Amazonense de Manaus. Historiador. Bacharel em Direito, especializado em Direito Agrário, pós-graduado em Administração de Política Cultural e Mestre em Direito Ambiental. Professor da Escola Superior da Magistratura do Amazonas e da Universidade do Estado do Amazonas. Ex-presidente da Academia Amazonense de Letras e do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas. Ex-Secretário de Estado de Cultura, desde 1997 até 2017 e atual Presidente da Academia Amazonense de Letras.

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