“O fato é que já passou da hora de os verdadeiros defensores da Amazônia saírem do imobilismo a fim de enfrentar os inimigos da região, externos e internos, que aqui se encastelam há décadas usufruindo de suas riquezas naturais sem mover uma palha para impedir a degradação da floresta e do solo”. – José Maria Mendonça, presidente do Centro da Indústria do Pará.

Publicada recentemente, a manifestação do CIP, Centro da Indústria do Pará, merece mais do que uma reflexão neste 5 de Setembro, data dos 170 anos  de Elevação do Amazonas à categoria de Província, leia-se independente administrativamente do Grão-Pará em 1850. O repúdio do setor produtivo não significa xenofobia muito menos ingenuidade ou comoção com discursos desprovidos de atitudes e compromissos. O capitalismo tem suas regras e liturgias. E negócio só é bom quando é bom pra todos. É hora de mobilização e comunhão de propósitos, de estratégias e envolvimentos operacionais com a região. Afinal, quem sabe achar caminhos, transportar ideias e produtos é quem produz riqueza e distribui oportunidades. Quantos séculos mais sofreremos e tantos revezes, para que esta Amazônia  possa integrar-se no contexto maior do país, com a proposto de edificar, em mutirão cívico, uma respeitável civilização tropical? Pode ser que o momento esteja sendo ensaiado. Sempre é bom acreditar. Obrigado

Amazônia e Amazonas 

Na cabeça de muitos “especialistas” Amazônia e Amazonas são a mesma coisa. São e não são. Amazônia é uma região, o Norte do Brasil, onde, legalmente, estão contidos 9 estados, entre eles, o Amazonas, o maior, geograficamente, do país. E sua separação do Grão-Pará não significou ruptura mas uma estratégia de defesa contra o Brasil latifundiário e escravagista do II Reinado. A Coroa não aceitava os ares liberais e libertários da região, influenciada pela Guiana Francesa, fonte de irradiação na América dos princípios de liberdade, igualdade e fraternidade da Revolução Francesa.

Alfredo Lopes ao lado de Jacques Marcovitch

Denis Benchimol Minev e Márcio Souza

Três décadas antes da separação institucional entre o Pará e o Amazonas, entre 1823 e 1840, o Grão-Pará e Rio Negro, como então se chamava a Amazônia, e sua unidade administrativa, levantou-se contra os valores escravagistas e governança do Império brasileiro, e por essa insolência foi anexado brutalmente ao Brasil, com a guerra da Cabanagem, onde cerca de 40% de sua população – mais de 60% da população masculina – e toda sua base econômica. Uma violência mais cruenta que Ruanda, Camboja ou Armênia, como anotam o economista e empresário Denis Benchimol Minev  e o escritor Marcio Souza, reportando-se aos genocídios que chocaram o Século XX. Desde lá, constrange-se a Coroa ou a República do Brasil em não assumir essa desumanidade que até hoje perdura e que nos ajuda a entender a ausência de um projeto Brasil para a Amazônia.

Nem tutores nem salvadores 

Estamos acostumados à barulheira estéril que nossa diversidade biológica provoca desde a chegada dos Viajantes Europeus em suas viagens de apropriação do bioma. Mais de 150 espécies foram levadas para o Museu Botânico da Rainha, em Londres. Não precisamos de tutores nem salvadores da pátria para gerenciar este patrimônio. Precisamos de parceiros para fazer da diversidade biológica e prosperidade social da Amazônia. E desde sempre, fazemos de conta  acreditar em promessas que aqui anunciam ao desembarcar atores messiânicos, carregados de certezas, narrativas e miragens redentoras. Alguns propõem programa sem assinar contratos de partilha ou, como fazem os rentistas, sempre ávidos de assegurar na floresta as ambiciosas taxas de juros de suas conversações. Boas-vindas aos banqueiros do Itaú, Bradesco e Santander. Aqui não abominamos riqueza, apenas sua concentração!

Qualificação, infraestrutura e desburocratização 

É curioso, e também oportuno, ver o setor privado do Sudeste, aliançado com o Sistema Financeiro privado, questionando o governo federal sobre sua política ambiental. Que levados serão deixados pelo capital especulativo numa região que precisa de investimentos sustentavelmente produtivos. Foi montado um Conselho de Notáveis, digno de orgulho local e excelente argumento para justificar o envolvimento dos nativos com a operação redentora prometida. Escolhidos como Denis Minev e Adalberto Val sabem onde precisa aportar recursos – qualificação de recursos humanos, infraestrutura de transporte, energia e comunicação e redução da cangalha burocrática – para gerar inovação e novos empreendimentos. Resta saber se serão ouvidos e atendidos.

Aniversário da fundação do Amazonas. 

Embora seja fruto da desinformação histórica é bom, para nós do Amazonas, sermos confundidos com a região. Parodiando um desejo manifestado por Paulo Guedes quando aqui esteve em agosto de 2019. “Que bom seria que todo o Brasil fosse uma imensa Zona Franca de Manaus”, podemos dizer que bom seria que toda a Amazônia fosse o Estado do Amazonas, do ponto de vista da conservação da cobertura vegetal e do modelo socioambiental de gerar riqueza pelo Programa de Desenvolvimento Regional aqui implantado há 53 anos. É uma pena que essa riqueza – autorizada pela Constituição nos 8% de contrapartida fiscal – seja confiscada pela União em mais de 50%, transformando o Estado um dos cinco no Brasil que mais recolhe recursos para a União, mesmo com 11 municípios destacados entre os 50 piores IDHs do Brasil. No baile dos 170 anos de Emancipação do Amazonas e seu pertencimento à Amazônia não é preciso mais usar tantas máscaras!!!

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Alfredo Lopes
*Escritor amazonense, com 11 títulos sobre a Amazônia, e mais de 2 mil ensaios. Formado em Filosofia com pós-graduação em Administração e Psicologia da Educação. Consultor eventual do BID, Grupo Simões, do CIEAM e diretor da FIEAM.

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