Manaus vem de antes, antes de Barra do Rio Negro, traduzida pelo sentimento e culturas de muitos povos que nos antecederam e que (…) têm muita história pra contar em páginas que estão sepultadas.

Não se trata de destacar a topografia da cidade ao longo dos anos de civilização de modelo europeu. Manaus vem de antes, antes de Barra do Rio Negro, traduzida pelo sentimento e culturas de muitos povos que nos antecederam e que, enriquecidos ao longo de séculos, têm muita história pra contar em páginas que estão sepultadas, em sua grande maioria, nas terras pretas desse mundão amazônico.

Com a disputa da Barra por grupos estrangeiros os portugueses resolveram se apossar e sediar um forte abençoado por São José, em derredor do qual se reuniram brancos e índios, uns se defendendo dos outros, especialmente de holandeses, franceses, ingleses e de outros grupos indígenas que se aproximavam. Forte não deveria ser a denominação aplicada, pela fragilidade da construção, as poucas armas e o reduzido número de militares. Era mais a presença militar.

Em derredor dele cresceu a localidade da Barra. E foi subordinada a Barcelos e a Serpa. Lobo d´Almada transferiu a capital, promoveu mudanças radicais e propôs um desenvolvimento importante para o lugarejo com fábricas, repartições, enfermaria e muitos melhoramentos impensáveis naquela época. Foi tempo de bonança na pequena região.

Quando tudo parecia prosperar, deu-se a flor e o brigadeiro português foi demitido e a capital retornou para Barcelos. Novos tempos viriam anos mais tarde apesar das disputas políticas pelo poder. Embates e combates. Alguma diferença deu-se com a notícia da independência do Brasil aqui chegada em novembro de 1823. Ares renovados somente a partir de 1852 com a posse do presidente da Província, tornando-se capital e sede do governo, com organização urbana ainda a desejar. De qualquer modo, eram novos tempos, novo ciclo se anunciava, mas este somente seria configurado do ponto de vista econômico pelos anos 1880 com a pujança da borracha, a abolição da escravatura negra (paga pelo governo), os novos modelos de organização urbana que começaram a ser desenhados.

Impulso gigantesco e ciclo digno de nota deu-se com Eduardo Ribeiro, e ninguém consegue negar, logo depois da República, apesar das acirradas lutas políticas e militares, das desavenças entre as oligarquias locais, quando a cidade foi inteiramente transformada e organizada com ares de capital, prédios suntuosos, ruas novas, avenidas largas, rede elétrica, bondes; água encanada, aterros e desaterros, Teatro Amazonas erguido, pujança sobre pujança.

A perda do território do Acre pelo qual o Amazonas lutou, gastou e defendeu, ajudaria a abater a economia. Os assaltos aos cofres públicos cresciam na proporção em que a receita oficial também crescia. O que parecia ser eterno – dias e noites de euforia na Paris dos Trópicos – começou a bater água como velho batelão e· a cidade se esvaziando. Mesmo assim as oligarquias sangravam o que podiam por meio de empréstimos estrangeiros. A queda foi brutal, quase vira uma cidade fantasma.

Depois disso anos e anos de marasmo, solidão, sofrimento, mas tínhamos uma cidade ordenada sob todos os pontos de vista, apenas sem acenar bom futuro para seus filhos. Assim ficamos até, 1946 às custas da indenização do Acre, com o aceno do desenvolvimento previsto na Constituição pela luta de Leopoldo Péres (o tio). Nada ou pouco restou. Mais tarde o sonho do porto livre, com Pereirinha, em 1957, engavetado até 1967, e então, tudo de tudo surgiu com a Zona Franca, o Polo Industrial e o comércio lojista. Pouco depois começaram novos altos é baixos que não pararam mais, dia após dia, cada vez uma nova ameaça ao pão nosso de cada dia: a zona franca.

E assim vamos, de vez em quando, sofrendo na carne, desde o começo antes do começo como nossos ancestrais mais distantes dos barés, passes e manáos, em uma gangorra sem fim, da Paris dos Trópicos à cidade sorriso e do encanto, a das palhas, das palafitas, das casas flutuantes, mas também a cidade da esperança e do sonho que não se abalam em quem vive e ama Manaus.

Por entre altos baixos, lá vamos nós adiante.

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Roberio Braga
*Amazonense de Manaus. Historiador. Bacharel em Direito, especializado em Direito Agrário, pós-graduado em Administração de Política Cultural e Mestre em Direito Ambiental. Professor da Escola Superior da Magistratura do Amazonas e da Universidade do Estado do Amazonas. Ex-presidente da Academia Amazonense de Letras e do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas. Secretário de Estado de Cultura, desde 1997 até esta data.

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