“Dou o exemplo de quatro cadeias produtivas que trabalhamos hoje: do pirarucu, do cacau, do açaí e da castanha do Brasil, ou do Pará. Essas cadeias estão relativamente organizadas e têm uma produção significativa de recursos. Elas podem representar o começo efetivo de plataformas de negócios e oportunidades com possibilidades excelentes de geração de emprego.“

Adalberto Val

A equipe do Portal BrasilAmazoniaAgora, um semana antes do isolamento social provocado pela pandemia da Covid-19, março deste ano, teve o privilégio de conversar longamente com o cientista Adalberto Val, pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) – nascido em São Paulo porém, com muita honra, cidadão amazonense, como gosta de enfatizar, e relatar suas descobertas na floresta. Naquele encontro, planejamos algumas iniciativas de aproximação com os diversos segmentos da sociedade, notadamente o setor produtivo e as instituições acadêmicas que, certamente , serão retomada. A intenção é formular algumas de um “Pensamento-Amazônia”, capaz de conceituar alguns pressupostos, premissas e linhas de abordagem que pudessem orientar ações de médio e longo prazo, considerando as potencialidades e fragilidades de nossa diversidade biológica e de seus sinalizações para o empreendedorismo responsável.

Revisitar Samuel Benchimol

É bem verdade que essa inquietação moveu, lembrou o cientista, o trabalho diuturno de Samuel Benchimol que, como ninguém, soube dar números e cenários do que ele próprio denominou de Desenvolvimento Sustentável da Amazônia. Revisitar esse almoxarifado desconhecimentos é uma imposição/obrigação natural de quem aqui vive e compreende a delicadeza e a proeza de se movimentar nessa relação sagrada e promissora entre Antropologia, Biologia e Ética na floresta. Muitos de seus 115 títulos estão disponíveis na web, bem como um grande número de artigos, teses e dissertações.

Ciência, economia e academia.

Essas considerações ajudam a entender a importância de ouvir e interagir com Adalberto Val, quando o tema percorre as questões cruciais do desafio Amazônia, o papel da Ciência e a necessidade da Economia para encaminhar questões como segurança alimentar, os desafios da pesquisa, quem paga e quem prioriza, o papel do poder público e o sentido da criação e atuação, por exemplo, do Conselho da Amazônia, sua interlocução e a necessária consideração dos saberes locais, sejam acadêmicos, das populações tradicionais, dos gestores púbicos e dos empreendedores e trabalhadores da sociedade organizada. São múltiplas as Amazônias e são preciosas as informações consolidadas a seu respeito.

Ciência, uma atividade social

“A ciência é uma atividade social com fins sociais”, insiste o pesquisador em sua rotina de vasculhar o bioma Amazônia, ao falar sobre a necessidade de não apenas se produzir conhecimento, mas também de se proporcionarem estruturas para levar o conhecimento ao processo produtivo. Segundo o cientista, que há 40 anos produz ciência na Amazônia, a segurança alimentar, um dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável do planeta, passa necessariamente pela diversidade biológica amazônica.

Pirarucu, cacau, açaí e castanha do Brasil 

A maioria do que está escondido na floresta pode ter repercussão em grande escala. “Dou o exemplo de quatro cadeias produtivas que trabalhamos hoje: do pirarucu, do cacau, do açaí e da castanha do Brasil, ou do Pará”. Essas cadeias estão relativamente organizadas e têm uma produção significativa de recursos. Elas podem representar o começo efetivo de plataformas de negócios e oportunidades com possibilidades excelentes de geração de emprego.

Adalberto Val é biólogo, com pós-doutorado na Universidade da Columbia Britânica, Canadá, estuda adaptações biológicas às mudanças ambientais, tanto aquelas de origem natural como aquelas causadas pelo homem. No INPA-MCTI desde 1981, tendo dirigido a Instituição de 2005 a 2014, envolveu-se com análises das necessidades da Amazônia relacionadas a educação, ciência, tecnologia e inovação.

Pesquisa, desenvolvimento e mercado

Adalberto Val reflete sobre os paradoxos da pesquisa que, em quase 70 anos de existência do INPA, não conseguimos mobilizar a atenção do poder público para tirar das coleções das prateleiras, dos acervos preciosos do Inpa em direção ao mercado. Ele próprio tem uma trajetória de pesquisador capaz de oferecer as grandes soluções de que precisamos para uma economia pesqueira robusta no Estado. “Cientista tem que fazer Ciência mas tem que estar aberto para a interlocução construtiva. Ele não entende de gestão de negócios mas pode contribuir para sua formatação”. Falta-nos a cultura do mutirão, onde interagimos entre as áreas e geramos soluções conjuntas do interesse geral, completou.

Decodificar e dominar a informação

É preciso decodificar o conjunto de informações que existe sobre a floresta e estimular a inclusão social. “Se nós não quisermos ver as riquezas da Amazônia sendo usadas por estrangeiros, essas informações nós precisamos produzi-las e dominá-las. Uma política voltada para isso seria mais eficiente do que derrubar a floresta.” Enquanto o investimento em ciência e tecnologia for limitado, ou subestimado – o que não ocorre só nesse governo, mas há anos -, será muito difícil, porque dependeremos de pesquisas feitas em outros lugares. É importante capacitar e fixar pessoal na Amazônia. Ter polos tecnológicos em diferentes lugares da Amazônia, porque ela é diversa. Precisamos ter soberania de conhecimento sobre a região. O vasto conjunto da Amazônia que está no nosso território nos impõe isso. Precisamos conhecer o que está dentro dela, porque o que tem de potencial tem também de perigo: novos vírus e bactérias.        

“Os meninos do Norte”

“Capacitar pessoal não é só em São Paulo, não é só no Rio de Janeiro, a massa cinzenta dos nossos meninos do Norte não é diferente dos meninos de nenhum lugar do mundo.” Sobre o Conselho da Amazônia, o pesquisador pontua: “A Amazônia não pode ser tratada em vários escaninhos ao mesmo tempo – a ideia de criar um conselho único me parece um caminho adequado, ,as uma das linhas transversais tem que ser ciência e tecnologia, e a outra tem que ser educação”. “Falta uma visão de país, falta uma visão integrada de país. Precisamos olhar com outros óculos a região norte do país.”

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Alfredo Lopes
*Escritor amazonense, com 11 títulos sobre a Amazônia, e mais de 2 mil ensaios. Formado em Filosofia com pós-graduação em Administração e Psicologia da Educação. Consultor eventual do BID, Grupo Simões, do CIEAM e diretor da FIEAM.

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