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*Gabriel Alves

NASA aponta que fenômeno El Niño pode ter sido o responsável pela diminuição da umidade do solo.

Na Amazônia, a previsão de falta de chuvas e a consequente secura do solo nunca foram tão extremos, mostra novo estudo. A consequência dessa combinação pode ser a maior temporada de queimadas já registradas.

A pesquisa foi comandada por pesquisadores da Universidade da Califórnia em Irvine (EUA) e os resultados se baseiam em um modelo matemático que leva em conta uma previsão meteorológica de médio prazo – de como será o tempo nos próximos meses.

Espera-se que os próximos três meses (julho, agosto e setembro) sejam particularmente secos na região. O culpado, aponta a Nasa, que disponibilizou dados para o estudo, pode ser o El Niño, fenômeno climático que bagunça também o clima amazônico.

As temperaturas anormais do oceano Pacífico entram na conta de um modelo matemático que fez disparar o alarme dos cientistas. A primeira grande estiagem desse tipo foi em 2005, e houve outra em 2010. A de 2016 promete ser a pior de todas.

Apesar da aparente periodicidade, ainda é cedo para dizer que a cada cinco ou seis anos haverá esse prognóstico de fogo na floresta.

“Por enquanto, é só um indício de que haverá um aumento da incidência de longos períodos secos”, diz o físico Paulo Artaxo, professor da USP e membro do IPCC (Painel Internacional de Mudanças Climáticas).

“Mas ainda é muito cedo para atribuir esses fenômenos às mudanças climáticas. Com três eventos em cem anos é difícil fazer estatística. Temos de esperar mais para acumular dados o suficiente para ter confiabilidade nessa associação, se é que ela existe.”

De qualquer maneira, para o professor também não é possível eliminar a possibilidade de que o aquecimento global esteja por trás da infeliz sucessão de eventos.

MATO GROSSO

No estudo americano foi calculado o risco de queimadas em dez regiões diferentes da mata em três países, Brasil, Peru e Bolívia.

Em uma escala que vai de 0 a 100, onde menos de 50 significa risco baixo e 100 é o risco máximo, em 2016 todas as dez localidades estão com risco de 92 ou mais.

O menor risco é o da região de Pando, na Bolívia (92) e o maior é o do Pará (98). Em 2015, os valores variavam entre 31 e 64 –a região boliviana tinha 33, e o Pará, 62.

A região de Mato Grosso, que sustenta o inglório título de campeã de queimadas, teve o risco aumentado de 64 para 97. Entre 2001 e 2014, Mato Grosso apresentou uma média de 46,1 mil focos de incêndio na mata por milhão de hectares (área equivalente à de um quadrado de 100 km de lado).

“Como não é possível controlar a precipitação, o esforço tem que ser na direção de controlar queimadas”, afirma Artaxo.

As queimadas são de dois tipos, explica. Um deles é aquela ligada ao desmate, em que a matéria vegetal, após secar, é queimada com o intuito de abrir espaço para pastagens ou plantações.

O outro tipo, que vem crescendo, é a queima de resíduos de plantações. No tempo seco, é fácil que o fogo se alastre, causando prejuízo à biodiversidade e lançando material particulado e gás carbônico na atmosfera, contribuindo com o efeito-estufa e o aquecimento global.

BICHO HOMEM

“Na Amazônia, todas as queimadas são produzidas pelo homem. Sem o governo presente no dia a dia, é fácil que esse número saia de controle”, diz Artaxo. “É mais do que claro que o aumento de queimadas é inversamente proporcional à fiscalização.”

Sem a proximidade do governo, além de queimadas criminosas, é possível que as regulares também saiam de controle e se espalhem, prejudicando o ecossistema.

Recentemente um estudo publicado na revista “Nature” mostrou que mesmo uma pequena intervenção humana é capaz de abalar o ecossistema da floresta tropical, desde besouros até aves.

*Jornalista. Matéria na Folha de São de São Paulo, Caderno Ciência+Saúde B8, de 11/07/2016.
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