Se a gente não Raoni, nós se Sting.
Rita Lee, rocker brasileira

Às margens do grande rio…

Alô meninos e meninas de todos os quadrantes: a Natureza escreve… reivindica.

Antes de mais nada pedimos desculpas a todas vocês pelo tempo que lhes vamos roubar. Puxa! Dez minutos de leitura do artigo de um simples jornal parecem insignificantes, mas fazemos muita falta na vida humana, ainda mais no Ano Internacional da Ecologia que, para começar a resolver os infinitos problemas infanto-juvenis necessitaria, no mínimo, de 60% de oxigênio, ar impuro em face a poluição ambiental, contribuindo, sobremaneira, para a queda da qualidade de vida nas urbs; de justiça, diante dos assassinatos em massa dos meninos e meninas de rua, cuja causa mortis é o vírus da violenta discriminação social, não obstante a aprovação recente do Estatuto da Criança e do Adolescente, quanto mais de uma investidura de consciência político-ideológica, defendida perante os donos do poder e os senhores do mundo, na Unicef. Na realidade nacional os menores somam sete milhões, dos quais a maioria, vivendo à margem do convívio escolar, no submundo, na condição de pobreza absoluta, num Estado falido, omisso e conivente. A criança brasilíndia não tem infância e a sociedade ao invés de compreender o desenvolvimento lúdico e psicológico, marginaliza os inocentes, por conseguinte miserável é o país que não ama o seu tesouro do amanhã. No entanto, a imagem mais gritante que observamos foi quando assistimos A Guerra dos Meninos em que deixamos até mesmo de sentir orgulho de sermos patriotas, devido a estupidez dos adultos em institucionalizar uma pena de morte branca, registrada na infeliz perseguição sistemática do dia-a-dia dos petizes. Deus, vem cá, nos diz uma coisa: lá no céu está sobrando amor?

Em nossa vã interpretação, os menores constituem-se num povo peregrino, sem direito a um teto e à dignidade de uma pátria que os acolha e mereça. Percebemos que Jesus ainda  continua abandonado, fugitivo, amarelado pela fome, desconhecido e, sobretudo, sem passaporte, onde o sentimento de solidariedade está reservado ao desaparecimento da face da Terra. Por isso é de fundamental importância uma reforma humana, já! Apesar de tudo temos orgulho de ter nascido aqui e fazer parte desse chão suave, berço originário de nossas verdadeiras raízes, visto que a sabedoria da Natureza é tão curva que ela reflete o eco do silêncio através da trilha direta para se chegar até nós mesmos. E tudo que contraria a Mãe-Natureza é contra o Criador.

Somos, caras crianças, centenas daquelas que são podadas e transformadas em metros cúbicos para exportação, reduzindo substancialmente nossa numerosa família, pela inexistência de vontade política dos coronéis de barranco de colocar em prática um zoneamento agro-ecológico-econômico; manejo de áreas degradadas; e, punição dos passivos ambientais do agronegócio brasileiro.

Fomos escolhidas pelas companheiras para fazermos parte da comissão que representa a flora presidida pela Hevea brasiliensis, outrora o ouro negro da Belle Époque, ainda hoje camarada de determinado valor e integrada pela gigantesca, frondosa e bem copada Bertholletia excelsa, imprudentemente chamada de castanha-do-pará; Angelim-pedra, dura na queda de braço contra as moto-serras-Mendes e a saudável, aromática e bonita Aniba rosaeadora, popularmente conhecida por Pau-rosa, objetivando criar uma consciência de cunho ecológico, um via-a-ser, fortalecendo os investimentos ambientalistas, denunciando e combatendo o ecocídio.

Somos a fauna, formada por raros animais que ainda teimam em existir e outras espécies em estágios avançados de extinção como o Felis wiedii-fidelis tigrina, a Pteronura brasiliensis (ariranha), a Hidrochoerus (capivara), o Tayassu (queixada), o Sauim-de-coleira como líder do menor primata do mundo, existentes nas matas próximas a Itacoatiara e o Tamanduá que nos emprestou sua cauda para fazermos nossa bandeira, afinal, como afirma o slogan da Universidade Holística Internacional, paz e meio ambiente, começam dentro da gente. E ainda a comissão ornitológica composta pelo fenomenal Uirapuru que, verdadeiro, é o melhor intérprete destes pagos mil e que, agora chora, plangente, a destruição dos campos verdejantes, repletos de gramíneas; o Icterus chrysocephalus que, diariamente, nos acorda com uma estrofe cheia de gorgeios na boca da noite e, nas madrugadas, joga uns versos para atrair sua musa. Por ser um passeriforme tímido, foi escolhido símbolo dos poetas, tendo o canto mais parecido com o lamento que um rock sinfônico, mesmo assim, acrescentando um sol maior à vida; o negro Curió, tido como amigo do homem, e, mesmo caçado lá prás bandas do Lago Canaçary e engaiolado, emite um som pauleira, porém, com estilo latino de quem dá um show de canto e balé clássico sem nunca ter frequentado academia e o Hylocharis chrysura com o fenômeno da iridescência que, além de polinizar os jardins em parceria com a Apis melífera, oferece um espetáculo multicor, sendo o único passarinho que tem a ousadia de voar pairando no ar, numa velocidade espantosa, em anos-luz. Sabemos que o Governo promete o projeto da floresta… e aqui, grupos econômicos poderosíssimos gananciosos, enriquecem ilicitamente, contrabandeando desde minerais estratégicos até exemplares da flora-ictio-fauna, enquanto a mortandade aumenta no reino vegetal, animal e humano, com requintes de crueldade, tanto no campo quanto na cidade, em detrimento da miserabilização dos povos da floresta, que optaram pela extração sustentável dos produtos silvestres para viver dignamente.

Meninos e meninas ricas, acreditamos na igualdade social e não queríamos morrer assim, mas em benefício de vocês e das futuras gerações, proporcionando alguma renda a esta região em que ronda a corrupção, o tráfico de drogas e o clientelismo assistencialista, todavia herdando um hábitat são.

Representamos as estradas líquidas e a população piscosa formada pelos rios de água dourada, cristalina e pretas;  pelos tabuleiros, isto é, berçários naturais de reprodução de algumas espécies; os lagos de várzeas onde pulula o Arapaima gigas, superior ao bacalhau; os de terra-firme ricos na alimentação de Tambaquis e congêneres; complementada pela Tartaruga-da-Amazônia, pelo Trichechus manatus parente do nosso inunguis que mesmo sendo primo do elefante africano, está levando a pior por aqui e  o Jacaré-açu, respectivamente, consumidos em pratos caríssimos na dieta gastronômica da classe alta baré e já inclusos no Calendário Internacional de Pesca predatória configurando-se este último, como um dos répteis mais perseguidos.

O que desejamos, adoráveis criaturas de Deus, é uma campanha para a preservação, não como se quiséssemos ser um eterno santuário ecológico, mas compatibilizando progresso com uma ética moral avançada, viabilizando o eco-desenvolvimento integrado. Como podem observar, não somos contra os governos, mas exigimos a ocupação racional das terras, a utilização sadia de nossas águas e a morte consciente de nossas vidas… com exploração racional é até um prazer morrer.

Os indígenas, nossos parentes próximos, já representaram contra a União, reivindicando o pequeno-grande mundo que lhes cercam e que também nos pertencem, cobrando do Estado a demarcação das reservas, materializando um velho sonho de tempos imemoriais e, desta maneira, mantendo a perpetuação da minoria étnica, a defesa do território e a convivência pacífica, através de um acordo de não- agressão, tendo como finalidade impedir o etnocídio dessas nações, respeitando a autodeterminação dos povos já que os caríuas sempre consideraram as populações amazônicas como tabula rasa, não levando em conta o uso do conhecimento tradicional, acumulado por esta civilização há mais de dez milênios no resguardo da vida nativa. Por isso, urgentemente, precisamos mais do que nunca costurar alianças e buscar uma rede de solidariedade.

A cultura latino-americana é,  há 500 anos, fruto da brutalidade histórica, factualizada pela burguesia, ocultando a realidade sobre a internacionalização que antecede a contemporaneidade, quando o europeu considerou, desde a invasão das primeiras tribos, os Tupiniquim e os Mura como homens hostis que necessariamente, deveriam ser, a priori, integrados pelo escravagismo e dominados pela técnica dos descimentos para receberem, respectivamente, o certificado de brancura e o diploma de civilizado, nascendo, deste tempo, a raiz da ambição, do consumismo desenfreado e da expropriação ilegal, sem que o nativo obtivesse o usufruto das riquezas e, ainda por cima, sofresse uma imoral depopulação.

E foi pela perspectiva de um regime de força que a classe intelectualizada do homo brasilis compactuou com a abertura ao grande capital, com a primazia de crescimento megalomaníaco-paquidérmico que mudaram radicalmente a bela vista destas paragens. Agora estamos convictos de que a Última Batalha do capitalismo será na Amazônia, portanto desta forma, é que foram desencadeadas ações contraditórias pelo Estado-Mor com o lema segundo o qual era melhor integrar para não entregar, no entanto, logo em seguida empregando-se o laissez-faire laissez-passe  com a inauguração de megaprojetos como Transamazônica, Fordlândia, Jari, Tucuruí, Volkswagen, Unitrop, Balbina, Calha Norte, Jaderlândia e por aí vai e a implantação da zona aqui, que é conhecida lá fora como a Ilha das Multinacionais, o paraíso fiscal centralizador dos tributos no Amazonas, na qual os trustes encontram um autêntico El Dorado dos incentivos, a olhos nus.

Uma missão importantíssima e espinhosa está em vossas mãos, meninos e meninas. Voces, como cidadãos-mirins devem organizar a sociedade  civil para a solidificação das ONGs, tendo como ponto básico a consciência individual, coletiva e planetária de salvaguardar esta parte essencial de Gaia, usando a multimídia não comprometida, para ganhar a opinião pública mundial, efetivando simpósios, congressos paralelos e alternativos, fazendo a cabeça daqueles que ainda estão recalcitrantes a lutarem contra os saques dos recursos naturais que são dilapidados do seio dos países do Terceiro Mundo, afastando o perigo do imperialismo ecológico daqui – o uso do Atlântico como estacionamento para  base de operações bélicas de uma força internacional, idêntica a do Golfo, é um fato para ser analisado com cautela –  a sangria da Economia, via dívida externa e remessa de lucros exorbitantes ao exterior, configurando-se em agiotagem e crime de usura que inviabilizam qualquer democracia. Pretendemos os ideais da Revolução Francesa de igualité, fraternité e liberté para comemorarmos, talvez, um dia, a independência político e econômica de nosso país.

As capitais regionais estão sofrendo os efeitos da metropolização, um tremendo inchaço, por causa do modelo altamente concentrador, estimulando a migração campo-cidade que, com a expansão do industrialismo de fachada, desarticulou, descontextualizando, o modo de vida dos ribeirinhos, em que o interior ficou politicamente esvaziado, atraindo para as cidades, como bem referencia Karl Marx, um exército industrial de reserva desqualificado, condição sine quan non o capitalismo vive. Consequências: inexistência de infra-estrutura, falta de saneamento básico, favelização, analfabetismo, barbárie social e maior índice de loucura do país.

Voces, meninos e meninas, como cidadão do mundo e nossos porta-vozes, devem ter em mente que povo soberano é aquele que deixa de ser massa,  como gado vacum, no curral da subserviência e, desperto desde a tenra idade, passa a interessar-se por Filosofia e Dialética, adquirindo autoconfiança para enfrentar o Tio Sam (EUA), os Tigres (Asia), o Urso Panda (Leste Europeu), e os Kutuka Jaka Kaiabiu (Japão), onde o norte da informação ainda continua sendo a melhor arma para a descolonização cultural, imposta por uma conjuntura injusta, que fere os princípios do Dirteito Internacional.

É possível fazer o  que os outros nunca tentaram realizar, ou seja, conciliar progresso e tecnologia com espaço, movimento e Homem, respeitando a unidiversidade do pensamento e promovendo uma educação holística, isto é, espiritualizada(???).

E, para acabar de completar, a ONU, subsidiada  pelos países do Primeiro Mundo, promoverá a Conferência Mundial sobre Meio Ambiente, a famosa Rio-92, que será concretizada no Riocentro, trazendo para cá centenas de chefes de Estado, 10 mil delegados oficiais de 150 países, mais ou menos 5.000 técnicos em impactos ambientais ligados a organização governamental e cerca de 20 mil ativistas das ONGs para o Fórum Paralelo que elaborarão a Carta da Terra, porém, o objetivo principal do G-7 é a legitimação do arquipélago de Abrolhos, Fernando de Noronha, mas, especialmente, o loteamento da Amazônia, tornando-a Patrimônio da Humanidade para, inviabilizada a pesquisa de solo e subsolo pelos filhos do sol, por um modo de operação diferente do cientificismo oficial, de desenvolvimento sustentado, com a tecnologia auxiliando a reforma urbana e agroecológica (eliminando o latifúndio e, por conseguinte, o feudo eleitoral, realizando um inventário florestal e faunístico, com manejo animal, monitoramento de ecossistemas, propondo a reciclagem para reaproveitamento de materiais com a concepção cabocla de quem conhece), porque senão as super potências poderão anexar-nos pela força hegemônica da ideologia dominante, tornando-nos uma colônia deles. E aí será o nosso último vagido.

Escrevemos na língua clara de vocês, cheia de ranço português, vicio alemão, gíria americana… multinacional, porem, era nosso desejo falar no dialeto comum, o Tupy-guarany bem simples, em razão de aspirarmos honrar o idioma natal, que foi suplantado por um latido. Entretanto uma das coisas mais emocionantes é ver e sentir os Sateré-mawé, os Waimiri-Atroari ou os Yanomami, cantando o Hino Nacional na língua geral ou nheengatu.

Apelamos a infância porque vocês são os pontifex, isto é, pontes sobre todas as fronteiras, os únicos élans, as últimas esperanças que ainda restam, logo não sonhamos daqui a vinte anos viver com a exigência do coração hiperatrofiado. Estamos revelando o amor, essa energia sutil e vital que dá luz a existência, necessária a todas voces.

Tomara que Deus continue abençoando os  sonhadores.

Crianças da Amazônia: Presente!

Crianças do mundo inteiro, uni-vós!

 

Saudações ecológicas.

(Artigo publicado no jornal A Crítica – Caderno Criação – p 2, de 13.02.1992, quando  coordenava a Fundação Memorial da Amazônia).

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J.R Lopes
É jornalista. Natural de Itacoatiara (AM).

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