Luiz Felipe Pondé
*Luiz Felipe Pondé

Os produtores não foram adiante na demanda de que a princesa fosse lésbica.

Sim, eu sei. O debate cultural e de comportamento entre nós dá bode. Entre os que querem mudar o termo gordura trans porque julgam ser uma forma de opressão patriarcal causada pelos cisgêneros (já que gordura trans é uma coisa que faz mal) e os reacionários tarados por formas fálicas e armas, qualquer nível de conversa vai abaixo do rodapé.

Esse debate público parece estar dominado por desdentados condenados a comer sopa para sempre.

Nada deverá mudar no horizonte. Quando inteligentinhos se põem a discutir se princesas de desenhos animados são lésbicas ou assexuadas. Quando uma diretora de escola no Reino Unido proíbe seus alunos de assistir a “Romeu e Julieta” sob acusação de que a peça é “rudemente heterossexual”. Quando um filme ruim “discute” a homossexualidade de Jesus e uns fascistas idiotas atacam a sede de um grupo de artistas, é hora de se perguntar: afinal, o que deu errado para que fiquemos nos masturbando ao redor de temas sexuais (ou de gênero, como inteligentinhos dizem)?

Assisti a “Fronzen”. Achei a princesa Elsa uma chata infeliz que congela o mundo a sua volta e acredita ser autossuficiente na sua miséria afetiva.

Não assisti a “Frozen 2”, mas acompanhei o debate em torno dele. O que digo aqui é a partir desse debate. Uma espécie de reflexão a partir da fortuna crítica construída ao redor do filme, eu diria. Uma paródia dos exercícios borgianos acerca de livros que nunca existiram.

Eu sei que há índices gerados a partir de associações de gays e lésbicas e que esses índices tendem a se tornar cada vez mais importante nesse mercado, daí a existência desses debates sobre preferências sexuais de princesas -inclusive por conta da presença significativa de gays e lésbicas no mercado de produção de bens culturais.

Alguns entendem que os produtores do “Frozen 2” tiveram um acesso de “coldfeet” (caganeira em linguagem vernácula) e não foram adiante na demanda de que a princesa Elsa fosse lésbica. Quem sabe o “Frozen 3” atravesse a fronteira da opressão patriarcal.

Outros entendem que um passo adiante na direção da superação da opressão patriarcal sobre as princesas, e as meninas, por tabela, foi dado na medida em que Elsa seria assexuada. 

Há algum tempo pessoas que se dizem assexuadas exigem seus direitos. Quais seriam esses direitos? Sempre existiram pessoas que não gostam de sexo. Suspeito que, à medida que o tempo passa, as novas gerações tenham mais assexuados.

Se ter filhos já é considerado antiético por filósofos inteligentinhos, logo chegaremos à conclusão de que o ato da penetração é uma forma de violência ancestral, típica do patriarcado.

A verdade é que Elsa não tem namorado, e todos os personagens masculinos do desenho são irrelevantes. Proponho uma rápida pesquisa qualitativa pra ver se as meninas que adoram a Elsa são capazes de dizer os nomes dos personagens masculinos do desenho.

Eles são ou maus, ou, na verdade, bons, porque irrelevantes. A Elsa é a imagem da princesa empoderada que não precisa de homem, utopia de um certo fanatismo que corre nas veias abertas do mundo contemporâneo.

Confira algumas cenas da sequência de ‘Frozen

Cenas de ‘Frozen 2’ Divulgação

Mas, a loira Elsa tem, aparentemente, outra grande qualidade, além de ensinar as meninas que elas não devem perceber a existência dos meninos a sua volta porque eles ou são irrelevantes ou maus.

Aparentemente, a Elsa descende, em parte, de uma tribo da floresta. Se algum homem ocidental na sua família ancestral fez mal ao planeta, sua ascendência feminina da tribo salva tudo. Seria Elsa uma “aborígene gourmet”?

Eis os dois modelos femininos a serem cultivados pelas novas gerações de meninas: Elsa e Greta Thunberg, aquela menina que, se pudesse, mandava para a fogueira uma grande parte da humanidade.

Pergunto-me, afinal, qual seria o problema de Elsa ser lésbica ou assexuada? Nenhum. Mesmo que esses grupos sejam uma minoria (assim se diz deles), por que não poderiam ter uma princesa para chamar de sua? Todos têm direito a ter suas princesas, não só as héteros. Só assim a democracia chegará ao reino de fadas.

*Filósofo e escritor. Artigo na Folha de São Paulo, Caderno Ilustrada, de 13/01/2020.

 

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