Definitivamente não é fácil ser escritor na América Latina. No Brasil a velha ilusão da arte pura e o culto ao beletrismo vêm impedindo que os escritores considerem o seu ofício como uma profissão, ou mesmo se pensem como um profissional. Assim, para que um escritor brasileiro possa desenvolver o seu ofício, seja ele prosador ou poeta, será sempre necessário que ele esteja vinculado ao Estado ou à uma Universidade, isto é, que ele tenha uma fonte segura de renda. Prossegue neste começo de novo milênio tão cioso das urgências do mercado capitalista, o velho mito sacrossanto de que as coisas do espírito como a literatura, não têm nada a ver com dinheiro. É um mito piedoso, que serviu no século XIX para melhorar a posição dos escritores nas sociedades oligárquicas, que sempre consideraram Arte como coisa de ociosos e vagabundos. Aliás, diga-se de passagem, este discurso despistador nunca passou de discurso para maioria dos escritores realmente talentosos, Na prática, a produção literária funciona bem ao contrário do mito, e não foi por acaso que a consolidação do princípio dos Direitos Autorais começou justamente no século XVIII, na Europa, com o sucesso cada vez crescente dos romances populares.

Por outro lado, países como os Estados Unidos, Inglaterra, França, etc., estavam atravessando o processo de criar um público de leitores, uma audiência para espetáculos, enfim, um mercado de entretenimento. É claro que havia quem destoasse. Alguns até mesmo deforma extrema, como a poeta Emily Dickinson, uma vocação totalmente introspectiva, que escrevia uma poesia tão íntima que ela não desejava que fosse lida por mais ninguém. Dickinson considerava sua poesia algo tão pessoal; que dispensava leitores. Mas o exemplo de Dickinson não serve de argumento para os defensores da “literatura pura”. Primeiro, porque ela chegou a mandar seus poemas para um leitor, o escritor Thomas Wentworth Higginson, pedindo-lhe uma opinião editorial. Higginson era um homem de muitos contatos literários, contribuía em jornais e até escreveu um conhecido artigo oferecendo conselhos e encorajamento aos jovens escritores que queriam se tomar profissionais. À Dickinson ele respondeu com uma carta tecendo críticas ao que ele considerava hermetismo, mas externando alguns elogios, e seria o único leitor que a poeta teria em vida. Mas ainda que não existisse essa prova de que Emily Dickinson tentou escapar do isolamento, ela jamais serviria de paradigma do escritor puro, desinteressado, que se recusa a comercializar seu talento e sua arte.

Dickinson foi um caso bastante radical de recusa, bem distante do discurso purista masque não hesita em muitas vezes pagar do próprio bolso a publicação da obra, participar de noites de autógrafo e de entrevistas. Ritual que acaba com a adição do título ao currículo. Embora Emily Dickinson tenha talvez escrito os mais perfeitos poemas dos Estados Unidos no século XIX, a sua recusa em ingressar no mercado não serve como lastro para sancionar o discurso da literatura pura como missão, porque ela ao recusar o leilão público de sua mente, também nunca usou a literatura como capital social.

É justamente nos Estados Unidos que melhor se reconhece o esforço dos escritores para elevar o status do trabalho literário. Benjamin Franklin, por exemplo, praticamente criou sozinho a categoria, o mercado e os leitores, fundando solidamente uma tradição que logo teria seguidores do porte de um Wasbington Irwingou Emerson. É surpreendente para um latino-americano observar como Benjamin Franklin construiu as bases necessárias para os autores manterem sua autonomia, livres dos desdobramentos do Poder. E a única possibilidade de defender esta autonomia era ter como aliado um número significativo de leitores.

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Márcio Souza
Dramaturgo e historiador nascido em Manaus. Ex-presidente da FUNARTE. Professor Adjunto da Universidade da Califórnia, em Berkeley (USA). Membro da Academia Amazonense de Letras. Presidente do Conselho de Cultura da Prefeitura de Manaus.

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