“Ford entendia de automóveis, mas nunca prestou atenção nas vantagens que poderia auferir se contratasse Biólogos, Químicos e Geneticistas. Além disso, não respeitou o imperativo cultural da boa interlocução com os nativos, que poderiam recomendar os cuidados cruciais no plantio.”

Faltou Ciência e vontade política do governo brasileiro para viabilizar o projeto do americano Henry Ford na Amazônia há quase 100 anos. Empreendedor ousado, que começou a fabricar automóveis em 1888, aos 25 anos, um businessman visionário, Ford era demasiadamente apressado. Suas fábricas batiam seguidos recordes de rapidez na fabricação de automóveis. Afobado, também, para superar a produção inglesa de borracha em seus domínios asiáticos – os espiões da Coroa Britânica surrupiaram as sementes de seringueira da Amazônia – Ford não compreendeu as leis da floresta, seu ritmo e protocolos inusitados e específicos. Perdeu a batalha contra o fungo Microcyclus ulei, que se prolifera em alguns projetos de cultura extensiva de determinadas espécies na Hileia. Tivesse a primazia de contar com técnicos da Embrapa, criada infelizmente meio século depois, sua equipe não teria saído da floresta com a cabeça baixa do fracasso.

Paradigmas boreais não são tropicais

O sonho americano da Amazônia ganhou consistência com a construção uma cidade transplantada do Meio Oeste, onde impera a arquitetura cape cod, trazida pelos colonizadores ingleses para o interior dos Estados Unidos. Para tanto, trouxe mão-de-obra de toda a América, com técnicos e peões de diversas regiões do Brasil, incluindo São Paulo, onde iniciou a fabricação de automóveis em 1921. Na ocasião, Ford – que nunca esteve na Amazônia com medo das doenças tropicais – comprou 15 mil Km2 na região de Santarém, no Vale do Rio Tapajós, onde iniciou plantação de seringueiras para abastecer suas fábricas de borracha para produção de pneus. Duas décadas depois, sem investir em pesquisa científica para combater o poderoso fungo, com produção de borracha próxima a zero, Henry Ford III, o neto, fez um acordo com o governo brasileiro, pelo qual foi indenizado e com sua metodologia aloprada bateu em retirada…

Por que Ford fracassou?

Os ingleses levaram 70.000 sementes de seringueira da Amazônia. Antes, porém, de levarem o tesouro  para os domínios britânicos nos trópicos asiáticos, passaram por Londres, para entregar as sementes aos melhoristas, categoria de pesquisadores que aprimoravam a qualidade genética das mudas. A Coroa havia mandado construir no Museu Botânico de Kew Gardens uma réplica da floresta amazônica, com todos os protocolos de umidade e temperatura. Não deu outra. As mudas já foram turbinadas para Malásia, Birmânia entre outros domínios, em condições ideais de produtividade e eficiência. O Instituto Agronômico de Campinas, em SP, fez o mesmo processo e hoje vende mudas para os seringais do Noroeste paulista, onde a Hevea brasiliensis começa a ganhar o topo do ranking da produção mundial de borracha. Enquanto isso, o Laboratório de Nanotecnologia da Embrapa Instrumental de São Carlos-SP promove modificações nanomoleculares para produzir mudas de seringueira sob encomenda da indústria de pneus, preservativos e artefatos de manuseio hospitalar. Com um detalhe: o material genético procede dos seringais do Alto Rio Juruá, onde ainda vicejam as espécies mais robustas de seringueiras da Amazônia.

De costas para a Ciência

Ford descuidou da pesquisa botânica. A falta de investimentos em Biologia, Química e Agronomia fez com que a racionalidade do plantio extensivo em vez de desaguar na produtividade de látex, provocou a contaminação intensiva e em cascata das seringueiras. Ford entendia de automóveis mas nunca prestou atenção nas vantagens que poderia auferir se contratasse Biólogos, Químicos e Geneticistas. Além disso, não respeitou o imperativo cultural da boa interlocução com os nativos, que poderiam recomendar os cuidados cruciais no plantio. Pelo contrário, a cultura das linhas de produção imposta pelo paradigma Ford fez com que os colaboradores se transformassem em rancorosos opositores. Em pouco tempo, com uma produtividade 500% maior que os seringueiros do Ciclo da Borracha na Amazônia, os “coronéis de barranco” ingleses eram a sensação mundial na Bolsa de Mercadorias de Londres. Ao mesmo tempo, a metodologia arrogante de Henry Ford de empreender na Amazônia “revelou sua enorme ingratidão”, com resultados minguados, pra não dizer ridículos.

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Alfredo Lopes
*Escritor amazonense, com 11 títulos sobre a Amazônia, e mais de 2 mil ensaios. Formado em Filosofia com pós-graduação em Administração e Psicologia da Educação. Consultor eventual do BID, Grupo Simões, do CIEAM e diretor da FIEAM.

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