*Djamila Ribeiro

Sistema é resultado histórico e funciona independentemente da vontade do sujeito que o repudia moralmente.

Tomar as reflexões a partir unicamente de experiências individuais sem contexto pode produzir julgamentos precipitados. É muito comum vermos posicionamentos de pessoas das mais variadas perspectivas dizerem o quanto abominam o racismo, pois é algo absolutamente condenável do ponto de vista moral etc.

Entretanto, essa mesma pessoa nunca presenciou uma situação de racismo ou se presenciou foi um ou outro evento durante sua vida.

Bom, é nesse sentido que é muito importante perceber o racismo como uma estrutura.

Assim como o patriarcado, trata-se do resultado histórico de séculos, em funcionamento muito antes de nós nascermos e em funcionamento independente da vontade do sujeito que o repudia moralmente.

​É um sistema que cria privilégios em detrimento de grupos sociais. É um sistema que se atualiza e busca manter a dinâmica dessa desigualdade. É impossível não ver o racismo, uma vez que ele organiza a sociedade.

Podemos perceber inúmeras manifestações de racismo e patriarcado, por exemplo, no número de mulheres negras como empregadas domésticas. Antes da pandemia, eram mais de 6 milhões na função, herança direta do colonialismo.

No pós-abolição, mulheres negras não receberam terras e dinheiro, como os colonos europeus. Elas eram escravizadas nas lavouras e dentro das casas e seguiram trabalhando.

Nesse ponto já percebemos um distanciamento desse grupo de mulheres do grupo de mulheres brancas que no século 20 protestou pelo direito de trabalhar, como explica Sueli Carneiro no célebre artigo “Enegrecendo o Feminismo”.

Quando falamos do mito da fragilidade feminina, que justificou historicamente a proteção paternalista dos homens sobre as mulheres, de que mulheres estamos falando?

Nós, mulheres negras, fazemos parte de um contingente de mulheres, provavelmente majoritário, que nunca reconheceram em si mesmas esse mito, porque nunca fomos tratadas como frágeis.

Fazemos parte de um contingente de mulheres que trabalharam durante séculos como escravas nas lavouras ou nas ruas, como vendedoras, quituteiras, prostitutas…

Mulheres que não entenderam quando as feministas disseram que mulheres deveriam ganhar as ruas e trabalhar! Fazemos parte de um contingente com identidade de objeto. Ontem, a serviço de frágeis sinhazinhas e de senhores de engenho tarados.

São suficientemente conhecidas as condições históricas nas Américas que construíram a relação de coisificação dos negros em geral e das mulheres negras em particular.

Sabemos, também, que em todo esse contexto de conquista e dominação a apropriação social das mulheres do grupo derrotado é um dos momentos emblemáticos de afirmação de superioridade do vencedor. Hoje, empregadas domésticas de mulheres liberadas e dondocas, ou de mulatas tipo exportação.

Em tristes tempos de pandemia, a fila de vacinação composta majoritariamente por pessoas brancas, pois é o grupo racial com maior expectativa de vida no país, também é uma manifestação do racismo.

Sem renda na pandemia, famílias dependem de doações para se alimentar

Com a queda de doações, G10 das Favelas passou a oferecer 700 refeições por dia aos moradores de Paraisópolis; no ano passado, eram 10 mil Lalo de Almeida/Lalo de Almeida/Folhapress

Moradores de Paraisópolis, na zona sul, aguardam para receber marmita distribuída pelo G10 das Favelas Lalo de Almeida/Lalo de Almeida/Folhapress

Com a queda de doações, G10 das Favelas passou a oferecer 700 refeições por dia aos moradores de Paraisópolis; no ano passado, eram 10 mil Lalo de Almeida/Lalo de Almeida/Folhapress

Já se formos direcionar nossos olhares para a fila de pessoas em busca de marmitas doadas —cada vez mais escassas frente à redução de doações na pandemia- podemos perceber quem não pode ficar em casa, pois a fome mora debaixo do mesmo teto. Percebemos mulheres negras segurando seus filhos no colo, em busca de um prato de comida.

Podemos perceber o racismo na divisão do trabalho, bastando perceber o perfil de banqueiros, executivos, desembargadores, professores de universidades, prefeitos, governadores, ministros, presidentes.

Basta ligar a TV e ver o número de representações de pessoas brancas na tela. Ver o racismo, portanto, é ir além da manifestação de uma injúria racial de uma pessoa dirigida a outra. Uma passagem interessante no TED de Leandro Karnal nos ajuda a compreender:

“Nós estamos em um núcleo, em uma bolha. Tão diluídos nela que não notamos quando vemos uma foto do Supremo Tribunal Federal e todos os juízes e juízas são brancos. Não notamos na foto do Senado que os senadores são dominantemente brancos. Não notamos que das 500 maiores empresas brasileiras, menos de 5% são administradas por negros. E menos de 0,5% são administradas por mulheres negras.”

Ou seja, nunca diga que você não viu racismo, pois isso apenas denotará sua ignorância sobre o que é racismo. O racismo, tal qual o patriarcado, é um sistema que extrapola as experiências individuais. Por isso, precisamos estudar e agir de forma antirracista em todos os espaços.

*Mestre em filosofia. Matéria na Folha de São Paulo, Caderno Opinião, de 25/03/2021.
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