amor
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Cada um de nós, mundo afora, tem os seus guardados,e, entre esses, aqueles que são verdadeiras relíquias, mais do que joias de ouro e brilhantes, rendas finas ou púrpuras solenes: são os que trazem consigo, de tempos idos para o presente, a palavra dos que nos sãos caros e acham-se encantados entre as estrelas, iluminadores profusos da nossa vida.

Confesso, peito aberto, que tenho os meus. E foram alguns desses guardados-relíquias que escolhi para renovarem mim a presença da professora e mãe, mestra e guia que formou todos os filhos e deu tudo de sià família e ao magistério, cuidando especialmente das crianças mais humildes.

Ao reler cartas antigas que me enviou, pareço conversar com ela em aconchego da sala de visita de nossa modesta casa de residência, nosso lar de tantos encantos. Era ano de 1978. E digo tal qual me disse: “acompanho a sucessão dos dias tocada pela saudade” É como faço agora, acompanhando a sucessão dos dias tocado pela saudade a que somos obrigados pela ausência do seu corpo físico e de sua presença material em meio de nós, o que sendo multo doído, não apaga nosso amor que é permanente, passe o tempo que passar.

Lembro-me de tudo, desde a maneira como recordava da minha chegada para a visitação diária quando,jornal mão, perguntava invariavelmente “como vai o povo”, que era forma de indagar como estavam todos, porque de todos e de cada um ela sempre sabia dar notícias novas se destacar os aniversários, as festas de formatura, o dia do batizado e até as peraltices que havíamos aprontado quando meninos pequenos. Estas por exemplo, foram lembranças que registrou em carta que me fez ao tempo em que havia em mim a esperança de vida mais larga e quando os sonhos encantavam o coração com mais vigore seus conselhos não poderiam faltar. Pareço ouvir e ler sua palavra neste dia especial: “o homem deve estar preparado para superar os obstáculos da vida.”Ou aquelas benditas e acalentadoras que certa vez me enviou ao encerrar uma de suas cartas: “meu filho, a nossa bênção não te falta diariamente, s6 que não podes ouvi-la, mas deves senti-la”.

Desde o pequeno portão, antes de adentrar ao pátio da casa conforme costume que ainda me acompanha nos dias de agora, eu começava a assobiar como se fosse o anúncio da minha alegre chegada. De logo, uma voz firme, educada e às vezes rouca se azia ouvir partida da cadeira de embalo posicionada ao lado do rádio: “Sabá, chegou o rouxinol!”. Era o velho marinheiro e meu pai muito amado informando carinhosamente que o menor dos filhos estava entrando. A partir de então tudo girava em derredor de mim, como igualmente faziam com os demais filhos e meus irmãos porque a todos deram a mesma atenção, carinho e devotamento, desde o berço.

Impossível não ter vivo na retina, ainda agora, o olhar apaixonado com o qual ela vibrou com presente nobre que lhe ofertamos: o piano. Era a festa dos seus oitenta’ anos. O desejo de ter e tocar piano era antigo e guardado em segredo desde menina pequena. Foi um momento único de emoção para todos que ali estavam, também surpresos, após a missa que mandamos rezar em agradecimento por graça tão grande. Sua palavra em carta que nos dirigiu foi simples, emocionada e agradecida afirmando que teria sido elevada “ao mais alto grau de felicidade”. E disse mais: “naquele momento, diante de tanto amor eu me senti anestesiada. O mundo, a casa, tudo desaparecera da minha imaginação, era como se estivesse em outras plagas e envolvida por um facho de luz. ”

Agora, depois que ela se tornou um facho de luz no universo, vivendo outra parte da vida que todos nós temos de experimentar como aprendizado, posso repetir o que ela dizia em tom sincero e simples, hoje e sempre pelo tempo dos tempos: “o nosso amor vai distribuído em bênçãos e beijos” e temos a certeza de que a sua benção não nos falta diariamente, ainda que não possamos ouvi-la, porque o amor que nos dedicou e ensinou, nos permite senti-la derramada dó céu.

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Roberio Braga
*Amazonense de Manaus. Historiador. Bacharel em Direito, especializado em Direito Agrário, pós-graduado em Administração de Política Cultural e Mestre em Direito Ambiental. Professor da Escola Superior da Magistratura do Amazonas e da Universidade do Estado do Amazonas. Ex-presidente da Academia Amazonense de Letras e do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas. Secretário de Estado de Cultura, desde 1997 até esta data.

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