“Essa frase surge diante da necessidade imediata de que alguém seja capaz de se apresentar como uma voz altiva e harmoniosa para baixar a ebulição.

O que tenho visto e lido em meio a essa pandemia sem fim no que diz respeito ao campo da política nacional, traz-me à mente, de forma clara, o antigo dito popular que ouso relembrar ao leitor o qual ouvi muitas vezes em diversas ocasiões, desde o meu tempo de menino, e era muito usado quando os antigos queriam dizer que tal ou qual providência que haviam tomado, teria sido capaz de por fim a um grave problema ou a uma intensa perturbação social e político-partidária: “foi água na fervura”.

Cheguei a ouvir essa expressão em política estudantil, jogo de futebol, brincadeira de pa pagaio de papel, disputa de time de botão de caroço de tucumã, peleja de bolinha de gude, briga de vizinhos, porém, escutei muito mais vezes quando comecei a atuar nas campanhas políticas, e, em outro tempo, no curso de mandato parlamentar quando era dito quase entre dentes toda vez que se conseguia um acordo para votação de determinado projeto de lei em relação ao qual os debates estavam acirrados e, de repente, surgia uma brecha para solucionar o impasse e atender os interesses em disputa, ainda que mais ou menos, mediante con cessões de parte a parte.

Essa frase simbólica surge diante da necessidade imediata de que alguém – ou “alguéns”, como dizia certo amigo metido a sabidão, com pompa e circunstância, seja capaz de se apre. sentar como uma voz altiva e harmoniosa para baixar a ebulição desse caldeirão que parece estar fervendo em fogo alto demais, isso para que possamos continuar caminhando com a mínima harmonia em meio a uma democracia jovem, mas que segue resistindo, pelo menos até agora.

É bom saber que as instituições oficiais persistem comprometidas com os princípios constitucionais, muito embora haja, quando em vez, escorregões naturais que sempre ocorrem em todo e qualquer processo sujeito à compreensão humana, posto que nem todos os que se encontram em posição de mando, de disputa ideológica, política e econômica, nem todos firmam sintonia na mesma tecla, cantam na mesma nota ou se empenham em entender o alcance dos papeis que lhes cabe executar, sem prejuízo das responsabilidades e do papel de outrem.

O que parece haver é a ausência retumbante de uma voz que se agigante com autoridade histórica, isenção e equidistância suficientes de modo a convencer os atores do momento, com gênios, vaidades e ânimos inflamados, a permitirem que se ponha água nesta fervura antes que tudo se esgarce de vez e tenhamos qualquer retrocesso ou quebra de confiança democrática, em razão do qual todos venhamos a sofrer consequências danosas, no presente e no futuro.

Quando a água ferve em demasia, sem qualquer controle da temperatura ou sem que um bombeiro atue de forma eficiente derramando água fria sem parar, o que se vê, sem sombra de dúvida, desde os tempos mais remotos, é a explosão do caldeirão sem que se tenha conhecimento prévio para onde a tampa da panela vai virar nem em que direção vai explodir. Mesmo em ocasiões dessa natureza o fogaréu dessa dinamite não há de interessar a ninguém, por mais incendiário que seja qualquer dos personagens ou que assim possa parecer aos olhos dos leigos em política e em ciências sociais e jurídicas, pois sabem que sempre há uma trilha que nos permita reduzir as tensões e baixar o fogo.

Está mais do que na hora de colocar água na fervura.

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Roberio Braga
*Amazonense de Manaus. Historiador. Bacharel em Direito, especializado em Direito Agrário, pós-graduado em Administração de Política Cultural e Mestre em Direito Ambiental. Professor da Escola Superior da Magistratura do Amazonas e da Universidade do Estado do Amazonas. Ex-presidente da Academia Amazonense de Letras e do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas. Ex-Secretário de Estado de Cultura, desde 1997 até 2017 e atual Presidente da Academia Amazonense de Letras.

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