Amazônia Soul

Luiz Horta

*Luiz Horta

Restaurante serve comida paraense tradicional, tapiocas e sorvetes da lendária marca Cairu

Na semana devagar e bem parada, apesar de morar num bairro com um dos últimos ônibus elétricos que circulam em São Paulo  – o querido Machado de Assis/Cardoso de Almeida—, fiz a opção de comer a pé, em lugares em que podia chegar andando.

Há uma frase do Ivan Lessa que repito sempre (sem achar exatamente de onde, vai de memória): “A vida não é curta, a vida é perto. São alguns quarteirões e uma dezena de pessoas que frequentamos”. É meu ideal de vida.

Já explorei bem a minha região e escrevi sobre alguns lugares favoritos (o coreano Bicol, o bar Veloso, o China Garden, todos excelentes) e acabei descobrindo um de comida amazônica.

Sou grande fã de Belém do Pará, a cidade mais exótica que já visitei. Um planeta culinário totalmente separado do resto do mundo, com aqueles peixes fora do comum, as alas inteiras de farinhas do Ver-o-Peso, o tacacá quente no calor escaldante, a umidade inacreditável o tempo todo, os sorvetes de frutas misteriosas.

Estive lá só uma vez, mas o “espírito do lugar” me habitou: andar na rua, além das surpresas, era como nadar no ar quase tátil. O hotel tinha carpetes empapados de água, as mangueiras gigantescas cercando o implausível teatro, um mundo Fitzcarraldo, uma tensão meio de delírio febril.

Era um tempo pré-internet, o que tornava a viagem —ainda mais ao remoto do mundo— no limite entre civilização e selva (tenho muita imaginação). Ver um pirarucu vivo, na sua tranquilidade bovina e ancestral, boiando na Fundação Goeldi nunca me saiu da memória. Ainda não tinha reencontrado os sabores daquela viagem.

O Amazônia Soul conseguiu me tirar de São Paulo e satisfazer a vontade. Achei a comida intransigente, sem ceder aos caprichos de nosso paladar delicado. Estão lá a goma calórica do tacacá, a acidez e estranheza do tucupi, delicioso como molho para o filhote grelhado e o arroz de jambu.

A gula foi maior que o estômago e ainda dei conta de meia porção de maniçoba. Tudo de verdade, até onde posso julgar estes valores. E os deliciosos sorvetes da Cairu, casa com meio século de idade. Na sobremesa, avancei em cupuaçu (que tem gosto de gás, como as trufas), açaí e bacuri.

Se fosse considerar vinhos, nada mais inóspito para eles que a anestésica ação do jambu. O que combinar com tais pratos que reúnem tudo que repudia os vinhos? Resumi a resposta na ideia de beber portugueses da uva loureiro (explico abaixo).

Uva do Minho 

Toda uva vinífera pode alcançar grande dignidade. Por causa de vinhos feitos em grande escala, para consumo rápido, algumas variedades ficaram com fama de simples, a gamay dos Beaujolais, a bonarda argentina e a loureiro – uma das castas da região dos Vinhos Verdes portugueses, refrescantes, fáceis de beber.

Mas alguns produtores do Minho —sua origem no Norte de Portugal— tratam a loureiro com os cuidados que merece. Um deles é Pedro Araújo, da Quinta do Ameal. Curiosidade: ele é bisneto de Adriano Ramos-Pinto, que todo mundo já viu em garrafas de vinho do Porto.

Sou grande admirador de seu trabalho, um obsessivo da loureiro. Seus vinhos são todos muito bons e quase todos só de loureiro (o nome vem mesmo da folha de louro, aroma que costuma aparecer na bebida).

Cismei que os Quinta do Ameal enfrentam bem a comida paraense, pois acho que têm força para isso. Os Ameal são complexos, com corpo, traços variados que vão de mel a flor de laranja.

Uma vez, uma leitora perguntou se entrava tudo isso no líquido. Então, explico: são aromas que a garrafa aberta apresenta, a graça do vinho é esta multiplicidade de cheiros e sabores. Não é uma infusão de ervas, mas a própria uva fermentada se exibindo. E quanto mais velhos, mais deliciosos ficam.

*Cronista. Matéria na Folha de São Paulo, de 10/06/2018.
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