“O que todos esperamos, sempre, é que o novo ano seja de mais luz, de satisfação das aspirações do coração e da alma, e com esse propósito vamos retemperando a própria vida e, algumas vezes, desafiando o impossível”. 

Era comum entre os antigos o uso da expressão que encima estas linhas todas as vezes que se dava o raiar do ano, ocasião em que costumamos desejar, uns aos outros, votos de esperança, sucesso e. felicidade. Cada qual carrega consigo o seu quinhão de solidariedade e de desejos os mais ardentes por um futuro venturoso. Eis que passamos a olhar o amanhã não só como um novo dia que vai iniciar.

Mesmo sabendo que se trata de um simbolismo, nada mais que lsso.io calendário, por si só, embala os corações’ em novos impulsos e estimula os homens de boa vontade a se voltarem em busca das estrelas e dos seus sonhos, renovarem as expectativas de uma vida melhor e mais produtiva. Procurar a justiça. Pregar a paz. Harmonizar-se com a natureza. Crescer espiritualmente.

O que todos esperamos, sempre, é que o novo ano seja de mais luz, de satisfação das aspirações do coração e da alma, e com esse propósito vamos retemperando a própria vida e, algumas vezes, desafiando o impossível.

Curioso verificar, entretanto, que embalados por essa vontade férrea e quase em oração, prometemos dar tudo que em nos couber de verdade para vencer os desafios, superar as dificuldades, atravessar as colinas mais altas e chegar novamente ao fim da etapa pleno de alegrias. Nem sempre isso sucede como almejamos. Muitas vezes porque a fé inquebrantável que nos anima na passagem do ano não nos acompanha com a mesma tenacidade nos dias que se sucedem, nos quais vamos sofrendo os abalos das perdas humanas ao longo do caminho.

O que quase nunca percebemos é que realizar as aspirações que nos animam neste período simbólico que adotamos como nosso desde os romanos é sempre uma tarefa hercúlea, contínua, diária, persistente e renovadora de energias e que, para que possa ter consecução plena vai exigindo de cada um de nós e daqueles com os quais convivemos de forma mais próxima muito mais do que o ardente desejo, mas a perseverança e a firmeza de atitudes na busca do aprimoramento do espírito eterno que somos na essência de nós mesmos.

Assim como há as superstições e simpatias usadas no tempo de São João tais como os de cruzar de primo ao redor da fogueira, enfiar a faca virgem na bananeira a meia-noite, usar agulhas novas em bacias com água, amarrar Santo Antônio para favorecer o casamento, na noite do Ano Bom, faça chuva, faça lua cheia, há quem não se permita deixar de estar de trajes brancos e novos, fazendo as orações da meia-noite, pulando ondinhas, guardando folha de louro na carteira, colocando passas na mão, varrendo a casa do fundo para a calçada da frente, comendo lentilhas, romã, uva e carne de porco, cada qual com suas manias e confiando que tudo vai mudar na hora que está chegando. Há quem prefira usar roupas coloridas, estar de amarelo, de azul ou prateado, como se cada uma dessas coisas especiais fosse capaz de alterar a roda dos ventos e fazer girar em nosso favor o destino traçado por nossas próprias mãos.

Tenho comigo, crente nos bons fluidos, que tudo aquilo que possa simbolizar a esperança de novos dias e novas luzes, seja superstição ou simpatia, mania da vovó ou herança da nossa raça não tem porque deixar de ser feito nem que seja para animar ainda mais a noite e aumentar a alegria, porém, o que mais vai importar na realização de nossos sonhos é a realização do bem, a prática do amor, da fé e da caridade, indistintamente.

Afinal, o que vai ditar o futuro é o que temos de mais essencial dentro de nós e deve ser praticado conforme nosso livre arbítrio pois é este que vai edificar o nosso Ano Bom.

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Roberio Braga
*Amazonense de Manaus. Historiador. Bacharel em Direito, especializado em Direito Agrário, pós-graduado em Administração de Política Cultural e Mestre em Direito Ambiental. Professor da Escola Superior da Magistratura do Amazonas e da Universidade do Estado do Amazonas. Ex-presidente da Academia Amazonense de Letras e do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas. Ex-Secretário de Estado de Cultura, desde 1997 até 2017 e atual Presidente da Academia Amazonense de Letras.

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