Meu amigo Chaguinhas me relata que um cliente do Sudeste precisava de uma certidão a ser obtida junto a um cartório em Coari. Chaguinhas lhe disse que era impossível obter o documento para o mesmo dia. Não havia voo de Manaus para Coari naquela data. Perguntada a distância entre Manaus e Coari, Chaguinhas disse que não chegava a 400 km. Então o cliente pediu a Chaguinhas para mandar um carro lá. Despesas por conta dele.

Os amazonenses sabem que não há estrada de Manaus para Coari. Mas o pessoal do Sul desconhece a nossa realidade.

Certo dia, quando ainda havia horário de verão, recebi uma ligação de um call center as 6.00 horas da manhã. Argumentei o inconveniente com a atendente que, em total desconhecimento sobre fusos horários, contra argumentava:

– Mas aqui em São Paulo são oito horas senhor.

Em recente concurso público a nível federal algumas pessoas perderam a prova. O portão fechou pelo horário de Brasília.

O mundo inteiro fala sobre a biodiversidade da Amazônia. Fala-se muito sobre a riqueza de nosso ecossistema. Mas esquecem que aqui existe uma sociedade. Há indígenas, na floresta e nas cidades, há os ribeirinhos, as sociedades tradicionais. Portanto, não há que se falar somente em biodiversidade. É importante reconhecer a nossa sócio biodiversidade.

Os estatutos da ONU sobre biodiversidade preconizam que a utilização dos recursos naturais deve respeitar a cultura e os costumes das populações locais.

Foi criado um conselho para a Amazônia. Espera-se que sejam ouvidos os povos da região. Os povos da Amazônia construíram relações materiais e espirituais que se entrelaçam com esse maravilhoso ecossistema.

Há saberes, tradições, conhecimentos e uma diversidade cultural que precisa ser respeitada. Mesmo porque acredita-se que esses conhecimentos levam, ou melhor, possibilitam, a manutenção do ecossistema, a sobrevivência da floresta.   A manutenção da própria vida como um todo.

Chaguinhas e eu chegamos à conclusão de que a Amazônia é um enigma para os brasileiros do Sudeste. Eles parecem que não nos conhecem mesmo. Para decifrar esse enigma que é a Amazônia, o conselho deve privilegiar e ouvir verdadeiros amazônidas. Senão a região continuará sendo desconhecida.  E o enigma indecifrado.

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Pedro Lucas Lindoso
*Bacharel em Direito e licenciado em Letras pela Universidade de Brasília. Membro efetivo do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas. Pertence a Associação dos Escritores do Amazonas e a Academia de Letras Ciências e Artes do Amazonas. Membro fundador da Academia de Ciências e Letras jurídicas do Amazonas.

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