Por seu acervo biótico, fauna e flora, pela diversidade cultural de suas etnias, pela imensidão de seus recursos hídricos, especialmente seu almoxarifado mineral incalculável, aqui vai o convite para conhecer a Amazônia, contanto que você o faça na companhia de quem aqui vive: os Amazônidas.

O debate sobre Amazônia nunca foi tão intenso. Já se fazia a hora. Em todos os sentidos todos nós ganhamos com isso na medida em que nos dispusermos a ouvir os nativos e a estudar o assunto. Assim, nos poupamos de constrangimentos públicos, afinal se trata de uma temática indiscutivelmente relevante para o presente e para o futuro do Brasil. O geógrafo Aziz Ab’ Saber, um estudioso da Amazônia, insistia em destacar que apenas 5% das espécies da diversidade biológica amazônica foi parar na bancada dos laboratórios brasileiros. Nos laboratórios estrangeiros, a conversa é outra e o percentual explica aquilo que o lendário professor Arthur César Ferreira Reis chamou de cobiça internacional. E que país é este que se recusa a mergulhar neste oceano de germoplasma – com tantas promessas de benefícios para sua gente. Estima-se que 1/5 dos seres vivos, incluindo fungos e bactérias, habitam na Amazônia, a maior floresta tropical da Terra, 60% do território nacional.

“Vamos passear na floresta enquanto…”

Por seu acervo biótico, fauna e flora, pela diversidade cultural de suas etnias, pela imensidão de seus recursos hídricos, especialmente seu almoxarifado mineral incalculável, aqui vai o convite para conhecer a Amazônia, contanto que você o faça na companhia de quem aqui vive: os Amazônidas. Conhecer a população que aqui vive, verdadeiramente interessada em se mostrar ao Brasil, Sul e Sudeste, significa prestar atenção para importância desse “último jardim do mundo”. Significa fazer do país um Brasil Amazônia, o país das águas, de muitas surpresas, oportunidades e respostas que tanto a Humanidade precisa e que muitos gostariam de chamar de seu.

Salto para o futuro

Desde Alfred Russel e Henry Bates, botânicos ingleses que mergulharam na biota amazônica a partir de 1848, espalha-se a crença de que na floresta está guardada a chave da eterna juventude, da perenidade da vida e possibilidade da saúde integral. Aliás, se podemos atribuir um epílogo ao projeto Genoma, podemos dizer que esse trabalho – do qual participaram brasileiros com vivência Amazônica – confirmou em 2003, ao sequenciar o DNA e detalhar como se dá a correção dos distúrbios que separam a vida da morte, diríamos que os dois botânicos tinham razão. O nome disso é Ciência, evolução, tecnologia da inovação, isto é, Biotecnologia. Por isso, não faz sentido falar em soberania da Amazônia se não temos condições, hoje, de desencadear esse processo de investigação e consolidação do saber. Daí, a necessidade de atrair as associações científicas e institucionais, sob a perspectiva do desenvolvimento sustentável. Eles formaram os meninos e meninas do Programa Ciência sem Fronteiras que estão à espera do Brasil escolher a Amazônia. Isso nos permitiria dar um salto firme e promissor na direção do futuro que já se ensaia, desde a invenção do microscópio eletrônico, em 1933. Aqui está o mote e a senha de uma nova civilização.

Soja e gado?

Por isso que é uma aberração derrubar e queimar a floresta para plantar soja ou fazer pasto no lugar de manejar sem desmatar e destruir esse tesouro da diversidade biológica e premissa da Bioeconomia. Temos áreas degradadas disponíveis e muita inovação tecnológica desenvolvida pela Embrapa, suficientes para oferecer alimento para o mundo inteiro. Desmatar ou queimar o acervo restante é desertificar e desidratar o bioma florestal, é reduzir ao extremo o ciclo das águas que hidrata todo o Continente, provocando desequilíbrios até a Patagônia. Lideranças do Agronegócio há muito se deram conta disso e vêem nessa depredação sérias ameaças a à sobrevivência da agroeconomia.

A economia do Amazonas

Existe uma base econômica em Manaus, capital do Estado do Amazonas, no coração da floresta, que tem produzido riqueza para promover essa mudança. Chama-se programa Zona Franca de Manaus criado em 1967 para promover o desenvolvimento regional, oferecer emprego e renda, com isso, apresentar alternativas aos demais modelos de desenvolvimento da região, alguns deles infiltrados de depredadores contumazes da floresta. Por desinformação ou má-fé, este Programa está sendo usado como bode expiatório dos equívocos da política fiscal do Brasil. Isso sim é uma fake news. Não há renúncia fiscal na floresta, há uma compensação tributária, 8% dos incentivos fiscais por sermos uma região remota. O mundo inteiro, que conhece a Amazônia e a economia sustentável do Polo Industrial de Manaus, aplaude e incentiva essa economia. Que lugar do mundo utiliza essa merreca de contrapartida fiscal para gerar mais de 500 mil empregos, financiar a maior universidade multicampi do país, a Universidade do Estado do Amazonas. O Sudeste, a região mais rica, usufrui de mais de 50% desses incentivos, sem prestar contas ao contribuinte como faz a Suframa, gestora dessa contrapartida. Infelizmente, o país em vez de abraçar a Amazônia, escolheu transformá-la em baú da felicidade do fisco. Confisca 54% da riqueza aqui gerada.

Fatos, preconceitos e boatos

Dados da Receita Federal que descrevem os gastos fiscais do Brasil dizem que a ZFM custa R$ 25 bilhões, outra legítima fake news, pois considera os recursos que o governo arrecadaria se tirasse os 8% legitimados pela Constituição para reduzir a crueldade de nossas desigualdades regionais. Não há gasto público na ZFM. Tudo fica por conta das empresas que optam trabalhar na floresta . Em 2019, as empresas da ZFM recolheram R$ 1 bilhões de IPI para a União, mais quatro bilhões por parte do Estado do Amazonas, além de aproximadamente R$ 2 bilhões para pesquisa, desenvolvimento e inovação, interiorização do desenvolvimento e custeio integral da formação acadêmica gratuita oferecida pela UEA. Ora, empresas foram chamadas pelo governo federal para gerar emprego, renda e, indiretamente, ocupar e proteger a Amazônia Ocidental. Se essas forem embora, rumarão para outros países do Continente, nunca para o Sudeste, pois declaradamente não topam pagar o custo Brasil. Ou seja, o Brasil deixaria de gerar 500 mil empregos segundo o IBGE e de recolher, de fato, R$23 bilhões.

Perfume não pode

Em tempo, os recursos para pesquisa foram historicamente aplicados em outras regiões ou recolhidos pelo Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, a despeito das oportunidades e necessidades regionais de pesquisa, fomento e novos mercados. E os recursos de Interiorização do Desenvolvimento e fomento de micro e pequenas empresas tem sido, historicamente, gastos pela gestão estadual para custeio da máquina pública. Acredite se puder!!! A propósito, o Polo industrial de Manaus fabrica tanques de combustível para motocicletas e tem mais de 20 empresas no segmento de Duas Rodas, além do Polo Eletroetrônico, o maior da América Latina, de Informática, Concentrados, entre outros. Enquanto isso, a floresta, mais de 95% conservada em sua cobertura vegetal original, fábrica também oxigênio para ajudar o Clima, pois fixa 200 bilhões de toneladas de carbono da atmosfera, hidrata o Continente e tem respostas robustas para o Brasil e para a Humanidade. Felizmente, a Constituição Brasileira, que nos ampara como economia estratégica para proteção da Amazônia, não permite contrapartida fiscal para produção de armas e munições, cigarros, carros de passeio, bebidas alcoólicos e perfumes. Não nos levem a mal, não fabricamos perfumes…

 

*Alfredo é filósofo e consultor do CIEAM, Centro da Indústria do Estado do Amazonas. Texto em parceria com Jorge Nascimento Júnior, presidente da ELETROS, Associação Nacional de Fabricantes de Produtos Eletroeletrônicos

II

O que é Manejo Florestal Sustentável

Assim, o manejo florestal sustentável é a forma para cuidar e utilizar a floresta para que continue crescendo e produzindo todos os bens e serviços florestais que possam ser explorados nesta área.

Manejo Florestal Sustentável é a administração da floresta para obtenção de benefícios econômicos, sociais e ambientais, respeitando-se os mecanismos de sustentação do ecossistema objeto do manejo e considerando-se, cumulativa ou alternativamente, a utilização de múltiplas espécies madeireiras, de múltiplos produtos e subprodutos não-madeireiros, bem como a utilização de outros bens e serviços florestais.

Explorar produtos e serviços florestais em áreas tropicais, é uma tarefa de elevada complexidade e, de fato, a ciência ainda não avançou o suficiente para responder a muitas questões envolvidas neste tema. O maior desafio da conservação das florestas tropicais é o manejo sustentável dos recursos, ou seja, explorá-los de uma forma tão meticulosamente planejada que esta exploração não afete a biodiversidade existente.

A aplicação das técnicas de manejo florestal busca reduzir os impactos da exploração e garantir a sustentabilidade da produção florestal por meio do planejamento da colheita e do monitoramento do crescimento da floresta.

Dessa forma, o manejo se baseia nos princípios de distúrbios naturais, que estão ligados à dinâmica de mosaicos de florestas secundárias, de forma que as florestas manejadas devem seguir uma evolução semelhante às florestas originais.

Assim, o manejo florestal sustentável é a forma para cuidar e utilizar a floresta para que continue crescendo e produzindo todos os bens e serviços florestais que possam ser explorados nesta área.

Um sistema de manejo envolve múltiplas atividades inter-relacionadas, como os processos de colheita de produtos florestais madeireiros e não-madeireiros, os tratamentos silviculturais e o monitoramento da floresta remanescente, visando melhorar sua qualidade, produtividade e, sobretudo, perpetuá-la.

A eficiência e sustentabilidade do manejo das florestas tropicais naturais estão associadas à qualidade das operações de colheita da floresta e dos tratamentos silviculturais, bem como à conservação da base de recursos florestais que lhes dão sustentações ecológica, econômica e social.

O primeiro passo para a exploração da área é a elaboração do Plano de Manejo Florestal Sustentável (PMFS), o qual pode ser interpretado como um plano do uso sustentável da floresta. Nele, são apresentadas as técnicas florestais para a extração dos produtos e/ou uso dos serviços florestais, estabelecendo como será feita a administração e o gerenciamento da atividade, sempre optando pela escolha de técnicas que causem o mínimo de danos ambientais e os maiores benefícios para a floresta e para os trabalhadores.

Plano de Manejo Florestal Sustentável

A aplicabilidade de um plano de manejo está relacionada diretamente ao conhecimento da composição florística, da estrutura fitossociológica e das distribuições diamétrica e espacial das espécies.

É fundamental integrar esses conhecimentos para manejar a floresta para uma estrutura balanceada que possibilite harmonizar os conceitos de fitossociologia, produção sustentável de madeira e as regras impostas pela legislação florestal e ambiental.

Os responsáveis pela colheita devem considerar o aspecto social da floresta e as práticas de regeneração, além da biodiversidade para que o manejo sustentável das florestas naturais se mostre passível de ser alcançado.

De forma geral as Unidades de Manejo Florestal, tecnicamente manejadas, vem adotando ações a partir da investigação ecológica e silvicultural como a extração de baixo impacto, parcelas permanentes, modelo de crescimento, ciclo de corte com base no crescimento diamétrico e corte de cipós.

Para saber mais: Manejo Florestal Comunitário

Assim o plano de manejo florestal transforma-se gradualmente numa ferramenta de manejo em substituição a um simples requisito oficial. Comunidades, indústrias e governos têm apresentado interesse crescente na promoção de sistemas florestais que incluam, além da exploração madeireira, produtos e benefícios derivados das florestas de forma a conservar os ecossistemas.

O conceito de Manejo Florestal passa assim a resgatar a atividade do homem e das futuras gerações com base no desenvolvimento sustentável, indo além do fluxo contínuo de produtos através dos tempos.

Vantagens do Manejo Florestal

O principal objetivo do Manejo Florestal Sustentável é manter a floresta viva. Para isso, a técnica procura explorar os recursos da natureza da forma menos invasiva e destrutiva, causando o mínimo de impacto ambiental. Isso porque a floresta é de extrema importância para diversas atividades econômicas, e sua exploração inadequada é refletida na extinção desses recursos naturais. Dentre as principais vantagens, podemos citar:

  • Continuidade da produção: o manejo garante a produção de madeira em uma área de floresta por tempo indeterminado;
  • Rentabilidade: o manejo gera benefícios econômicos que superam os custos, principalmente em função do aumento da produtividade do trabalho e redução de desperdícios;
  • Segurança de trabalho: os riscos de acidente de trabalho são reduzidos a partir do momento que são atendidos os pressupostos do uso sustentável de um maciço florestal, quando comparado à exploração tradicional da floresta;
  • Respeito à lei: como o manejo florestal é obrigatório por lei, a sua não execução expõe as empresas a diversas penalidades;
  • Oportunidades de mercado: a exigência de certificação da madeira para atingir o mercado internacional de forma efetiva, faz com que as empresas que praticam manejo florestal tenham maior facilidade de acesso aos mercados, especialmente o europeu e o norte-americano;
  • Conservação florestal: a cobertura florestal é garantida através do manejo, mantendo a diversidade vegetal original e reduzindo impactos ambientais sobre a fauna quando comparado a exploração tradicional;
  • Serviços ambientais: florestas manejadas contribuem para o equilíbrio do clima regional e global, principalmente pela manutenção do ciclo hidrológico e pela retenção de carbono.

Fonte: Mata Nativa

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Alfredo Lopes
*Escritor amazonense, com 11 títulos sobre a Amazônia, e mais de 2 mil ensaios. Formado em Filosofia com pós-graduação em Administração e Psicologia da Educação. Consultor eventual do BID, Grupo Simões, do CIEAM e diretor da FIEAM.

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