*Luciano Melo

Compreender a peculiaridade dos cérebros de homens e mulheres pode ajudar a entender como as doenças mentais os atingem de formas diferentes.

Os meninos se engalfinham em competições físicas, mas apenas se não estiverem aos videogames. As meninas fantasiam a vida adulta em brincadeiras com roteiro. Eles leem histórias de guerreiros em cenários futuristas e elas, histórias de ação menos intensa. Essas diferenças são reais ou seriam meros erros de minha limitada observação? Esses comportamentos estereotipados são induzidos pela sociedade ou são frutos de um determinismo biológico?

Um estudo de MadhuraIngalhalikar que utilizou uma técnica especial de ressonância magnética provou que o cérebro de meninos e meninas seguirão caminhos distintos durante o desenvolvimento ruma à vida adulta.

Ao término da adolescência, cérebros masculinos terão mais conexões que unem as diferentes partes do mesmo hemisfério cerebral. Desta forma, haverá benefício em conjugar regiões encefálicas responsáveis por percepções com áreas incumbidas de planejamento. Isso conferirá maior habilidade motora, maior apego aos estímulos visuais e melhor orientação espacial.

E mulheres terão mais conexões que unem hemisférios direito e esquerdo, o que privilegiará a combinação do modo analítico/racional, abrigado no hemisfério esquerdo, com o modo intuitivo estabelecido no hemisfério direito. Isso enaltece a habilidade da simulação mental, envolvida na cognição social.

Simulação mental é o processo de se projetar em outras realidades reais ou hipotéticas. Esse processo requer conexões de áreas cerebrais responsáveis pela linguagem, contidas em sua maior parte no hemisfério esquerdo, com áreas cerebrais sensoriais, de ambos os hemisférios. Se escutarmos a frase “sem agasalho passei frio” haverá uma decodificação semântica realizada pelas áreas encefálicas que cuidam da comunicação, mas a área cerebral que nos faz perceber o frio em situação real será ativada.

Esse é um exemplo de simulação mental, artifício que utilizamos para compreensão de textos, falas e fundamental para compressão de contextos sociais. Os mecanismos de simulação psíquica são escorados por conexões entre os hemisférios direito e esquerdo, mais abundantes nos cérebros femininos. Isso favorece cognição social, mas também aumenta a vulnerabilidade às opiniões de terceiros.

Teríamos então o padrão de conexões cerebrais como a chave que justifica os disparates entre os comportamentos dos meninos e meninas? Meninos preferirão atividades físicas e gostarão mais de videogames porque suas conexões cerebrais associam melhor o motor do que o sensorial, especialmente o rico estímulo visual que surge dos eletrônicos. As meninas, por terem mais conexões hemisfério direito/ esquerdo, realizam simulação mental com mais facilidade, o que justifica brincadeiras com roteiros. Eles lerão histórias visualmente chamativas, elas preferirão leituras de romances ou novelas.

Então existe um cérebro masculino e outro feminino? Não, o cérebro é composto por um complicado mosaico com funções interconectadas que gerarão comportamentos com traços masculinos e outros com traços femininos. Não existe uma assinatura de comportamento que permita identificar o sexo. Ou seja, se eu disser que alguém prefere livros de poesia às competições esportivas, não poderemos dizer, com base nestas afirmações qual é o seu sexo. É diferente de dizer que se há um útero, há uma vagina.

Tentar diferir o cérebro masculino do cérebro feminino seria o mesmo que discutir o sexo dos anjos? Para a neurologia e psiquiatria a resposta é não, os traços masculinos e femininos importam, porque muitas doenças afetam os sexos de forma diferente. A depressão agride mais as mulheres. O pensamento ruminante, aquele pensamento negativo persistente, que impede distrações ou buscas por solução, é mais marcante na depressão feminina, ao passo que suicídio e alcoolismo são mais frequentes entre homens deprimidos.

Logo, compreender essas peculiaridades podem trazer tratamentos e prevenções distintos.

Médico neurologista. Artigo na Folha de São Paulo, Caderno Opinião, de 08/03/2019.
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