“O que sucedeu, nem eu mesmo queria acreditar, é que um jovem senhor, fugindo da perseguição do governo e escapando dos grandes centros comerciais e da sede do poder político e cultural que era o Rio de Janeiro, foi obrigado ase embrenhar pelo Norte e acabou trancafiado em cadeia comum, tendo outros dois presos por companhia”

Espero que o leitor desculpe o trocadilho e entenda os fatos tal como efetivamente aconteceram ao tempo em que Manaus estava esvaziada, principalmente pela perda das libras esterlinas que, a partir de 1920, saíram de vez de circulação, quando o preço da borracha no mercado internacional foi ficando cada vez mais aviltante.
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Não se tratou de relação amorosa entre presidiários ou de algum escândalo motivado por paixão ardente de casais.

O que sucedeu, nem eu mesmo queria acreditar, é que um jovem senhor, fugindo da perseguição do governo e escapando dos grandes centros comerciais e da sede do poder político e cultural que era o Rio de Janeiro, foi obrigado a se embrenhar pelo Norte e acabou trancafiado em cadeia comum, tendo outros dois presos por companhia.

Verdade que eu sabia de parte dessa história, mas acabei confirmando as dúvidas que carregava comigo desde as conversas que tive com um prezadíssimo amigo que, apesar da minha insistência de jovem rapaz, não quis revelar a façanha por inteiro deixando muitas perguntas no ar.

Tratou-se de coisa inédita e impossível de imaginar na atualidade: contrabando literário.

O caso é que, em plena ditadura de Vargas alguns escritores famosos tiveram seus livros apreendidos e queimados em via pública, de forma dantesca, em triste espetáculo que só a censura, dura e crua, poderia ensejar aos olhos de brasileiros famintos de educação, muito mais famintos do que agora.

Por mais incrível que pareça, o que diziam os áulicos varguistas é que havia um plano subversivo segundo o qual os comunistas iriam tomar o poder no Brasil.

Com isso sendo espalhado como rastilho de pólvora, Getulio não titubeou. e, fechando o Congresso, cancelou as eleições que estavam prestes a ser realizadas e decretou o Estado Novo, ficando com mais liberdade para fazer de tudo para manter-se à frente da chefia da Nação.

No campo da literatura Jorge Amado, José Uns do Rego e Graciliano Ramos foram os mais visados.

De Amado sobrou fogueira para o seu “Capitães de Areia” que se tomaria ícone da literatura brasileira.

Tudo isso ocorreu quando o autor estava em viagem internacional pelas Américas e, ao aportarem Belém do Pará, voltado de sua viagem aventureira, foi avisado por Dalcídio Jurandir que deveria fugir para o exterior e logo cuidou de conseguir um passaporte da Colômbia.

O fato é que Jorge tentou escapar, mas foi retido em Manaus e acabou no xilindró.

Na cela em que ficou “guardado” para atendera política de Vargas e ao Estado Novo por ser comunista e autor delivro tão conspirador (?) quanto “Capitães de Areia”, Jorge Amado teve a companhia de mais dois presos políticos, entre eles o indigenista Manuel Nunes Pereira e um comerciante português cujo pecado era ser sogro de um militante da Intentona Comunista. Enquanto esperava a soltura que tardava, Jorge andou sabendo das conversas do carcereiro que ganhava dinheiro vendendo seu livro às escondidas.

Ao mesmo tempo provava da boa comida que a família do portuga costumava levarem marmitas, todos os dias.

Cansou de ouvir altos gritos que chegavam das ruas: eram os integra listas que na porta da chefatura ameaçando matar os comunistas.

No meio da turumbamba acabou pedindo ao delegado que, ao menos por piedade, mandasse levar os presidiários ao médico.

Com isso, parece que Jorge conquistou a simpatia do chefe de polícia que, sem saber ao saber a causa da sua prisão, mandou transferi-lo para um hotel sob a vigilância de um velho guarda civil, e, pouco depois, providenciou sua transferência para o Rio de Janeiro, no navio Pedro li, muito bem vigiado.

Eis como o amado Jorge Amado do Brasil, acabou na cadeia aqui em Manaus.

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Roberio Braga
*Amazonense de Manaus. Historiador. Bacharel em Direito, especializado em Direito Agrário, pós-graduado em Administração de Política Cultural e Mestre em Direito Ambiental. Professor da Escola Superior da Magistratura do Amazonas e da Universidade do Estado do Amazonas. Ex-presidente da Academia Amazonense de Letras e do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas. Ex-Secretário de Estado de Cultura, desde 1997 até 2017 e atual Presidente da Academia Amazonense de Letras.

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