Sempre ouvi, em minha casa e por onde andei ainda bem jovem, referências elogiosas à inteligência, à honradez e ao caráter de Álvaro Maia. Anos mais tarde me entusiasmei com suas poesias, ensaios e romances, e fui descobrindo, a cada conversa nova com os mais velhos, um outro Álvaro, como destacava padre Nonato Pinheiro em alongadas palestras no Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas, quando o tempo parece que não corria com tanta rapidez.

Há alguns anos, voltado para conhecer um pouco mais e melhor dessa figura exponencial das letras e da política, e atendendo orientação de minha mãe e mestra Sebastiana Braga, organizei com todo o esmero o Memorial “Álvaro Maia”, ancorado em imóvel municipal e sob a administração desse ente federativo, o qual, infelizmente, teve vida curta desperdiçando o acervo que ali foi reunido à custa de coleções particulares de pesquisadores e amigos do velho Tuxaua, como ele era chamado. Felizmente guardei cópia de grande parte dos documentos expostos, do projeto e de fotos.

Sentindo que estou a dever estudo mais amplo sob a vida do ilustre filho de Humaitá, não parei de pesquisar e reunir informações, documentos, livros, fotos e tudo o mais que possa. E eis que, de sua própria autoria me chegou às mãos por nobre amigo o folheto intitulado “Em minha defesa”, de 1931, no qual Álvaro abre a sua vida nas páginas de jornal de Manaus, e conta tudo, com detalhes, do que havia sucedido com ele até então. E descreve como teve início a sua carreira de governante do Amazonas, inicialmente como Interventor Federal, após a Revolução de 1930.

Curioso e verdadeiro o passo a passo daquela primeira nomeação, após ter aceito assumir o cargo de diretor da Instrução Pública (atual Secretário de Educação) ao tempo da Junta de Governo Revolucionário de 1930 no Estado, confiando na seriedade do coronel Pedro Henrique Cordeiro Jr. O período era difícil. A transição política não se efetivaria com o triunvirato revolucionário, logo sucedido pelo tenente-coronel Floriano Machado chegado a Manaus com a missão de dar conclusão ao processo de transformação estadual e afastamento das velhas lideranças. Como assistente de Machado estava o capitão Francisco Távora, empenhado nos mesmos propósitos.

Foi então constituído um verdadeiro complô a favor de Álvaro, reunindo Floriano Machado, Francisco Távora, Fernandes Távora que era interventor federal no Ceará e Samuel Uchoa, chefe de serviços de saneamento no Amazonas, os quais se empenharam em credenciar o caboclo do Rio Madeira junto ao então poderoso general e chefe das operações revolucionária no Norte do País, Juarez Távora, que terminou por indicá-lo ao presidente Getulio Vargas, chefe do Governo Federal, para Interventor do Amazonas. Juarez foi poderoso entre os poderosos, especialmente no Norte do Brasil, tendo sido também Ministro dos Transportes (em dois governos), Ministro da Agricultura e Chefe do Gabinete Militar do Presidente da República.

A respeito, Álvaro afirmou com clareza: “Não pedi esse lugar, que me não causa o menor deslumbramento. Tendo sido nomeado, obedeço unicamente às ordens do dr. Getulio Vargas e do general Juarez Távora, cumprirei o meu dever, sem ódios nem vinganças”. E foi assim, sem ódio nem vinganças que Álvaro atravessou a vida, mesmo quando os adversários políticos o agrediam e o feriam fundo, firmando-se, sem dúvida, como líder e humanista.

A carreira política de Álvaro Botelho Maia seria longa e frutífera, embora muitas vezes injustiçada e incompreendida.

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Roberio Braga
*Amazonense de Manaus. Historiador. Bacharel em Direito, especializado em Direito Agrário, pós-graduado em Administração de Política Cultural e Mestre em Direito Ambiental. Professor da Escola Superior da Magistratura do Amazonas e da Universidade do Estado do Amazonas. Ex-presidente da Academia Amazonense de Letras e do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas. Ex-Secretário de Estado de Cultura, desde 1997 até 2017 e atual Presidente da Academia Amazonense de Letras.

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