No domingo passado iniciamos uma reflexão sobre o ofício de escrever no Brasil e na América Latina. De início tratamos do fenômeno do beletrismo. Que quer dará a impressão que escrever livros não tem nada a ver com dinheiro, e passamos um olhar sobre os Estados Unidos e a atitude dos escritores daquele país. Agora vamos passar para a Europa, onde outros países, como a França, atravessaram caminhos distintos para a construção de seu mercado editorial. Mas em todos aqueles países, os agentes principais, QU seja, autores e editores, logo se deram conta da importância de dar identidade ao mercado, reconhecendo-o como um espaço da criação literária, distinto dos espaços da Academia e das carreiras públicas.

E no Brasil, como se pode falarem mercado como espaço distinto? Em primeiro lugar seria interessante comparar, em termos de números, a indústria editorial e o mercado brasileiro com as indústrias nacionais de outros países. O Brasil tem uma larga tradição do ponto de vista editorial, embora tenha sido o último país da América a conquistar o direito de ter oficinas gráficas. Foi também retardatário na edição de livros, pois os primeiros volumes brasileiros foram publicados pela Imprensa Régia, no século XIX, quando alguns países como o México, São Domingos e o Peru já tinham uma apreciável bibliografia.

No entanto, apesar de ter chegado tarde, em algum momento, o Brasil promoveu saltos extraordinários.

Ainda em meados do século XIX, os editores do Rio de Janeiro, por exemplo, já estavam perfeitamente integrados ao conceito moderno de editoração, pagando e acertando contratos de direitos autorais. Como nas indústrias editoriais avançadas dos Estados Unidos e da Inglaterra, eles bancavam a edição, liberando os autores dos seus custos. Embora com um desenvolvimento econômico inconstante e com uma crônica incapacidade de elaborar políticas culturais governamentais consistentes para o livro e a leitura, o Brasil viu sua indústria editorial alcançar importantes patamares, evoluindo nas suas relações de produção, política de direitos autorais, avanço tecnológico e ocupação de um território continental com um razoável sistema de distribuição. Este surpreendente fato, de qualquer modo, não refletiu uma ação deliberada mas representou apenas uma resposta carregada de empirismo dos empresários do setor, condenados a ir para frente numa indústria cuja evolução do mercado tem muito mais a ver com densidade populacional que com progresso cultural. Ou seja, os números são duplamente dignos de admiração por registrarem o esforço de sobrevivência de um segmento frágil de uma economia

onde a crise é a norma, num país onde as altas taxas demográficas são quase um destino, levando-se em conta o espaço territorial habitável. O Brasil, por esta perspectiva, pode considerar os índices de sua indústria editorial como indicadores de um mercado a conquistar e de demanda reprimida.

Esta indústria que lança, hoje, uma média de 53 mil títulos por ano, tem um faturamento anual de cerca de dois e meio bilhões de dólares, gera uma média de 30 mil empregos fixos e contrata serviços de 17 mil profissionais temporários.

Publica cerca de mil e duzentos autores das diversas áreas, importa de 30 a 40 milhões de dólares por ano em livros, metade somente de língua inglesa e a outra composta em sua maioria de livros editados em Portugal, e exporta, em livros e serviços gráficos, cinco milhões e meio de dólares a cada ano e, em revistas, jornais e periódicos, mais de nove milhões de dólares, é claramente uma indústria de grandes potencialidades. Mas estes números, por exemplo, mostram que a exportação é irrisória quando comparada ao que ela importa e joga no mercado interno, deixando claro que é uma indústria voltada quase que exclusivamente para o mercado interno.

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Márcio Souza
Dramaturgo e historiador nascido em Manaus. Ex-presidente da FUNARTE. Professor Adjunto da Universidade da Califórnia, em Berkeley (USA). Membro da Academia Amazonense de Letras. Presidente do Conselho de Cultura da Prefeitura de Manaus.

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