Foi com essa adivinhação que, ainda menina de sete anos, entre choros e reclamações, minha mãe tomou conhecimento que se casaria com ‘Lourenço’, tal como sucedeu muitos anos mais tarde.

Não ouço mais falar nas antigas e famosas adivinhações feitas no período dos festejos juninos, tal como ouvia no meu tempo de menino e quase rapaz, e gostava de saber pela voz ritmada de Sebastiana, minha mãe e mestra, e de minhas tias Maria Wanderley, Gasparina e Alayde, que não cansavam de relembrar a fase da vida em que experimentaram essas brincadeiras, seja no Recife de nascimento como em Manaus, em cuja cidade chegaram ainda quase meninas.

Para cada festa de santo padroeiro havia adivinhação própria. Santo Antônio exigia que as promessas fossem para conseguir casamento, considerando a tradição a ele atribuída. Neste caso, era certo enfiar faca virgem na bananeira, à meia noite, e esperar que no dia seguinte estivesse gravada a letra inicial do nome do homem com o qual a moçoila deveria se casar, tal como sucedeu com minha Dinda que reconheceu a letra “W” em uma dessas adivinhações que fez e casou-se, anos mais tarde, com tio “Wanderley”. Outra forma e para o mesmo fim, era deitar na calçada da rua um fio de barbante virgem, em forma de aro, à meialuz, aguardar a passagem do primeiro homem que pisasse no meio do aro de corda e perguntar-lhe o nome: seria este, também, o nome do esperado noivo da donzela. Aliás, foi com essa adivinhação que, ainda menina de sete anos, entre choros e reclamações, minha mãe tomou conhecimento que se casaria com “Lourenço”, tal como sucedeu muitos anos mais tarde.

Santo Antônio, São João, São Pedro e São Marçaleram os mais festejados na ocasião, e cada um deles tinha as próprias alegorias e brincadeiras, feitas de um jeito especial as quais se destinavam a reunir as familias, animar os jovens, manter vivas as tradições mais antigas advindas de Portugal e do nordeste do país e que ganharam cores e formas particulares quando praticadas pelos amazonenses. Era época em que saíam à rua algumas brincadeiras inocentes que a rapaziada gostava de fazer, como o cordão das Lavadeiras e o brigue Independência, este que foi invenção e era liderado por meu pai, desde a região do Janauacá até Manaus, por muitas e muitas luas.

Nessa época o bonito era armar fogueira, passar de primo, soltar foguetinho de vários tipos, colocar agulha virgem na bacia de alumínio com água, pingar a vela nas águas dessa bacia, aproveitar as comidas típicas da época, dançar quadrilha e assistir os espetáculos de boi-bumbá – Mina de Ouro, Tira Prosa e Corre-Campo – que costumavam pedir licença para vender a língua do boi na frente das casas nas quais se apresentavam, sempre com autorização prévia do chefe da família.

Pelas ruas, desde cedo até noite alta, os passeios eram tomados pelos desfiles do boi-bumbá em desafios solenes e arriscados os quais, algumas vezes, se transformaram em brigas homéricas a ponto de exigir a intervenção da polícia Civil, mas nada disso tirava o brilho das noites iluminadas pelas fogueiras de pau, brasa ou paneiro de palha, porque o que mais valia era ver as fagulhas reluzirem no ar e as famílias experimentarem as emoções de festas populares, ricas de alegria, tradição e emoção.

Seria tão bom se ainda fosse assim!

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Roberio Braga
*Amazonense de Manaus. Historiador. Bacharel em Direito, especializado em Direito Agrário, pós-graduado em Administração de Política Cultural e Mestre em Direito Ambiental. Professor da Escola Superior da Magistratura do Amazonas e da Universidade do Estado do Amazonas. Ex-presidente da Academia Amazonense de Letras e do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas. Ex-Secretário de Estado de Cultura, desde 1997 até 2017 e atual Presidente da Academia Amazonense de Letras.

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